terça-feira, setembro 1, 2026
14.2 C
Pinhais

Exposição a casos de suicídios aumenta risco entre jovens – 01/09/2026 – Equilíbrio e Saúde

Um novo estudo publicado na revista científica Jama (The Journal of the American Medical Association) mostrou que a exposição a uma tentativa de suicídio ocorrida dentro da rede de pessoas próximas quase triplica a probabilidade de um jovem também tentar tirar a própria vida.

De acordo com Laiana Quagliato, psiquiatra e pesquisadora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), que não participou do estudo, o suicídio é um problema multifatorial que possui uma dimensão interpessoal. Esse aspecto ganha particular importância durante a adolescência, época na qual observamos e nos apropriamos da forma na qual outras pessoas enfrentam situações de sofrimento

Por isso, ao ser exposto a casos de suicídio de pessoas com as quais se identificam, como colega, familiares ou até mesmo ídolos, pode haver uma aumento do risco entre esses jovens, especialmente se existirem outras condições de vulnerabilidade associadas.

Para chegar aos resultados do trabalho, os pesquisadores acompanharam por dois anos cerca de 2.000 participantes com idades entre 13 e 22 anos. Nenhum deles havia registro de tentativa de suicídio antes do início do estudo, porque os especialistas queriam observar o surgimento das primeiras manifestações, quando estas ocorressem.

Além de acompanhar o comportamento desses adolescentes, os cientistas também recolheram informações, por meio de entrevistas, sobre casos ou tentativas ocorridos com pessoas próximas a eles. Os resultados apontam para um aumento de quase três vezes na estatística de suicídio entre aqueles expostos a casos com pessoas próximas em comparação aos que não foram.

No trabalho, os pesquisadores também aplicaram um ajuste estatístico para isolar o impacto dos sintomas de depressão, mas o risco de tentativa entre os jovens expostos permaneceu 2,5 vezes maior em comparação àqueles que não passaram por essa experiência. Isso mostra que a falta de saúde mental explica apenas parte da vulnerabilidade, mas não o fenômeno por completo.

O estudo, entretanto, não demonstra que apenas a exposição a uma tentativa de suicídio causa outra tentativa. Existem outros fatores não controlados que aumentam simultaneamente a chance de alguém ser exposto a tentativas dentro de sua rede e a chance de realizar uma tentativa, como determinados ambientes familiares, condições socioeconômicas, experiências de bullying, uso de substâncias, eventos traumáticos ou outras características.

Historicamente, o medo do contágio gerou uma cultura de silêncio e tabu sobre o suicídio prejudicial para a sociedade. No entanto, profissionais de saúde mental vêm trabalhando para superar essa barreira. A psicóloga Andréia Garbin, docente da USP (Universidade de São Paulo), afirma que hoje existem diretrizes para promover uma abordagem cuidadosa capaz de prevenir novos casos.

Segundo Garbin, o mundo vem adotando políticas públicas que orientam a aplicação de interveções estruturadas de suporte que ocorrem após a confirmação de uma tentativa ou óbito em uma comunidade, como escolas, universidades ou empresas. A chamada posvenção, quando bem executada, atua como uma barreira ao contágio ao oferecer escuta qualificada para identificar as pessoas em maior sofrimento dentro do grupo afetado.

“A posvenção faz um chamamento para um processo de cuidado e acolhimento coletivo”, diz Garbin. “Diante da situação da ocorrência, que espaço a gente cria no trabalho e na comunidade para que a pessoa expresse luto, sofrimento, aborde determinada situação de vida?”. Em casa, manter espaços abertos de comunicação intrafamiliar, livres de preconceito, é outro elemento essencial para que os jovens verbalizem o que sentem diante de pais e mestres.

Nesse sentido, o novo estudo também reforça o valor da proximidade física. Nele, os especialistas apontam que redes de amigos presenciais maiores estiveram estatisticamente associadas à ocorrência de menos sintomas depressivos entre os participantes.

Uma revisão publicada em 2025 na revista científica Preventive Medicine analisou modelos de atendimento e diretrizes adotados entre 2014 e 2024 em países como Estados Unidos, Canadá e Austrália para identificar boas práticas.

Entre as estratégias identificadas estão programas de treinamento específicos para o ambiente de trabalho, a facilitação de grupos de apoio conduzidos por voluntários e pares treinados e a adoção de um modelo de saúde pública capaz de personalizar o cuidado em múltiplos níveis, desde informações seguras e acolhimento mútuo até psicoterapia especializada para os indivíduos mais afetados pelo luto.

Garbin chama a atenção para a necessidade de adoção de protocolos de saúde pública no Brasil, visto que o país tem registrado aumento no número de casos. Segundo dados do Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, foram mais de 15 mil óbitos por suicídio em 2021. O número de óbito revela, ainda, uma face oculta do problema.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que para cada caso consumado, ocorrem pelo menos vinte tentativas e, estima-se, cinco ou seis pessoas próximas sofrem impactos psicológicos e sociais derivados do contágio.

O Brasil acompanha uma tendência observada em toda região. Um estudo publicado na revista científica The Lancet Regional Health – Americas mostra que o suicídio consolidou-se como a terceira principal causa de morte entre pessoas de 10 a 24 anos no continente. Embora os homens ainda representem a maioria das vítimas, com uma proporção de três para um, o aumento das taxas é mais intenso entre as mulheres jovens.

O CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia. Em situações de sofrimento emocional ou diante de pensamentos de morte ou suicídio, é importante buscar apoio e acompanhamento profissional. Serviços de saúde podem oferecer acolhimento e atendimento especializado, enquanto situações de crise ou risco imediato requerem atendimento de urgência ou emergência.

Veja onde encontrar ajuda

CVV (Centro de Valorização da Vida)

Presta serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio para todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo e anonimato pelo site e telefone 188

cvv.org.br

Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio

Oferece grupos de apoio aos enlutados e a familiares de pessoas com ideação suicida, cartilhas informativas sobre prevenção e posvenção e cursos para profissionais.

vitaalere.com.br

Abrases (Associação Brasileira dos Sobrevivente Enlutados por Suicídio)

Disponibiliza materiais informativos, como cartilhas e ebooks, e indica grupos de apoio em todas as regiões do país.

abrases.org.br

Autor: Folha

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas