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Você sabia que as doenças cardíacas podem se apresentar em mulheres de uma forma diferente do que em homens? Em março, entrevistei Gláucia Moraes, diretora de Saúde da Mulher na Sociedade Brasileira de Cardiologia, que estava preocupada com o baixo conhecimento das mulheres e até mesmo dos profissionais de saúde sobre os sintomas.
No final de agosto, a professora Giulia Silva de Araújo de 26 anos morreu com tamponamento cardíaco —compressão do coração provocada pelo acúmulo de sangue ou líquido no pericárdio, membrana que envolve o órgão. Segundo a família, ouvida pela repórter Bruna Fantti, ela foi admitida e liberada duas vezes com diagnóstico de ansiedade.
Esse é o mesmo tipo de diagnóstico que muitas mulheres recebem ao chegarem em hospitais com infarto ou outras emergências cardiovasculares. Diferentes estudos atribuem o cenário ao chamado “viés de gênero”, quando há um desvio sistemático no julgamento baseado em estereótipos sobre o que se espera de homens e mulheres.
Recentemente, a Inglaterra identificou esse padrão de desigualdade como “misoginia médica” e afirmou que ele era um problema de saúde pública.
Na Nova Estratégia da Saúde da Mulher para a Inglaterra, o governo britânico usa dados para mostrar como a dor feminina é normalizada ou ignorada e como os corpos das mulheres foram historicamente sub-representados na ciência.
É a mesma conclusão que pesquisadores chegam sobre a demora de diagnóstico ou tratamento inadequado de outras condições nas mulheres —de dores pélvicas como endometriose a traumatismo craniano.
Em uma reportagem sobre endometriose, o ginecologista Ricardo Quintairos afirmou que há entraves para diagnósticos de mulheres: culturalmente, elas normalizam sentir dor e não conhecem seus sintomas. Quando finalmente entendem que não é normal, os profissionais de saúde não as ouvem. Isso porque não há pesquisas científicas o suficiente sobre o corpo feminino e o padrão estudado é o corpo masculino.
Entrevistei para um texto que sairá em breve uma jovem de 23 anos que sentia cólicas desde os 8 anos. Ela dizia para a ginecologista que não era normal sentir tanta dor e ouvia da profissional que era “assim mesmo”. Melhoraria quando ela tivesse filhos ou quando ficasse mais velha. Aos 17 anos, a menina perdeu um ovário devido à Somp (Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina).
Essas histórias me lembram um grupo de mulheres com quem converso desde 2023. Elas processaram um cirurgião plástico do sul da Bahia por negligência e danos morais. Recentemente, as histórias vieram à tona porque uma mulher morreu na sua mesa cirúrgica. As mulheres se perguntam se agora serão ouvidas.
Em geral, relatam, os problemas começavam no pós-operatório. Quando os pontos abriam, saía pus dos ferimentos, a pele começava a necrosar ou os seios inchavam desproporcionalmente, elas procuravam o médico. Ele respondia, afirmam, “É normal”.
Há um inquérito policial sobre um caso de 2022, envolvendo o mesmo médico. A família relata que a mulher começou a sentir dor de cabeça e falta de ar, sem conseguir se deitar, um dia após receber alta. O médico afirmou que era “normal” e receitou remédios. Ela morreu menos de um mês depois, com os mesmos sintomas. A certidão de óbito apontou “insuficiência respiratória aguda, embolia pulmonar, trombose venosa profunda e cirurgia plástica”. Defesa dele nega vínculo entre episódios e atribui morte a reação anestésica rara.
Questionados sobre por que os médicos não ouvem as mulheres, os diferentes pesquisadores ouvidos nas reportagens atribuíram o padrão ao viés de gênero, que lê a mulher como dramática ou exagerando a dor, e à falta de estudos sobre o corpo feminino. Segundo Moraes, eles não aprendem o quadro biológico das mulheres na faculdade.
Uma mulher para conhecer
Gloria Steinem (1934-2026)
Um dia após esta newsletter ir ao ar na semana passada, morreu Gloria Steinem, jornalista e uma das principais vozes da segunda onda do feminismo americano, aos 92 anos. Foi ela quem ajudou a levar temas como aborto e violência doméstica para as capas de revistas, numa época em que a imprensa tradicional evitava o assunto.
Vale lembrar que Steinem também ficou marcada por uma reportagem disfarçada de coelhinha da Playboy, em 1963, na qual expôs as condições precárias enfrentadas pelas garçonetes do clube de Hugh Hefner. Anos depois, fundou a Ms. Magazine, a primeira revista de grande circulação escrita e dirigida inteiramente por mulheres.
No dia da morte, a New Yorker publicou o último ensaio da jornalista, de tom otimista mesmo diante de um cenário de retrocessos. Nele, Steinem afirmou que teve sorte de viver o suficiente para lembrar aos mais jovens os inúmeros avanços já feitos em relação aos direitos das mulheres. Mas disse que os maiores avanços partem de cada pessoa e defendeu tratar toda mulher como um ser humano pleno, seja incentivando a mãe a realizar os próprios sonhos, seja não esperando que a namorada cozinhe o jantar.
Autor: Folha








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