Um homem está perto de morrer e usa seu tempo para pensar em como foi a própria vida. Nem todos ao seu redor lamentam a sua morte ou glorificam os seus esforços: há um amor duvidoso, muito cinismo, egoísmo e outras emoções humanas pouco louváveis.
Que cenário desolador! Lutar tanto, viver tanto e no fim ser apenas um amontoado de carne e osso cujo fim é aguardado com ansiedade pelos seus pares. Quem são, afinal, as pessoas que viveram comigo? Sou amado, fui amado?
Essas perguntas são do Ivan Ilitch, que alívio, não são minhas nem suas. Mas poderiam ser. Ele é o protagonista do livro “A Morte de Ivan Ilitch“, publicado por Liev Tolstói em 1886 e que chegou à lista de mais vendidos no Brasil em 2026 graças a um jogador de futebol.
Gustavo Scarpa, o Scarpinha, gosta de andar de skate, jogar xadrez e ler. É desses assuntos que ele trata nos vídeos do seu canal no YouTube, só pelo prazer de falar do que ama. Sem pretensão de nada.
Narra o clássico de Tolstói como se contasse a história de um vizinho, de um tio distante, um cara qualquer da rua. Erra a pronúncia dos nomes próprios dos personagens, pois ninguém é obrigado a saber russo, usa o seu repertório de percepções para dizer o que achou da leitura. E pronto. Deixou todo mundo com vontade de ler.
Nesse gesto tão espontâneo está o cerne de algo importante: a literatura pode e deve ser prazer e felicidade, às vezes tristeza que passa, às vezes emoção descontrolada. Igual ao futebol.
O Gustavo Scarpa atua como meio-campista. Eu não sei o que é isso. Também não sei explicar o que é impedimento, tiro de meta, escanteio. Mas gosto de ver um bom jogador em campo, o rosto da torcida, a catarse coletiva.
Ninguém precisa estudar letras, saber russo, ter feito faculdade, ou sei lá quais credenciais para gostar de literatura como leitor apaixonado. Botar os olhos em um texto e deixar o tempo passar entre as palavras, isso é para todos. Deve ser para todos.
E não há discurso de sedução mais eficaz do que fazer o que o Scarpa tem feito, dividir com o mundo um prazer da sua vida. Todo mundo sai ganhando se tivermos um Brasil leitor, cada vez mais leitor.
De vez em quando eu vejo alguém dizendo que, quando um livro vende muito, certamente é um texto fraco e fácil. E agora? O que essas pessoas estarão dizendo ao ver Tólstoi no topo dos mais vendidos? Esse preconceito tem um cheiro ruim de arrogância, talvez de inveja. É até cafona.
Cá estou eu, fã assumida de um jogador de futebol. Inclusive virei atleticana. Sou Galo e estou a caminho de Minas Gerais para receber minha camisa oficial do Atlético, meu nome e o número 13 nas costas. Foi um presente do Eduardo de Ávila e do Sérgio Coelho, presidente do clube. Por causa disso tudo, a torcedora Carolina Marques criou o Galeitura, um clube do livro inspirado nas indicações do Gustavo Scarpa.
Imagine só chegar ao leito de morte como Ivan Ilitch e pensar: eu amei muito, eu li muito, tive uma vida sensacional. É o que todos queremos dizer quando chegar o dia. Que demore muito.
Enquanto estivermos vivos, vamos ler e disseminar a alegria que os livros podem nos proporcionar. Uma boa história e um gol bonito fazem muito bem ao coração. Se for gol do Atlético, melhor ainda.
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Autor: Folha








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