Primeiro sul-americano na maratona de Berlim, prova disputada neste domingo (27), o paulista Paulo Roberto de Paula, 30º no geral com 2:12:07, chegou 40 posições à frente de Antonio Pereira, o segundo sul-americano –e também brasileiro– da prova.
Quando se fala em maratona, Berlim é o suprassumo da coisa toda. Nenhuma outra “major” teve mais recordes mundiais quebrados: são 13, um deles do brasileiro Ronaldo da Costa, que em 1998 detonou uma marca que permanecera invicta por dez anos.
A expectativa em torno da mara alemã só não era maior por conta das ausências do queniano Tião Sawe e do etíope Yomif Kejelcha, respectivamente campeão e vice em Londres, em abril, quando ambos explodiram a marca mítica das duas horas dos 42 km.
Além disso, Berlim é a cidadela, a fortaleza da Adidas, marca que vem fazendo barba, cabelo e bigode em 2026 com sua família de tênis Adios, usada por Tião e por Kejelcha.
De volta a Paulo, seu 30º lugar é um feito imenso. Tem 47 anos, o que faz dele um vovô, um ancião mesmo numa prova em que senioridade não é propriamente handicap.
O último grande herói da maratona, o queniano Eliud Kipchoge, 41, faz desde o ano passado o que Pelé fez durante a década de 1970: exibição hors-concours. Seu último grande ano competitivo foi 2022, quando meteu um 2:01:09, justamente em Berlim.
Sim, Giovani dos Santos, 45, fez um temporal na mara de Porto Alegre deste ano: 2:12:56. Mas os 42,2 km deixaram de ser a prova de eleição do parça há tempos.
Se os 47 anos de Paulo de Paula impressionam, impressiona ainda mais sua persistência. Faz tudo às próprias custas, sem qualquer apoio oficial. Para correr, seja Porto Alegre, seja Berlim, o mano faz vaquinhas para levantar o pixo mínimo necessário.
(A Skechers foi a última patrocinadora digna de nota, presente por dez anos consecutivos. Esse tempo passou: agora Paulo tenta sensibilizar de 10 a 15 doadores para que possam contribuir com de R$ 1.000 a R$ 1.500 mensais.)
Há um ano e meio, neste mesmo espaço, escrevi o seguinte: “[Paulo de] Paula é treinado pelo irmão, examinado por médico recrutado entre os amadores a quem orienta, obtém suplementação de uma modelo e maratonista que lhe repassa algumas ‘vitaminas’ e corre com tênis doados por camaradas de seu círculo.
Não tem nutricionista, porque ‘mal dá para comprar pacote de arroz, imagina um queijinho’. Nem sempre consegue convites para participar das provas que elege correr”.
Nada mudou. Para ser o melhor sul-americano em Berlim ele precisou rachar hotel com desconhecidos e andar (de novo: andar) por cerca de 3 km até o portal de largada; também voltou caminhando para o hotel após a corrida. O tênis Asics que ganhou de um amigo –a marca o esnobou num evento de fim de ano, no Brasil– era rodado, amaciado em outras competições.
Ele não poupa os dirigentes do atletismo nacional. “Vagabundo”, “cobra” e “pau-mandado” são alguns dos qualificativos com que os brindou na conversa com este colunista após sua performance estelar em Berlim.
O site da Confederação Brasileira de Atletismo não mencionou a performance do atleta neste domingo, ainda que tenha registrado a vitória da baiana Núbia Oliveira nas 10 milhas Garoto, no Espírito Santo.
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Autor: Folha








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