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Enhanced Games rendem marketing, mas fracassam no esporte – 29/09/2026 – Bruno Gualano

“Ver pessoas de 40, 50, 60 anos quebrando recordes mundiais” era o desejo maior de Aron D’Souza, fundador dos Enhanced Games (EG). Não por ser um aficionado pelo esporte, mas, como ele viria a confessar, para plantar em cada um de nós, meros mortais, a pergunta: “O que ele está tomando e como eu faço para conseguir isso?”.

Ao abolir as regras antidoping, os idealizadores dos EG esperavam que o aprimoramento farmacológico possibilitasse aos atletas superar seus limites, o que se materializaria numa profusão de recordes. Realizada a primeira edição, em maio de 2026, investigamos, em estudo liderado pelo Dr. Rafael Azevedo, a sair na Physiological Reports, se as nada módicas expectativas corresponderam à realidade.

De dados públicos, identificamos 42 atletas e 66 desempenhos em atletismo, natação e levantamento de peso, que foram comparados aos recordes mundiais vigentes e às melhores marcas pessoais. Não se divulgou como cada competidor foi dopado, mas protocolos do gênero envolvem testosterona e outros anabolizantes, hormônio do crescimento e eritropoietina. Apenas quatro atletas declararam não utilizar substâncias dopantes, permitindo comparação exploratória com os “aprimorados”.

Observou-se um único recorde mundial, nos 50 m livres, obtido com traje de corpo inteiro proibido pela World Aquatics. Maximilian Martin, CEO dos EG, mal disfarçou o constrangimento: “Esperava que quebrássemos mais alguns recordes mundiais. Mas, no fim das contas, isso é esporte ao vivo.”

E havia mais para embaraçar Martin. Antes do evento, os melhores resultados dos atletas estavam, em média, 5,8% abaixo dos respectivos recordes mundiais; nos jogos, essa distância aumentou para 8,6%. Contra 21 novos recordes pessoais, houve 45 casos em que a melhor marca da carreira não foi superada. No conjunto, o desempenho médio nos jogos foi 2,7% pior que o histórico. No atletismo –a joia da coroa do esporte de elite–, nenhum atleta bateu sua melhor marca pessoal. Dirão os organizadores que muitos competidores vinham de longa inatividade ou treino irregular. Ora, não era exatamente isso que as drogas prometiam suprir?

Mais curiosos foram os resultados dos não dopados, que, em média, ficaram mais próximos de seus recordes pessoais do que os aprimorados. Isso não permite dizer que os não dopados são atleticamente superiores a seus pares, mas reforça que o desempenho esportivo é multifatorial e não se reduz à farmacologia.

Também testamos a hipótese de que as drogas compensariam o declínio de desempenho associado à idade. E ela se mostrou frágil: quem bateu recorde pessoal tendeu a ser mais jovem e com idade mais próxima à da melhor marca da carreira. Nada indica que o protocolo tenha atenuado essa queda.

Às promessas de bem-estar, rejuvenescimento, melhoramento de si, impôs-se a irredutível realidade. Realidade que, despida do marketing e revestida pelos fatos, jamais permitiria supor que “inovações biotecnológicas” –leia-se drogas e suplementos que há muito circulam no mundo fitness– entregariam o prometido, senão seu contrário.

Azar no jogo, sorte no negócio. Listada na Bolsa de Nova York, a empresa anunciou US$ 32 milhões em contratos de patrocínio e elevou a US$ 10 milhões o prêmio para quem superar, em 2027, o recorde dos 100 metros. “Imagine se alguém de 60 anos quebrasse o recorde de Usain Bolt. Isso nos forçaria a pensar sobre o que significa se aposentar aos 65″, dizia D’Souza, já em 2024.

Talvez só a fé irrefreável no prolongamento da vida humana útil explique a vista grossa do mercado diante de um saldo medíocre: a primeira edição dos EG não fez mais do que parir um rato anabolizado.


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Autor: Folha

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