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Interferência de psicólogo em decisões do paciente – 30/09/2026 – Equilíbrio

Alice (nome fictício), de Brasília (DF), tinha 23 anos quando ouviu da psicóloga que deveria doar a gata que acabara de adotar. Segundo ela, a profissional disse que o animal incomodava seu então namorado e que o relacionamento deveria ser prioridade.

Na época, estava afastada de quase todos os amigos e havia adotado a gata porque se sentia sozinha. Alice não seguiu o conselho.

O caso expõe uma discussão sobre o papel do psicólogo nas decisões da vida do paciente.

Para Joeder da Silva Messias, psicólogo e professor da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia), quem conduz a terapia não deve decidir pelo paciente nem indicar qual caminho seguir. Para ele, isso pode limitar a autonomia da pessoa e criar dependência.

Para a presidente do CFP (Conselho Federal de Psicologia), Ivani Oliveira, preservar essa autonomia não significa se omitir. Ela diz que o profissional pode ajudar a pessoa a identificar os fatores envolvidos, levando em conta sua história e o contexto de vida.

Isso vale, por exemplo, para dúvidas sobre terminar um relacionamento ou mudar de emprego. Nesses casos, a decisão deve partir dos referenciais da própria pessoa. “O ideal que a pessoa tem para si não pode ser o ideal que o profissional tem para ela.”



Muitas pessoas chegam na psicoterapia esperando respostas prontas e, quando encontram alguém disposto a oferecê-las, dificilmente percebem de início que essa conduta é inadequada

Com Alice, as orientações não se limitaram à gata. Durante as sessões, a psicóloga passava o que chamava de “deveres de casa”.

Em uma dessas tarefas, orientou a jovem a tomar a iniciativa de ter relações sexuais com o namorado. A sugestão veio após ela relatar problemas no relacionamento.

De acordo com Alice, a terapeuta afirmou que ela estava “liberando pouco” e que ceder fazia parte do papel da mulher.

Messias afirma que a convivência com figuras de autoridade, como pais, professores e chefes, pode reforçar o peso desse tipo de fala. Segundo ele, essa expectativa também pode aparecer nos cuidados de saúde, em que o paciente costuma receber instruções sobre o que fazer.

“Muitas pessoas chegam na psicoterapia esperando respostas prontas e, quando encontram alguém disposto a oferecê-las, dificilmente percebem de início que essa conduta é inadequada”, diz.

Para Messias, cabe ao psicólogo romper essa lógica. Ao direcionar escolhas, pode acabar “tomando para si a responsabilidade pelas decisões da vida de outra pessoa”.

Oliveira destaca que a relação terapêutica também envolve assimetria de poder. Quem procura atendimento pode estar vulnerável e reconhecer no psicólogo uma autoridade técnica.

O Código de Ética Profissional do Psicólogo, de agosto de 2005, determina que o profissional considere as relações de poder nos contextos em que atua. Também estabelece como princípios o respeito à liberdade, à dignidade, à igualdade e à integridade.

O texto proíbe ainda induzir convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas ou de orientação sexual e qualquer tipo de preconceito.

Júlia Mauad Elias de Oliveira, 22, de São José do Rio Preto (SP), começou a fazer psicoterapia ainda na pré-adolescência. Durante anos, o acompanhamento a ajudou.

A relação mudou por volta dos 16 anos, quando levou à sessão uma dúvida sobre por que não conseguia namorar e se havia algo de errado com ela.

Segundo Júlia, a psicóloga respondeu, sem que ela se lembre das palavras exatas, que a dificuldade estaria ligada ao fato de se envolver com muitas pessoas e ser considerada fácil demais.

Interpretou a fala como julgamento e passou a esconder informações da psicóloga por medo de novas críticas. “Eu comecei a mentir em todas as sessões”, declara.

Até então, a psicóloga era uma das poucas pessoas com quem Júlia se abria. “Eu senti que, nossa, perdi mais uma pessoa com quem eu podia conversar.”

Ela também diz que não se sentia à vontade para discordar porque acreditava que a profissional tentaria convencê-la de sua posição.

Aos 18 anos, interrompeu a psicoterapia e só retomou o acompanhamento anos depois, por medo de viver situação semelhante com outro profissional.

Quando o paciente tem dificuldade de discordar, Oliveira diz que pode falar sobre esse incômodo com o terapeuta e observar como ele reage.

Segundo a presidente do CFP, introduzir uma questão que não partiu do paciente pode ser um sinal para observar a postura do profissional.

“O psicólogo não deve sugerir, por exemplo, que a pessoa emagreça ou mude a aparência sem que ela tenha levado esse assunto à sessão”, diz.

Caso haja suspeita de infração ética, os Conselhos Regionais de Psicologia recebem denúncias para apurar a conduta dos profissionais.

Oliveira recomenda ainda consultar, antes de iniciar o atendimento, o Cadastro Nacional de Profissionais de Psicologia, que informa se o psicólogo está habilitado a exercer a profissão.

Alice, que não doou sua gata, continuou com a mesma psicóloga, mas diz que sua relação com o tratamento mudou. Passou a usar as sessões para desabafar sobre assuntos que considera banais, “como uma ida ao salão ou à faculdade”.

Ela afirma que prefere levar esses assuntos à terapia a “encher o saco” da família e dos amigos. Diz que, por pagar R$ 2.000 por hora, espera que a terapeuta a escute.

Autor: Folha

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