Buenos Aires
| The New York Times
Santiago Oría, cineasta pessoal e estrategista de mídia do presidente argentino Javier Milei, ficou impressionado quando viu os vídeos de uma jovem influenciadora no Instagram. A mulher era articulada e eloquente ao defender posições favoráveis ao governo.
“Ela é inteligente; é superbonita”, disse Oría em entrevista. “Eu disse: temos que dar a ela mais visibilidade.”

Presidente argentino diz que país não pretende regulamentar IA de forma antecipada
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Brendan Smialowski – 22.set.26/AFP
O problema é que a influenciadora, Libertarian Lucía, era uma criação feita por inteligência artificial. Oría, depois de perceber isso, disse que perdeu o interesse, mas não se incomodou com o engano.
“É totalmente inofensivo”, afirmou. “Não há nada de prejudicial.”
A visão de Oría reflete a abordagem mais permissiva do governo Milei em relação à inteligência artificial. Milei apresenta a Argentina como um refúgio para uma IA sem regulamentação, enquanto líderes ocidentais enfrentam dificuldades para lidar com uma tecnologia que muitos temem representar ameaças existenciais à humanidade e até executivos de empresas de tecnologia defendem a criação de proteções.
“Na inteligência artificial, a Argentina estará na vanguarda da liberdade”, disse Milei na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, ao afirmar o “compromisso de não regulamentar a IA de forma antecipada”.
Milei, que propôs a criação de “empresas não humanas” administradas por agentes de IA, busca atrair investimentos estrangeiros para a construção de data centers na Patagônia. Ele também publica continuamente conteúdo gerado por IA nas redes sociais.
Na Assembleia da ONU, muitos líderes mundiais concordaram sobre a necessidade de enfrentar os riscos da IA, mas as estratégias divergem em diferentes partes do mundo.
A visão de Milei, em alguns aspectos, se aproxima da de seu aliado político, o presidente Donald Trump, que argumenta que a regulamentação sufoca a inovação e o crescimento econômico e favorece a China. A União Europeia introduziu algumas regras, mas, em grande parte, existe um vazio entre as políticas governamentais e o rápido avanço das capacidades da IA.
A Argentina está a milhares de quilômetros dos principais data centers, localizados nos Estados Unidos e China, e não é um participante relevante no setor. Ainda não está claro se as propostas de Milei e os investimentos em IA no país chegarão a se concretizar.
Mas Milei, o único presidente libertário do mundo, busca colocar a Argentina no debate global com a ousada proposta de apostar tudo na tecnologia.
Yuval Noah Harari, historiador israelense e filósofo do futuro, afirmou que a ideia de Milei de criar empresas não humanas poderia levar à criação de um “Estado de IA”, no qual algoritmos operariam fora do alcance da legislação criminal. Os agentes, escreveu ele, não poderiam ser dissuadidos de cometer atividades ilegais “porque a sanção definitiva que impede executivos e funcionários humanos de fazê-lo — a prisão— é irrelevante para as IAs”.
DO LADO DA LIBERDADE
O ministro argentino responsável pela desregulamentação, Federico Sturzenegger, disse que a ideia de introduzir empresas não humanas operadas por agentes de IA veio de Emiliano Kargieman, um dos empreendedores de tecnologia mais bem-sucedidos da Argentina.
“Eu meio que apresentei a eles minha ideia mais maluca”, disse Kargieman em entrevista. A Argentina, onde a força de trabalho é de cerca de 15 milhões de pessoas, poderia ter milhões de robôs gerando receita para o país, afirmou. Com isso, disse, a Argentina “poderia desempenhar um papel econômico muito mais importante no mundo”.
O governo gostou da proposta. “Eu disse: ‘isso é meio legal’”, afirmou Sturzenegger.
Milei anunciou que buscaria aprovar uma lei permitindo a criação de empresas cujas operações poderiam ser realizadas por agentes de IA sem funcionários humanos.
Integrantes da oposição argentina e especialistas em direito levantaram alertas. Embora a IA não possa ser responsabilizada, “as consequências de seus erros são sofridas por indivíduos muito reais”, advertiu Alan Daitch, especialista argentino em IA, ao site de notícias Infobae. Ele defendeu a regulamentação.
Sturzenegger afirmou que o governo ajustou o projeto para tentar aprová-lo no Congresso. Pela versão atualizada, as empresas poderão ser administradas integralmente por agentes de IA, mas deverão manter um responsável humano que terá a responsabilidade jurídica final. Segundo ele, o marco legal foi concebido principalmente para conceder incentivos fiscais a empresas administradas por agentes de IA.
“Queremos que a Argentina seja um lugar onde seja atraente abrir uma empresa”, disse Sturzenegger. Se países europeus e estados americanos impuserem regras rígidas, a Argentina poderia se tornar uma terra de possibilidades sem regulamentação, afirmou.
DATA CENTERS NA PATAGÔNIA
Nos Estados Unidos, o crescimento dos data centers provocou uma reação cada vez maior em diferentes espectros políticos, devido às preocupações com a demanda por eletricidade e água e a temores mais amplos sobre o impacto da IA nos empregos e na sociedade.
Autoridades argentinas apresentam o país como uma alternativa. A Patagônia —uma extensa região de planícies áridas e montanhas cobertas por geleiras— é pouco povoada, tem uma oferta crescente de energia graças às grandes reservas de petróleo e gás de xisto e possui um clima naturalmente frio que pode ajudar a resfriar grandes instalações de servidores.
Com uma indústria de data centers relativamente pequena, a Argentina está muito atrás de polos consolidados da região, como Brasil e Chile, mas um número crescente de empresas demonstra interesse no país. No ano passado, a OpenAI assinou uma carta de intenções com uma empresa argentina para estudar um grande projeto de data center para IA.
Ainda há muitos desafios, incluindo a fragilidade da rede elétrica do país, controles cambiais e o alto custo de construção da infraestrutura de transmissão. Milei, porém, propôs um incentivo fiscal generoso para atrair investimentos significativos em inteligência artificial e outras tecnologias emergentes, com atenção especial a grandes data centers. O programa precisa ser aprovado pelo Senado.
LIMITES CADA VEZ MAIS DIFUSOS
O potencial da Argentina como polo de IA enfrenta um futuro incerto, mas, por enquanto, Milei se mostrou um entusiasta da tecnologia. Ele adotou a IA como uma ferramenta importante de comunicação política, usando-a para ajudar a impulsionar seu sucesso viral nas redes sociais.
“Temos que adotá-la sem medo”, disse Oría, o estrategista de mídia.
Milei publica com frequência seu alter ego criado por IA, que geralmente aparece mais jovem, mais musculoso e com o maxilar mais quadrado. Ele já apareceu como o Homem-Aranha, como jogador de futebol ao lado de Lionel Messi e, mais recentemente, em uma conversa com Domingo Faustino Sarmiento, presidente argentino que morreu em 1888.
Sua equipe de comunicação afirma que as imagens não são uma tentativa de enganar, mas uma ferramenta para potencializar a presença de Milei na internet com um fluxo contínuo de conteúdo. O objetivo é criar imagens que Santiago Pacheco, responsável pela produção do conteúdo gerado por IA para as redes sociais de Milei, descreveu como “estranhas”, “heroicas” e “épicas”.
Ainda assim, o hábito de Milei de republicar com frequência imagens de IA feitas por fãs muitas vezes torna indistinta a fronteira entre sátira criativa e engano. Em janeiro, enquanto incêndios florestais atingiam a Patagônia, Milei compartilhou uma imagem em que aparecia ao lado de bombeiros combatendo as chamas, embora não tivesse viajado até a região atingida pelo fogo.
Muitos criticaram o fato de que, na imagem criada digitalmente, Milei aparecia apertando a mão de um bombeiro, enquanto, na realidade, seu governo havia cortado recursos destinados aos órgãos responsáveis pelo combate aos incêndios.
Mas até mesmo dentro de sua própria equipe, especialistas em IA recomendam cautela.
“A fronteira está ficando cada vez mais difusa”, disse Pacheco, acrescentando: “precisamos estar muito conscientes dos riscos”.
Autor: Folha








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