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Mulheres recorrem à testosterona: o que a ciência diz? – 10/10/2026 – Equilíbrio

Uma reportagem recente da BBC descreveu mulheres se passando por homens para conseguir gel de testosterona, na esperança de aliviar os sintomas da menopausa, porque produtos de testosterona destinados ao público feminino não estão facilmente disponíveis. Mas por que o interesse por esse hormônio predominantemente masculino está crescendo tanto? E há riscos envolvidos?

A testosterona costuma ser vista como o hormônio masculino por excelência. Ela está associada à puberdade, ao desenvolvimento muscular e à função reprodutiva. Mas essa visão deixa de lado uma importante realidade biológica: as mulheres também produzem testosterona, e ela desempenha funções importantes em todo o organismo.

Embora as concentrações no sangue sejam normalmente cerca de dez a 15 vezes menores do que nos homens, a testosterona continua biologicamente ativa nas mulheres.

As mulheres produzem testosterona nos ovários e nas glândulas suprarrenais, e o organismo também a produz ao transformar outros hormônios no tecido adiposo, na pele e nos músculos. Parte dessa testosterona é então usada para produzir estradiol, a principal forma de estrogênio nas mulheres em idade reprodutiva.

Mas a testosterona não é apenas uma reserva de estrogênio. Ela também atua diretamente em tecidos de todo o organismo, incluindo ossos, músculos, coração, vasos sanguíneos e cérebro. Isso levou pesquisadores a examinar mais atentamente como a testosterona pode afetar a saúde das mulheres.

Assim como ocorre nos homens, os níveis de testosterona diminuem gradualmente ao longo da vida reprodutiva, embora os padrões variem de pessoa para pessoa. Essa queda começa bem antes da menopausa e, ao contrário do estrogênio, não se acentua bruscamente durante a menopausa, à medida que a função dos ovários diminui.

Medir a magnitude dessa queda é um problema à parte. Os níveis nas mulheres são tão baixos que, historicamente, os exames de sangue de rotina tiveram dificuldade para medi-los de forma confiável, o que torna difícil definir com precisão quais seriam as concentrações “normais”.

O que dizem as evidências

A testosterona influencia o desejo sexual, um de seus usos mais estudados em mulheres é no tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH) —desejo sexual persistentemente baixo que causa sofrimento.

Uma metanálise de 2019, que reuniu 36 estudos randomizados, constatou que a testosterona, administrada em doses cuidadosamente controladas, pode melhorar o desejo e a satisfação sexual de algumas mulheres na pós-menopausa. Diretrizes clínicas internacionais reconhecem a terapia com testosterona como um tratamento baseado em evidências para o TDSH, a única condição em mulheres para a qual há evidências clínicas suficientes para recomendar esse tipo de terapia.

O desejo sexual é influenciado tanto pelos relacionamentos, pelo estresse, pelo cansaço e pela saúde mental quanto por qualquer hormônio isolado. A testosterona é um entre vários fatores, e não um interruptor central.

Para além do desejo sexual, praticamente não há evidências provenientes de ensaios clínicos de alta qualidade com mulheres. Mas isso não significa necessariamente que a testosterona não exerça uma influência mais ampla sobre a saúde feminina.

Os estudos randomizados são a melhor forma de determinar se um tratamento causa determinado efeito, mas não conseguem captar tudo o que acontece na prática médica cotidiana. As pacientes podem ter outros problemas de saúde ou tomar diversos medicamentos, o que dificulta saber se uma melhora se deve à testosterona ou a outro fator.

A testosterona não substitui a terapia hormonal convencional para a menopausa. Quando prescrita, geralmente é usada em conjunto com estrogênio —e, às vezes, progesterona. Algumas mulheres relatam que, mesmo depois de sua terapia de reposição hormonal (TRH) convencional ter sido ajustada da melhor forma possível, ainda sentem que os sintomas não foram totalmente tratados e que a adição de testosterona produz uma diferença perceptível.

Mulheres e médicos que usam testosterona nos cuidados de rotina relacionados à menopausa relatam benefícios que vão além da função sexual. Um estudo recente realizado no Reino Unido com 510 mulheres atendidas em uma clínica especializada em menopausa constatou que, após quatro meses de uso de gel de testosterona, elas relataram melhoras no humor, nos sintomas cognitivos e na libido. Essas descobertas são interessantes, mas não provam que o tratamento com testosterona tenha causado essas mudanças.

Evidências do mundo real não devem substituir os estudos randomizados, mas a ausência de grandes estudos tampouco significa que essas observações devam ser simplesmente descartadas. Em vez disso, elas podem ajudar a identificar efeitos que merecem ser testados nos ensaios clínicos que ainda precisam ser realizados.

Um mercado que só agora começa a acompanhar a demanda

As evidências sobre o uso de testosterona em mulheres são mais sólidas no que diz respeito ao desejo sexual, mas os produtos desenvolvidos especificamente para elas demoraram muito mais a chegar. Nos Estados Unidos, por exemplo, ainda não há nenhum produto de testosterona aprovado para mulheres.

Dos três principais hormônios sexuais produzidos pelos ovários, o estrogênio e a progesterona contam com diversos produtos autorizados para uso em mulheres. A testosterona avançou muito mais lentamente, e os produtos específicos para o público feminino ainda são limitados em muitos países. Isso apesar das evidências de que a testosterona pode ser usada com segurança em mulheres quando administrada em doses destinadas a manter seus níveis dentro da faixa fisiológica feminina.

Diretrizes internacionais reconheceram a falta de produtos adequados para mulheres e pediram tratamentos com testosterona desenvolvidos especificamente para elas. A questão agora está recebendo a atenção das autoridades reguladoras. Em setembro, a FDA realizou um seminário público para examinar as lacunas nas evidências e a necessidade de desenvolver novos medicamentos nessa área.

A Austrália saiu na frente com o Androfeme, um creme de testosterona formalmente registrado em 2020 especificamente para uso feminino.

A solução improvisada tem sido usar o gel masculino, separando a olho nu um décimo do conteúdo de um sachê. Essa é uma maneira menos precisa de administrar um hormônio cuja dose terapêutica é tão pequena. Se uma quantidade excessiva for aplicada, a testosterona pode ultrapassar a faixa desejada, aumentando a probabilidade de efeitos colaterais, como acne e crescimento de pelos no rosto ou no corpo.

Mais importante, as evidências sobre a segurança do uso de testosterona por mulheres no longo prazo continuam limitadas, especialmente em relação a doenças cardíacas, acidente vascular cerebral e câncer de mama, porque os estudos geralmente foram de curta duração e muitas vezes excluíram mulheres com maior risco de desenvolver essas condições.

Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original.

Autor: Folha

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