Paris
|Bloomberg
Na gastronomia, vinho, queijo e pão formam o trio emblemático da identidade francesa. Hoje, porém, eles representam um dos maiores desafios ao status da França como principal nação gastronômica da Europa, à medida que os hábitos alimentares mudam, o consumo de álcool diminui e os produtores enfrentam fortes pressões.
Da indústria açucareira criada por Napoleão, que hoje vê fábricas serem fechadas, às exportações de trigo prejudicadas por gigantes de baixo custo como a Rússia, o declínio é visível em todo o país que, durante séculos, conquistou o paladar do mundo.
As exportações de vinho estão no menor nível em mais de 15 anos. A muçarela ganha espaço diante dos queijos locais, e um em cada dois frangos consumidos na França é importado. O superávit agroalimentar do ano passado caiu ao menor nível em quase 50 anos. A Espanha parece a caminho de se tornar o principal produtor europeu nos próximos anos, seguida possivelmente por Itália e Polônia.

Agricultor colhe uvas tipo Pinot Noir em vinhedos da casa de champagne Bollinger, em Avenay-Val-d’Or, no nordeste da França
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Jean-Christophe Verhaegen – 18.ago.26/AFP
Isso levou o governo do presidente Emmanuel Macron a declarar uma “guerra agrícola”. Ele acelerou a aprovação de uma lei de emergência com medidas que vão da prioridade a produtos franceses nas escolas ao afrouxamento de regras para a ampliação de instalações pecuárias, pesticidas e projetos de irrigação, tema recorrente de insatisfação entre agricultores.
A ministra da Agricultura, Annie Genevard, anunciou um plano de ajuda de mais de 1 bilhão de euros (R$ 5,95 bilhões) destinado a apoiar agricultores após as grandes perdas provocadas pelas ondas de calor e pelos incêndios sucessivos neste verão (inverno no hemisfério sul).
O superávit agroalimentar do ano passado na França, de 181 milhões de euros (R$ 1,07 bilhão), foi o menor desde o fim dos anos 1970, segundo dados do governo. As importações foram impulsionadas pelo aumento dos preços do cacau e do café, superando o baixo crescimento das exportações.
Embora o país continue sendo um importante produtor mundial, a crise agora se aprofunda no campo, enfraquecendo o soft power francês e aumentando a pressão sobre um eleitorado politicamente importante às vésperas das eleições presidenciais do próximo ano.
As razões são diversas. A produção agrícola foi afetada por tendências globais, como o impacto das guerras comerciais, a desaceleração econômica e uma série de doenças animais. O conflito com o Irã neste ano elevou os preços de fertilizantes e combustíveis.
Há ainda o impacto das mudanças climáticas. Este ano caminha para ser uma das temporadas de incêndios mais devastadoras dos últimos anos na França. Cerca de 96,5 mil hectares já foram queimados no país, mais de duas vezes e meia a área total de 2025.
Alguns problemas, porém, parecem ter origem interna. “Estamos vendo tendências que se intensificam e desestabilizam as certezas francesas”, disse Sébastien Abis, pesquisador associado ao IRIS (Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas). “O mundo inteiro acelerou, enquanto talvez tenhamos ficado um pouco parados”.
VINHEDOS EM RETRAÇÃO
Vinhos e bebidas alcoólicas são o principal produto agroalimentar de exportação da França, mas as vendas ao exterior continuaram caindo em 2026, afetadas pelas tarifas impostas por Donald Trump, pela desaceleração da demanda chinesa e pela queda do consumo de álcool. Condições climáticas extremas também provocaram uma das menores safras dos últimos 50 anos.
A França, que abriga um décimo dos vinhedos do mundo, perdeu um terço de sua área de vinhedos nos últimos 50 anos e deverá sofrer novas reduções. Para diminuir a capacidade de produção, melhorar a qualidade e, no futuro, elevar os preços, o governo oferece ajuda financeira aos viticultores para arrancarem suas videiras.
Ao fim da campanha deste ano, cerca de 54 mil hectares terão sido arrancados, a um custo total de 217 milhões de euros (R$ 1,29 bilhão) nos últimos dois anos, segundo o Ministério da Agricultura. Parte do vinho será usada para fabricar álcool em gel.
IMPORTAÇÕES GANHAM ESPAÇO
As exportações francesas têm se mostrado vulneráveis a desacelerações econômicas e retaliações geopolíticas, como quando a China restringiu as importações de conhaque francês ou quando Trump impôs tarifas sobre garrafas de vinho.
Em contraste, produtos italianos, mais acessíveis, cresceram. Enquanto as exportações francesas aumentaram 2% no ano passado, as exportações agroalimentares italianas cresceram 5%.
No início deste ano, agricultores levaram tratores a Paris e jogaram batatas para protestar contra o acordo comercial entre União Europeia e Mercosul. A França continua sendo a principal beneficiária dos subsídios agrícolas da UE, recebendo em média cerca de 9 bilhões de euros (R$ 50,6 bilhões) por ano.
O MAIOR MERCADO DO MUNDO
Localizado nos arredores de Paris, Rungis se apresenta como o maior mercado de produtos frescos do mundo e abastece 18 milhões de pessoas diariamente. Cerca de 3 milhões de toneladas de frutos do mar, carnes, laticínios, frutas e legumes passam pelo local todos os anos, 40% deles vindos do exterior.
O atacadista de queijos Buisson pretende mudar para um espaço duas vezes maior dentro do mercado para acomodar as pilhas de produtos italianos que chegam ao local, segundo Philippe Ammiche, diretor-geral da empresa.
Importadora de muçarela de búfala, burrata e parmesão, a Buisson registrou vendas recordes de queijos italianos em maio, com mais de cinco toneladas vendidas por dia, contra pouco menos de duas toneladas seis anos atrás. Os queijos italianos já representam cerca de 40% do faturamento da empresa, segundo Ammiche.
Não se trata apenas de uma invasão de produtos italianos. Quase metade das importações de queijo vem da Alemanha, Holanda, Bélgica e Reino Unido, países que investiram em capacidade de processamento voltada à exportação.
AGRICULTORES SE APOSENTAM
O número de propriedades agrícolas francesas caiu 75% desde a década de 1970, para 390 mil, enquanto a agricultura manteve grande parte de sua importância política. Em apenas quatro anos, quase metade dos agricultores franceses terá se aposentado, segundo o Ministério da Agricultura.
O governo reagiu com medidas para facilitar a entrada de jovens e novos agricultores na profissão, simplificando a aquisição ou retomada de propriedades e melhorando o acesso a financiamento. Também prevê aumentar em 30% o número de estudantes de agricultura, em 30% o número de engenheiros agrônomos e em 75% o número de veterinários formados na França até 2030.
A experiência dos últimos anos fez o filho de Eric Thirouin questionar se vale a pena assumir a propriedade familiar de produção de trigo.
“Estamos no centro da crise, porque estamos no período de colheita e precisamos enfrentar um calor extremo. Estamos assistindo à deterioração completa das colheitas previstas para este outono”, disse Thirouin. “Muitos agricultores franceses estão se perguntando: ‘Devo plantar uma quinta safra consecutiva sabendo que vou perder dinheiro novamente?’”
Autor: Folha








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