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Abuso na infância aumenta risco de demência em mulheres – 21/10/2026 – Equilíbrio e Saúde

A violência sofrida por mulheres ao longo da vida, sobretudo na infância, pode estar associada a um maior risco de desenvolver demência na velhice. Agressões físicas, abusos sexuais e traumas psicológicos podem provocar alterações no cérebro, prejudicar a memória e comprometer outras funções cognitivas.

Pesquisadoras brasileiras investigam a relação após analisar estudos sobre diferentes formas de violência, incluindo abusos na infância e agressões praticadas por parceiros íntimos na vida adulta. As evidências são mais consistentes para a violência sofrida na infância.

A neurologista Raquel Molina, professora da UFF (Universidade Federal Fluminense), passou a estudar o tema após ouvir relatos de violência de pacientes atendidas no ambulatório de demência do Hospital Universitário Antônio Pedro, ligado à UFF, que atende pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde) em Niterói, no Rio de Janeiro.

Com a neurologista Sephora Almeida, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, e outras pesquisadoras, Molina conduziu uma revisão sistemática apresentada em julho na AAIC (Conferência Internacional da Associação de Alzheimer), em Londres. O trabalho foi apresentado em formato de pôster e ainda não foi publicado em revista científica.

Na análise combinada de três estudos, mulheres expostas à violência física e sexual tiveram risco 50% maior de desenvolver demência do que aquelas sem esse histórico. A associação foi mais forte na infância e aumentou conforme a frequência e a gravidade das agressões. Mulheres que sofreram abuso físico ou sexual grave quando crianças tiveram risco cerca de duas vezes maior.

Os resultados sobre a violência sofrida na vida adulta são menos conclusivos. Um dos estudos incluídos na revisão, realizado na Austrália com 12.085 mulheres de 70 a 75 anos, não identificou associação entre violência praticada por parceiros íntimos e demência, mas observou mortalidade mais precoce entre as vítimas.

Como essas mulheres morreram mais cedo, parte delas pode não ter vivido o suficiente para desenvolver a doença. Do total de participantes, apenas 6% relataram ter sofrido violência de parceiros, uma proporção baixa que pode indicar subnotificação.

Molina afirma que ainda não é possível estabelecer a violência como fator de risco independente para demência, razão pela qual ela não aparece nas diretrizes médicas entre os fatores de risco da doença. Isso porque ainda há poucos estudos sobre o assunto. “Tem alguns dados que levantam essa hipótese, mas é uma área pouco estudada ainda”, diz.

Como a violência pode afetar o cérebro

Segundo Molina, traumatismos cranianos repetidos e episódios de sufocamento podem provocar lesões cerebrais diretas, com danos aos neurônios e, em alguns casos, perda de tecido cerebral.

A neurologista afirma que estudos associam experiências de violência à atrofia cerebral, incluindo redução do volume do hipocampo, região importante para a formação de memórias e também afetada pela doença de Alzheimer.

A violência psicológica também pode ter consequências, mesmo sem agressões físicas. O medo, as ameaças e as humilhações persistentes podem manter o organismo sob estresse crônico, com possíveis prejuízos à memória, à atenção e ao aprendizado.

Sephora Almeida explica que esse estado de alerta desencadeia alterações biológicas e químicas no organismo e pode favorecer transtornos de humor que também afetam o desempenho cognitivo. Crianças em ambientes violentos ou de negligência, acrescenta, podem ser afetadas mesmo sem sofrer agressões diretas.

“É como se eu estivesse inflamando o cérebro o tempo inteiro”, diz Almeida, que fundou com a coautora Ana Carolina Gomes o projeto Elas na Memória, voltado ao incentivo de pesquisas sobre saúde cognitiva feminina.

Um estudo americano publicado em 2025 na revista Alzheimer’s & Dementia avaliou 14.771 mulheres com idade média de 61 anos. Aquelas que relataram violência emocional apresentaram resultados ligeiramente piores em testes de memória e atenção. Em cerca de cinco anos de acompanhamento, porém, não tiveram declínio cognitivo mais acelerado. A pesquisa não avaliou o desenvolvimento de demência.

Por que ainda faltam respostas

Uma das dificuldades de estudar o tema é que boa parte dos estudos é retrospectiva: pessoas idosas são questionadas sobre violências sofridas décadas antes. As respostas dependem da memória e da disposição para relatar abusos.

Já as pesquisas que acompanham participantes desde a infância ainda não chegaram à idade em que a demência é mais frequente, aponta Molina.

Também é difícil medir a intensidade, a frequência e a duração das agressões, sobretudo das violências psicológicas e patrimoniais. Muitas mulheres não se sentem seguras para falar sobre o assunto em consultas, e a revelação pode depender de uma relação de confiança construída ao longo de vários atendimentos.

Investigar a relação entre violência e demência também pode ajudar a explicar por que a demência é mais comum entre mulheres. Hoje, as pesquisas sobre essa diferença se concentram principalmente em fatores hormonais, como a menopausa.

“Será que o fato das mulheres serem muito mais expostas à violência pode ser uma das justificativas de por que as mulheres desenvolvem mais demência do que homens?”, questiona Molina. “A gente precisa entender que violência não é só um problema de segurança, é um problema de saúde”, acrescenta Almeida.

Autor: Folha

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