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A objetificação sexual está programada em nosso cérebro? – 01/11/2026 – Equilíbrio

Quando as pessoas veem imagens sexualizadas de mulheres, tendem a se lembrar dessas imagens menos do que de imagens sexualizadas de homens —uma peculiaridade da memória que psicólogos associam à objetificação.

Mas, em nosso novo estudo, meus colegas e eu encontramos uma solução improvável: aplicar uma corrente elétrica leve na testa.

Objetificação significa enxergar alguém como um corpo, ou um conjunto de partes do corpo, em vez de como uma pessoa por inteiro. Nossos resultados, publicados na revista Social Neuroscience, sugerem que esse viés de percepção não é inato e pode ser alterado —pelo menos por algum tempo.

Os psicólogos o medem com um teste de imagens invertidas. As pessoas são muito melhores em reconhecer rostos e corpos na posição correta —normalmente, acertam cerca de 80%, contra 55% quando estão de cabeça para baixo— porque percebemos como todas as partes se encaixam.

Com objetos, como casas, virá-los de cabeça para baixo faz muito menos diferença, pois os reconhecemos por suas partes.

Um estudo de 2012 usou esse teste com imagens sexualizadas. Voluntários viam brevemente uma foto e depois tinham de identificá-la entre duas opções: a própria foto e sua imagem espelhada.

Tanto homens quanto mulheres se saíram muito melhor com imagens de homens de roupa íntima quando as fotos estavam na posição correta, mas tiveram desempenho semelhante com mulheres em poses parecidas, independentemente da orientação —o padrão esperado para objetos.

A descoberta tem sido objeto de debate, e algumas tentativas de reproduzi-la fracassaram. No entanto, uma análise de 2022, que reuniu resultados de 41 artigos, constatou que a “vantagem da posição correta” —o quanto as pessoas reconhecem melhor alguém na posição normal do que de cabeça para baixo— é menor para mulheres sexualizadas do que para homens sexualizados.

Mulheres sexualmente objetificadas são vistas como menos competentes e menos plenamente humanas, e aquelas que internalizam essa visão de si mesmas tendem a ter uma pior imagem corporal e uma saúde mental, física e sexual mais precária.

A exposição a conteúdos sexualizados na mídia também está associada a uma maior tolerância à violência sexual contra as mulheres.

Esse viés também muda de acordo com as circunstâncias. Em um estudo de 2015, desfocar o peito e a virilha das mulheres ou descrevê-las como formadas em medicina e empenhadas em arrecadar fundos para pesquisas sobre o câncer fez com que as pessoas reconhecessem seus corpos de maneira mais semelhante à dos homens.

O poder também desempenha um papel. Em uma pesquisa anterior realizada no Canadá, um colega e eu pedimos às pessoas que passassem dez minutos escrevendo sobre uma ocasião em que tiveram poder sobre alguém ou em que alguém teve poder sobre elas. Trata-se de uma técnica consagrada para fazer as pessoas se sentirem poderosas ou impotentes.

Mulheres que se sentiram poderosas apresentaram o padrão de percepção semelhante ao de objetos diante de homens sexualizados, e homens que se sentiram poderosos apresentaram esse padrão diante de mulheres sexualizadas.

Já as pessoas que se sentiram impotentes demonstraram a vantagem da posição correta para ambos. O poder, e não o gênero em si, pode ser central para a objetificação.

De onde surgiu a ideia da estimulação cerebral

A ideia de testar a estimulação cerebral surgiu do trabalho do meu laboratório sobre uma ilusão famosa. Na ilusão de Thatcher, apresentada pela primeira vez com uma foto da ex-primeira-ministra britânica, um rosto com os olhos e a boca virados de cabeça para baixo parece grotesco na posição correta, mas quase normal quando está invertido.

Virar rostos “thatcherizados” de cabeça para baixo também prejudica muito menos o reconhecimento do que fazer o mesmo com rostos comuns —assim como ocorre com mulheres sexualizadas.

Havíamos descoberto que a mesma corrente fraca facilitava o reconhecimento de rostos thatcherizados na posição correta, restaurando a diferença habitual. Será que ela produziria o mesmo efeito com mulheres sexualizadas?

A ilusão de Thatcher

Em nosso novo estudo, 76 estudantes universitários tentaram memorizar fotos de modelos homens e mulheres posando de roupa íntima —metade delas de cabeça para baixo. Em seguida, viram novamente as mesmas fotos, cada uma na mesma orientação de antes e misturada a 32 imagens novas, e disseram se já tinham visto cada uma delas.

Metade dos estudantes recebeu uma corrente fraca durante dez minutos, por meio de uma técnica chamada estimulação transcraniana por corrente contínua.

Os demais receberam um placebo que era desligado após 30 segundos —uma forma convencional de imitar o formigamento provocado pelo procedimento real. Nem os estudantes nem os pesquisadores que os avaliavam sabiam quem havia recebido qual procedimento.

O grupo placebo apresentou o padrão já conhecido. Seus integrantes se lembraram muito melhor dos homens quando as fotos estavam na posição correta do que quando estavam de cabeça para baixo. No caso das mulheres, a diferença foi muito menor, principalmente porque se lembraram menos das mulheres na posição correta do que dos homens nessa mesma posição.

No grupo estimulado, o reconhecimento de imagens de mulheres na posição correta melhorou, e a diferença entre as imagens de homens e mulheres desapareceu. A corrente não alterou a vantagem da posição correta nas imagens de homens.

Por quê? Nossa melhor explicação vem de uma teoria sobre como as pessoas aprendem a enxergar. Com a experiência, o cérebro aprende a dar menos importância às características que todos os rostos têm em comum e a identificar os detalhes que distinguem uma pessoa de outra.

Algumas características compartilhadas, porém, acabam atraindo a atenção, como os olhos e a boca invertidos de um rosto thatcherizado —ou, como suspeitamos, as partes do corpo expostas em imagens sexualizadas. Elas ofuscam os detalhes que permitem distinguir uma pessoa de outra. A corrente pode enfraquecer essa atração.

Nosso estudo consistiu em uma única sessão de laboratório com estudantes universitários, e medimos apenas seus efeitos imediatos, não atitudes ou comportamentos. Como todas as imagens eram sexualizadas, também não podemos afirmar quanto dessa diferença decorre da sexualização em si, e não de outras diferenças entre as fotos.

A estimulação cerebral não é uma cura para o sexismo. Mas, se dez minutos de uma corrente fraca— ou dez minutos escrevendo sobre sentir-se poderoso ou impotente— podem mudar como as pessoas enxergam um corpo, a objetificação parece menos uma característica fixa da visão humana e mais um hábito. E hábitos, ao contrário de algo inato, podem mudar.

Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original.

Autor: Folha

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