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Estamos vivendo uma epidemia de falta de tempo – 08/11/2026 – Ronaldo Lemos

“Não é que tenhamos pouco tempo, nós que o desperdiçamos”. A reflexão de Sêneca feita no século 1 não poderia ser mais atual. Há uma sensação generalizada de falta de tempo. E a frustração de que tecnologias que supostamente seriam capazes de reduzir o trabalho, como a inteligência artificial, servirão apenas para piorar tudo.

A história confirma. Em 1983, a historiadora da tecnologia Ruth Cowan mostrou que a chegada de eletrodomésticos nos lares, em vez de diminuir o trabalho (principalmente de mulheres), elevou os padrões de limpeza, tornando o trabalho mais exaustivo.

Uma pesquisa da Microsoft de 2025 encontrou algo similar. As ferramentas de comunicação instantânea, como as reuniões por vídeo, acabaram ampliando a jornada de trabalho, inclusive para horários entre 20h e 6h.

Nesse contexto, medir o uso do tempo tornou-se questão de política pública para vários países. Os EUA fazem anualmente a “American Time Use Survey”. Nos últimos anos, por exemplo, há um declínio expressivo no tempo de sociabilidade, enquanto o uso de telas aumenta. Já na Coreia há um declínio no tempo de sono.

A questão do uso do tempo é também estrutural, especialmente nos países em desenvolvimento. Em uma cidade como Lagos, a média perdida no trânsito diariamente é de 2,2 horas, situação familiar para muitas cidades brasileiras. Em outros países do continente africano o tempo é ocupado pela necessidade de buscar água a pé todos os dias.

O Brasil nunca fez uma pesquisa completa de uso do tempo. Houve pilotos e módulos de perguntas sobre o tema, mas incompletos. Os países que fazem essa medição transformam o tema em políticas públicas, com metas. A discussão sobre a jornada 6×1, por exemplo, talvez tivesse sido diferente. Chega a ser paradoxal que o país que acaba de constitucionalizar sua primeira redução de jornada em décadas nunca tenha feito uma pesquisa completa sobre o uso do tempo dos brasileiros.

Em 2020, as pesquisadoras Laura Giurge, Ashley Whillans e o pesquisador Colin West concluíram que “a percepção subjetiva de pobreza temporal tem um efeito negativo mais forte no bem-estar do que estar desempregado”. Em outras palavras, mesmo que a riqueza e a renda aumentem, a pressa e a falta de tempo atuam como um forte limitador da felicidade humana.

Em outro estudo, a mesma Whillans deu US$ 40 a voluntários em dois fins de semana para comprar um produto. E no outro, para comprar tempo. Comprar tempo deixou as pessoas mais felizes. No entanto, só 28% dos 6.000 entrevistados em quatro países usaram o dinheiro com o tempo.

Whillans também descreve que os momentos de descanso viraram como confetes espalhados ao longo do dia. Imagine que você tem uma hora livre. Com quatro notificações de mensagens, alertas e emails essa “hora” vira pedaços de cinco ou seis minutos. O que acaba se tornando mais um fardo cognitivo.

Vale voltar à Nigéria. Um provérbio iorubá diz: “ninguém consegue amarrar o dia com uma corda”. Nada mais verdadeiro. Especialmente porque tem sobrado muito pouco “dia” para ser amarrado.

  • Já era – inteligência artificial só na ficção científica
  • Já é – IA que funciona por turnos, com perguntas e respostas
  • Já vem – IA que funciona continuamente e nunca desliga


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Autor: Folha

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