Gosto da ideia de o vinho ser um tipo de máquina do tempo. Guardar uma garrafa antiga e prová-la tempos depois nos faz lembrar (ou imaginar) como foi o ano em que foi produzida, além de nos mostrar características que só a passagem do tempo pode conferir à bebida. Sem entender muito bem isso, muitos acreditam que o vinho melhora com o tempo, um clichê que só é meio verdadeiro, porque há vinhos que são feitos para se beber jovem.
Os da espanhola Vega Sicilia, no entanto, enquadram-se na metade que confirma o clichê. Demoram mais que a média para ir ao mercado e têm uma estimativa de vida (ou previsão de guarda) longa.
A vida de um vinho tem uma curva e um ponto ótimo. Sua longevidade pode ter a ver com a variedade da uva, a forma como é produzido e características que são seus pilares, como acidez, taninos e corpo. Antes do ponto ótimo, o vinho pode já ser prazeroso, o que pode mudar é sua complexidade, evoluindo de notas mais frutadas para especiarias, couro, cogumelos, etc. Além de ficar mais redondo e elegante e menos duro. Claro, pode também passar do ponto, quando perde o brilho e a acidez e adquire notas mais medicinais. E, como no vinho tudo é muito pessoal, o meu ponto ótimo pode ser diferente do seu.
Para que chegue bem ao tempo prometido pelo produtor (o tempo de guarda costuma ser estimado na ficha técnica), o vinho precisa de cuidados: deve estar bem armazenado, na temperatura certa, longe da luz e do calor . Se a estimativa de guarda é de décadas, uma vinícola como a Vega Sicilia, rica e tradicional, pode até trocar as rolhas dos vinhos se achar necessário, para que a bebida dentro das garrafas dure até mais tempo.
As rolhas são parte fundamental desse envelhecimento, pois permitem que o vinho tenha um contato mínimo com oxigênio e evolua sem que estrague, ou seja, oxide de vez. Há fechamentos mais inertes, como as tampas de rosca, muito comuns na Alemanha, mas na maioria dos países produtores são as rolhas feitas de cortiça as preferidas. No mercado, há rolhas ideais para cada estimativa de guarda, 10, 20, 30 anos e por aí vai.
Uma degustação promovida pela importadora Mistral em São Paulo possibilitou que jornalistas provassem o Vega Sicilia Unico Reserva Especial 2020, o vinho mais raro e disputado da vinícola de Ribera del Duero, que é um “must” entre colecionadores e célebres jogadores de futebol brasileiros que viveram na Espanha. A Mistral apresentou outros vinhos do produtor, mas foco está neste porque em uma única garrafa estão vinhos feitos em três anos.
O vinho é feito com um blend de três safras do Vega Sicilia Unico, que por sua vez já é considerado consagrado e lendário, feito apenas nas melhores safras com duas uvas, tempranillo (94%) e cabernet sauvignon (6%). Neste Reserva Especial, em 2020 foram reunidos vinhos dos anos de 2008, 2009 e 2010 e a estimativa de guarda é de, ao menos, dez anos. Quanto tempo mora dentro deste vinho? E quanta coisa?
Em 2020, tivemos uma pandemia. Em 2010, assistimos à Primavera Árabe pelas redes sociais e a Copa do Mundo (ainda) pela televisão. Em 2009, encontramos sinais de água em Marte e adotamos o novo acordo da língua portuguesa. Em 2008, o mundo viveu uma terrível crise financeira e assistiu à eleição de Barack Obama, o primeiro homem negro na presidência dos EUA. Quem comprar o Reserva Especial 2020 pode abri-lo apenas em 2030, de acordo com a sugestão de guarda do produtor. Um vinho destes, me disse o diretor técnico Juan José Parra, é comumente associado a celebrações especiais. O que poderemos celebrar nesta nova década? Ou será o próprio vinho o motivo da celebração?
Vai uma taça?
Acidez alta, corpo, álcool e taninos são algumas das senhas para a longevidade de um vinho. Os vinhos mais caros de uma vinícola geralmente são os de guarda, mas há surpresas. Provei com imensa alegria um Zuccardi Tempranillo Q 2003 e estava maravilhoso. Os rótulos da linha (R$ 214 na Grand Cru), nos primeiros degraus da vinícola, podem ser guardados por anos. Também gostei muito do Heiderer Mayer Gruner Veltliner Wagram 2017 (R$ 165 a safra 2023 na Viva Vinho), fechado com tampa de rosca, que encontrei na carta do Toribinha, em Campos do Jordão. As notas de fruta fresca deram lugar aos aromas de mel e amêndoas. Vale a pena adquirir uma garrafa e esconder de si mesmo para encontrar quase dez anos depois.
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Autor: Folha




















