Uma das perguntas mais repetidas nos nossos consultórios e clínicas é que tipo de dieta uma criança com problemas alimentares ou excesso de peso deve receber. Os pais geralmente querem que os profissionais da saúde lhes forneçam uma dieta estruturada, com todas as refeições, todos os alimentos, quantidades, listas de substituições e produtos a serem comprados.
Mesmo que para a criança isso signifique estar exposta a alimentos novos ou preparações diferentes daquelas com as quais tem contato, a imposição de um cardápio rígido e restritivo costuma ser uma estratégia fadada ao fracasso.
Três em cada dez crianças que chegam ao nosso Cenda (Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares), no Instituto Pensi (Pesquisa e Ensino sobre Saúde Infantil), apresentam excesso de peso, mesmo que elas tenham gigantescos problemas para ingerir alimentos novos e mantenham cardápios restritos e repetitivos. Essa situação reflete a condição da criança no país.
A epidemia do excesso de peso
O Brasil e o mundo vivem hoje um cenário de transição nutricional e epidemiológica complexo. Se, no passado, nossa maior preocupação era a desnutrição, hoje enfrentamos o crescimento veloz das doenças ligadas à abundância e ao excesso. Uma expressiva parcela das nossas crianças e adolescentes apresenta excesso de peso, e é alarmante constatar que essa prevalência tem se multiplicado rapidamente ao longo dos últimos anos.
Esse ganho de peso precoce é o resultado de uma doença multifatorial, gerada por uma combinação de genética, metabolismo e, principalmente, do nosso estilo de vida moderno. Nossas crianças estão inseridas em um “ambiente obesogênico”. Esse cenário é caracterizado pelo sedentarismo extremo, excesso de tempo em frente a telas (celulares, computadores, tablets e televisões) e uma alimentação com alta densidade energética, rica em alimentos ultraprocessados, açúcares, sal e gorduras. A grande maioria dos jovens, infelizmente, não pratica atividade física suficiente.
É um erro comum imaginar que a criança que ganha muito peso come de tudo. A realidade que observamos nos consultórios é frequentemente o oposto. Muitas dessas crianças têm uma alimentação extremamente seletiva e restrita a pouquíssimos alimentos. Elas comem grandes volumes, mas de uma variedade muito pequena de opções, que geralmente excluem frutas, verduras, legumes e cereais integrais.
Com isso, cria-se o que chamamos de “Fome Oculta do Obeso”. Apesar do excesso de calorias e de peso, essas crianças apresentam carências ocultas de vitaminas e minerais que são cruciais para o crescimento, o desenvolvimento neurológico e a imunidade. Muitas crianças com obesidade são, na verdade, pacientes que comem mal.
Por que não faz sentido restringir ainda mais a alimentação?
Quando a família busca uma “dieta” para a criança, esbarramos em um grande problema comportamental. Não há o menor sentido em restringir ou impor um cardápio fechado a uma criança que já possui uma alimentação restritiva, neofobia (medo de novos alimentos) ou seletividade. A criança que não come bem já reage negativamente ao momento da refeição e sofre com alterações na sua rotina.
Forçar uma dieta, com proibições e obrigações de comer alimentos aos quais a criança tem aversão (como pratos cheios de folhas e grelhados), só gera ansiedade, estresse, brigas e piora a recusa. A imposição de limites rígidos sem flexibilidade e as proibições absolutas muitas vezes colaboram para um risco ainda maior de transtornos alimentares.
A necessidade de mudar o ambiente e a família
Para tratarmos verdadeiramente o excesso de peso e as dificuldades alimentares, não precisamos colocar a criança de castigo nutricional, mas sim promover uma mudança no estilo de vida de toda a família. Crianças são reflexos do ambiente em que vivem.
Estudos sobre “estilos parentais” evidenciam que pais permissivos demais (que deixam a criança comer o que quiser e na hora que quiser) ou pais controladores e autoritários tendem a ter filhos com maiores problemas alimentares e obesidade. Além disso, pais que vivem em dietas constantes ou são sedentários acabam sendo espelhos negativos para os filhos.
A mudança deve ser um processo afetuoso, constante e prático, focado em pilares fundamentais:
– Modificar a alimentação da casa toda: não deve haver uma dieta para a criança e outra para os adultos. O ambiente deve ser abastecido com opções saudáveis e o acesso a guloseimas e bebidas adoçadas deve ser limitado, servindo de base para todos.
– Resgatar as refeições em família: sentar-se à mesa, compartilhar a refeição e conversar ajudam a criança a modelar comportamentos alimentares saudáveis, proporcionam segurança e reduzem o risco de obesidade. É imprescindível eliminar o uso de telas e celulares durante as refeições, pois elas distraem a criança, impedem a percepção dos sinais de saciedade e criam um hábito alimentar mecânico e excessivo.
– Aumentar o gasto energético e a atividade física: a quebra do sedentarismo não significa impor treinos rígidos, mas sim incentivar o movimento de forma lúdica. Caminhadas em família, esportes, passeios de bicicleta e brincadeiras ao ar livre devem substituir as horas a fio sentados no sofá.
– Educação nutricional pelo exemplo: em vez de forçar, devemos oferecer repetidamente os alimentos em um ambiente sem pressão e encorajar a criança a ajudar no preparo das refeições, criando memórias afetivas positivas ao redor da comida.
– Combater o excesso de peso e a seletividade alimentar infantil não é colocar a criança de dieta. É reestruturar o ambiente doméstico para que escolhas saudáveis, atividades físicas e afeto sejam a norma e o exemplo constante proporcionado por todos que a cercam. A mudança de hábitos exige paciência, mas quando feita de maneira integrada, garante resultados positivos e sustentáveis para toda a vida.
Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original
Autor: Folha








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