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Policiais e militares dos EUA ainda resistem a psicodélicos – 30/04/2026 – Virada Psicodélica

O fato de um republicano da gema como Rick Perry se converter em paladino de psicodélicos não diz grande coisa. O ex-secretário de Energia no primeiro governo de Donald Trump se engajou na defesa de drogas como MDMA e ibogaína para tratar traumas de ex-combatentes, mas uma enquete indica que a terapia inovadora ainda não é popular na corporação, nem, tampouco, entre policiais.

O levantamento saiu mês passado no periódico Journal of Police and Criminal Psychology. A primeira autora, Alexandra Hopkins, deu entrevista a Shayla Love, do boletim The Microdose, sobre os resultados, não sem ressalvar que sua amostra foi pequena, mas ainda assim captando uma atitude geral negativa à psicoterapia apoiada por psicodélicos (PAP).

O crescente número de veteranos de guerra norte-americanos que buscam acesso a ibogaína e ayahuasca, por exemplo, pode dar a impressão de que essa alternativa já seria popular entre militares. Não é o caso. Tanto soldados quanto policiais são menos favoráveis a psicodélicos que a média da população norte-americana, em que pese a justificativa de Trump para ordem executiva de aceleração da terapia.

A baixa adesão à enquete, de resto, também representa sintoma de desconfiança: dos 446 participantes, meros 60 (13%) se qualificaram como militares ou agentes da lei. Segundo Hopkins, a resistência a se engajar na pesquisa decorre do temor de que manifestar opiniões possa prejudicar a carreira.

Feita a ressalva sobre a pequena adesão, o estudo ainda assim indicou algo significativo: mesmo após receber esclarecimentos sobre PAP com cetamina (anestésico dissociativo, um medicamento legalizado) e psilocibina (ainda não regulamentada), ambas com potencial contra depressão, a atitude refratária se manteve.

Outros fatores, como idade e orientação política, apresentaram correlação com opiniões negativas. Os mais jovens tendem a manter uma avaliação desfavorável de psicodélicos, assim como aqueles que se identificam como republicanos, em comparação com os que se declaram democratas ou independentes.

Não chega a ser uma surpresa que soldados e policiais rejeitam a ideia de tomar drogas, afinal são treinados e instruídos a combatê-las. Nisso não se distanciam da opinião pública, que em geral não faz distinção entre psicodélicos como LSD, ayahuasca e cogumelos “mágicos”, de um lado, e substâncias como heroína e cocaína, de outro, pois ignoram que os primeiros têm baixo potencial para abuso.

A profusão de artigos científicos na última década comprovando o efeito terapêutico de psicodélicos não tem sido suficiente para romper preconceitos. Isso dependerá, ao que parece, da lenta difusão de testemunhos dos próprios pares sobre os benefícios colhidos em clínicas no México, na Costa Rica ou no Brasil, como no documentário “No Mar e na Guerra”.

Nessa estratégia de convencimento aposta igualmente Kemmi Sadler, uma agente federal aposentada que atuou décadas na polícia e no serviço diplomático. Ela acaba de lançar o livro “From the Badge to the Vine, a Journey through Duty, Trauma, and Healing” (do distintivo ao cipó, uma jornada pelo dever, pelo trauma e pela cura).

Sadler participou de um painel sobre narrativas psicodélicas na conferência Cultura Psicodélica, realizada em São Francisco (EUA) de 17 a 19 de abril. Ela contou que recebeu das próprias plantas, “mãe ayahuasca” (beberagem preparada com folhas da chacrona e fibras do cipó mariri, ou jagube), o convite para narrar sua aventura de agente a psiconauta.

“Ayahuasca foi a coisa mais difícil que fiz na vida”, disse na conferência. “E contar essa história foi provavelmente a segunda, mas não tive alternativa.” Sobre seus pares no cumprimento da lei, perguntou: “Quem eles vão ouvir? Alguém de dentro da comunidade”.


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Autor: Folha

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