Num mundo em que tudo precisa ter uma função, fazer algo sem um objetivo claro pode parecer luxo, capricho ou até perda de tempo. Mas é justamente aí que está o valor dessa prática: quando colocamos a leitura no território da curiosidade, da imaginação e do descanso, esse hábito deixa de ser uma tarefa e vira uma fonte de prazer. Quando foi a última vez que você pegou um livro só para se divertir ou relaxar?
Leitura funcional
Um número crescente de brasileiros tem retomado o hábito da leitura. De acordo com a Câmara Brasileira do Livro, 18% dos brasileiros e brasileiras compraram ao menos um livro, impresso ou digital, em 2025, o que representa um aumento de 2% em relação a 2024. No entanto, nem sempre isso está relacionado ao gosto pela literatura.
Segundo a edição mais recente da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2024, só 24% das pessoas que consomem livros no país leem por prazer. Os outros motivos passam por conhecimento geral (15%), crescimento pessoal (13%), aprendizado (10%), religião (8%) e demandas de trabalho ou estudo (14%).
O valor do inútil
Se Paulo Leminski chamou a poesia de inutensílio, “daquelas coisas inúteis da vida que não precisam de justificativa porque elas são a própria razão de ser da vida”, o mesmo poderia valer para a literatura. Em vez de se limitar a ler os livros que a gente acha que deveria ou que têm algo a acrescentar, também precisamos nos lembrar que é possível ler simplesmente porque é gostoso.
Geralmente associadas a leituras prazerosas, as obras de ficção não prometem salvar seu negócio nem destravar o crescimento pessoal, mas são capazes de nos levar a lugares que outros gêneros não alcançam. As histórias ficcionais apresentam novos universos e podem, inclusive, nos ajudar a recuperar certo encantamento com o mundo.
Além disso, funcionam como uma forma de recusar a lógica da produtividade a qualquer custo e recuperar algum controle sobre o próprio tempo. Não sabe por onde começar? A lista dos melhores livros brasileiros de literatura do século 21, segundo o júri convidado pela Folha, é uma boa fonte de inspiração.
O prazer de não performar
Ler sem objetivo também é um jeito de escapar da lógica da performance que atravessa quase tudo hoje em dia. Até a leitura, que já foi um espaço íntimo e descompromissado, acabou sendo capturada por metas, listas e métricas —quantos livros por ano, quais títulos “importantes”, o que vale a pena postar ou recomendar.
Resgatar o prazer puro e simples é, em parte, se libertar dessa cobrança. É escolher um título sem pensar no que ele representa, no que ele agrega ou em como ele será percebido pelos outros. Sem sublinhar, sem tirar foto, sem transformar em “aprendizado” ou “conteúdo”. Isso devolve à leitura algo que anda raro: a experiência de fazer algo sem precisar provar nada a ninguém.
Ler para desacelerar
Para um cérebro treinado pela velocidade da vida conectada, desbloquear o celular para scrollar o feed por horas parece bem mais fácil do que abrir um livro e se concentrar em uma única atividade. Segundo explicou a psiquiatra e neurocientista Natalia Mota ao podcast Desenrola, do The Summer Hunter, os livros nos ajudam a nadar contra a corrente dos hiperestímulos. “Eles nos levam a um universo menos multimídia e muito mais imaginado, personalizado, com um tempo de atenção mais sustentada”.
Criar um hábito exige repetição, principalmente quando envolve certa dificuldade. “Hoje em dia tudo é tão imediato que, quando você tenta ler um livro, é um choque. Por isso é um exercício que precisa de esforço, principalmente no começo”, diz o influenciador literário Pedro Pacífico, o Bookster.
Além de escolher algo que a gente realmente queira ler, é preciso insistir na pausa que o livro proporciona —e lutar contra o vício em olhar as notificações do celular. Em pouco tempo, fica claro que, ao contrário das telas, a leitura pode ajudar a realmente relaxar. Se você pegar no sono depois de algumas páginas, ótimo.
Autor: Folha








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