A primeira vez que a psicóloga Ana Kauffmann, 28, sentiu a mandíbula travar foi no ensino médio, em meio à pressão para o Enem. “Era um período de muitos estudos, escolha de curso, de profissão”, diz.
Ao abrir a boca, ela percebeu um deslocamento repentino da mandíbula. Ela voltou para o lugar, mas Ana não conseguia abrir a boca. “Não passava nem um canudo.”
Na pandemia, o episódio ocorreu mais uma vez. Com o isolamento social, a sobrecarga emocional e o fluxo de notícias negativas, ela percebeu o aumento da ansiedade. A tensão acumulada encontrou saída na mandíbula. “Toda vez que trava é uma dor muito forte”, afirma.
O caso de Ana está longe de ser exceção. Segundo a SBDOF (Sociedade Brasileira de Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial), estudos epidemiológicos clínicos e populacionais indicam que os sinais e sintomas podem aparecer em até 70% da população, e as mulheres são pelo menos quatro vezes mais propensas a senti-los.
O chamado “travamento da mandíbula” é, na verdade, um problema com a articulação temporomandibular, a ATM, que liga o osso da mandíbula ao osso do crânio. É uma das conexões mais complexas do corpo.
Os problemas nessa região são chamados de disfunção temporomandibular (DTM) e podem surgir por diferentes motivos, desde a abertura excessiva da boca, como em bocejos ou risadas, até fatores como estresse, ansiedade, depressão e bruxismo (hábito de ranger os dentes), que levam à sobrecarga da musculatura da face.
Segundo Daniel Falbo, chefe do núcleo de cirurgia bucomaxilofacial do Hospital Samaritano Paulista, há duas situações principais que podem explicar o problema e que muitas vezes são confundidas.
A mais grave é a luxação da ATM, quando o osso da mandíbula sai do lugar. Nesses casos, a pessoa fica com a boca aberta e não consegue fechá-la, além de apresentar dor intensa e dificuldade para falar ou se alimentar. Trata-se de uma urgência médica.
Já o deslocamento do disco da ATM, mais comum e menos grave, é quando uma estrutura que funciona como a “amortecedor” entre os ossos sai da posição correta. “Nesse caso, pode voltar para o lugar, geralmente com um estalo, ou não, causando um travamento com a boca fechada”, diz Falbo.
Em qualquer caso, os especialistas recomendam procurar atendimento especializado imediatamente, como um dentista, um emergencista ou um fisioterapeuta.
“A principal orientação é não tentar forçar a mandíbula de volta sozinho, porque pode piorar a lesão ou causar mais dor. O ideal é manter a calma, evitar movimentar a mandíbula, sustentar levemente o queixo com as mãos e procurar um atendimento o mais rápido possível”, diz o cirurgião-dentista Flávio Pinheiro, especialista em implantodontia.
Outro alerta importante é evitar tomar medicamentos por conta própria. “A automedicação sem a avaliação de um especialista pode mascarar diagnósticos mais complexos como tumores de cabeça e pescoço”, diz Falbo.
Os especialistas afirmam que algumas pessoas têm maior risco de desenvolver o problema. Entre elas estão aquelas com frouxidão dos ligamentos ou com uma hipermobilidade articular; alterações anatômicas nas articulações, geralmente herdadas geneticamente; pessoas com mordidas desalinhadas e as que têm histórico de episódios anteriores.
Alguns hábitos também podem desencadear o travamento, como mascar chiclete, roer unhas, morder lápis ou canetas e abrir demais a boca ao morder alimentos, bocejar ou rir.
Além disso, ansiedade e estresse também têm papel importante. “Não é só uma questão física, mas também emocional”, diz Caroline Kaory Bueno, psicóloga do Hospital Nove de Julho.
Segundo Bueno, quando esses sofrimentos emocionais não encontram uma “válvula de escape”, eles se somatizam e acabam sendo “descarregados” de outras formas, como tensão pelo corpo, contração muscular e bruxismo.
“A mandíbula é justamente um dos locais em que essa contração ocorre e que a pessoa acaba sentindo mais essa manifestação.”
Para a fisioterapeuta Mariana Milazzotto, que atua no Instituto de Medicina Avançada Amato, em São Paulo, a mandíbula é um termômetro de estresse e o travamento nada mais é que um aviso do corpo de que a articulação está trabalhando no limite.
Ela afirma que a prevenção exige reeducação e mudança de hábitos. A posição da cabeça e do pescoço em atividades do dia a dia, especialmente com o uso excessivo de celular e computador, pode alterar a biomecânica da musculatura cervical e da face, sobrecarregando a articulação temporomandibular e favorecendo disfunções.
Exercícios ajudam a fortalecer e alongar a musculatura da face, com movimentos controlados de abertura, fechamento e lateralidade da boca. Foram essas estratégias que Ana utilizou para reduzir os episódios de travamento da mandíbula. “A fisioterapia foi essencial para esses momentos de crise”, diz.
No dia a dia, diz Ana, outras pequenas atitudes fizeram a diferença, como priorizar alimentos macios, cortar pedaços grandes em pedaços menores e usar garfo e faca para comer sanduíches e hambúrgueres, por exemplo.
“Ao bocejar, coloque a ponta da língua no céu da boca. Isso limita a abertura excessiva da mandíbula e protege o disco da articulação”, afirma Milazzotto.
Para quem tem bruxismo, a recomendação é usar placas de proteção, confeccionadas sob medida por dentistas, especialmente ao dormir.
O controle do estresse também é parte essencial do tratamento. Terapia, técnicas de relaxamento e higiene do sono podem ajudar a reduzir a sobrecarga muscular associada à ansiedade.
“A psicoterapia é uma das formas de dar vazão a alguns sentimentos, principalmente por meio da fala, permitindo que ele seja elaborado de maneira menos prejudicial ao corpo”, diz Bueno.
Autor: Folha








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