Profissionais de saúde em trajes de proteção. Rastreamento de contatos. Testes de PCR e entrevistas coletivas da OMS (Organização Mundial da Saúde).
Justamente quando grande parte do público presumia ter deixado para trás aquelas imagens ameaçadoras e expressões entrelaçadas com a pandemia da Covid-19, um surto mortal de hantavírus a bordo de um navio de cruzeiro holandês trouxe à tona ansiedades bem familiares.
Especialistas em saúde, cientes das cicatrizes que a Covid deixou nas pessoas, incluindo aquelas que ainda lidam com ela, buscaram afastar comparações entre o hantavírus e o coronavírus. Eles disseram nesta semana que os vírus se espalham de maneiras bem diferentes e não são comparáveis em magnitude.
Ainda assim, essas garantias não acalmaram a ansiedade do público nem sua busca por orientação médica de alguns dos mesmos médicos que atuaram quando a Covid-19 avançava pelo mundo.
“Eu tenho TEPT [Transtorno de Estresse Pós-Traumático] da Covid”, diz Celine R. Gounder, editora-chefe de saúde pública do KFF Health News e especialista em doenças infecciosas, em entrevista na última quinta-feira (7).
“Há partes de Nova York por onde não consigo passar sem ver os caminhões frigoríficos usados como necrotérios. Tive que me desfazer de certas coisas que usava durante a pandemia, roupas e outros itens, porque eram gatilhos. Então eu entendo completamente de onde as pessoas estão vindo.”
“Dito isso”, Gounder faz questão de enfatizar rapidamente, “nem todas as doenças infecciosas são iguais”.
Na Espanha, o presidente das Ilhas Canárias protestou contra a permissão para o navio de cruzeiro atracar lá, enquanto uma enxurrada de discussões começou a aparecer nas redes sociais questionando se era seguro viajar.
A menção às máscaras repercutiu particularmente na extrema direita política, na qual alguns começaram a usar o surto para alertar contra a perspectiva de novas restrições ou determinações governamentais.
Três passageiros que viajavam no navio de cruzeiro holandês MV Hondius morreram durante o surto de hantavírus, que atingiu pelo menos outras cinco pessoas a bordo da embarcação.
Neste domingo (10), o navio deve se aproximar da ilha de Tenerife, onde os passageiros serão levados por barcos para, depois, embarcar em voos para seus países de origem.
A maioria das cepas do vírus, que é transmitido principalmente por roedores, não pode ser transmitida de pessoa para pessoa. Mas a cepa identificada no surto do navio, a cepa Andes, pode passar entre pessoas, segundo especialistas médicos, que ressaltam que isso requer contato próximo repetido.
“Isso não é coronavírus”, diz Maria Van Kerkhove, chefe de preparação para epidemias e pandemias da OMS, em uma entrevista coletiva em Genebra na quinta-feira. “Este é um vírus muito diferente.”
Van Kerkhove afirma que conseguia entender a intensa demanda por respostas sobre o grupo de infecções. “Quero ser inequívoca aqui: isso não é Saras-CoV-2”, diz ela, referindo-se ao vírus que causa a Covid. “Este não é o início de uma pandemia de Covid.”
Ao redor do mundo, autoridades de saúde monitoraram casos suspeitos de infecção por hantavírus. Vários desses pacientes em potencial tiveram seus testes com resulado negativo. Mas as preocupações foram um lembrete de como cada espirro ou chiado da temporada de alergias poderia provocar pavor existencial nos primeiros meses da pandemia de Covid.
Em uma participação no programa de televisão dos EUA “Today” na quinta-feira, Ashish Jha, que supervisionou a resposta à pandemia do governo Biden em sua fase final, disse estar confiante de que as autoridades de saúde pública podem conter a propagação do hantavírus se seguirem os protocolos de rastreamento de contatos há muito estabelecidos.
“Precisamos rastrear todos que deixaram o navio de cruzeiro e descobrir onde estão, garantir que estamos monitorando-os”, diz ele. “Se desenvolverem algum sintoma, então precisam ser isolados.”
Tais tentativas de tranquilização podem ser interpretadas de forma diferente por alguns críticos das respostas dos governos Trump e Biden à pandemia da Covid.
O comentarista conservador Glenn Beck sinalizou na quinta-feira a necessidade de resistir a um retorno às medidas da era Covid em seu programa. “Eles vão fazer exatamente a mesma coisa que fizeram da última vez, e então nossos filhos não vão à escola e teremos máscaras.”
Muitos outros nas redes sociais buscaram introduzir leveza no momento, remetendo a rituais peculiares e habilidades que aprimoraram durante a pandemia. “Praticando minha dança para quando o hantavírus se tornar a nova Covid”, escreveu uma jovem em uma publicação.
Autor: Folha








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