Mandy Rosenberg, 35, sempre chamou atenção pela aparência. Com cabelos longos e loiros, corpo atlético e olhos azuis, ela era chamada de Barbie por colegas do colégio.
Mas mesmo ouvindo elogios, ela não se via dessa forma. Passava horas examinando uma pequena mancha na testa, quase invisível para os outros. Para ela, tratava-se de uma cicatriz grande e feia. Chegava a subir na pia do banheiro para se aproximar ao máximo do espelho.
“Se eu não conseguisse fazer aquilo sumir, não queria mais viver”, conta.
Rosenberg não sabia, mas tinha TOC (transtorno obsessivo-compulsivo) e também transtorno dismórfico corporal (TDC), condição de saúde mental que leva a pessoa a se preocupar excessivamente com a aparência, a ponto de se isolar e se sentir aprisionada em seu próprio corpo.
Quem tem TDC não apenas se acha pouco atraente como pode se convencer de que será rejeitado por causa dos próprios defeitos.
“Muitas vezes essas pessoas se sentem indignas de amor”, diz a psiquiatra Katharine Phillips, especialista em TDC e professora da Weill Cornell Medicine e do NewYork-Presbyterian.
O que é o transtorno dismórfico corporal
Quem tem TDC se fixa em problemas que, para os outros, são imperceptíveis ou insignificantes. Não se trata de vaidade; o sofrimento é intenso e compromete o dia a dia da pessoa.
O transtorno costuma surgir na adolescência e afeta entre 2% e 3% da população, mas esses números po dem ser subestimados, já que a condição é subdiagnosticada.
Estudos mostram diferenças no cérebro de quem tem TDC. O pesquisador Jamie Feusner, professor de psiquiatria da Universidade de Toronto, identificou que regiões cerebrais responsáveis por processar imagens de forma global ficam menos ativas nessas pessoas. É como olhar para uma janela com uma mancha e concluir que “a janela inteira está estragada”, compara.
Pacientes com TDC nem sempre percebem que o problema tem origem mental. Muitos acreditam genuinamente que possuem “defeitos” físicos e podem sofrer por uma década ou mais antes de buscar ajuda psiquiátrica, conta a psicóloga Hilary Weingarden, pesquisadora de TOC e condições relacionadas.
“Eles vão ao dermatologista, ao cirurgião plástico, ao dentista, ao esteticista, tentar ‘corrigir’ a aparência. Mas isso só piora a ansiedade a longo prazo.”
Sinais e sintomas
Pessoas com transtorno dismórfico corporal podem se afastar de relacionamentos, evitar o trabalho ou a escola e passar tempo excessivo em comportamentos repetitivos —examinando a si mesmo no espelho, tentando disfarçar a aparência ou pedindo constantemente a opinião dos outros.
Chris Trondsen, terapeuta na Califórnia, relata que seus pacientes afirmam passar horas conversando com chatbots de inteligência artificial em busca de validação. “Se você pergunta a um humano, as pessoas vão se cansar de responder”, diz.
É comum que pessoas com TDC também tenham depressão maior, fobia social, TOC e transtornos por uso de substâncias. Estudos também apontam taxas altas de ideação e comportamento suicida: uma metanálise mostrou que, ao longo da vida, cerca de 66% dos pacientes com TDC têm pensamentos suicidas e aproximadamente 35% tentam o suicídio.
Como é o tratamento
A TCC (terapia cognitivo-comportamental) para tratamento de TDC pode levar mais da metade dos pacientes à remissão. Esse tipo de terapia inclui a técnica de exposição e prevenção de resposta, que ajuda o paciente a enfrentar situações que se acostumou a evitar ou rituais dos quais se tornou dependente, como esconder partes do corpo com roupas ou maquiagem.
Os terapeutas trabalham para que os pacientes se vejam de outra forma, destacando que têm a oferecer muito mais do que as partes do corpo que examinam. O transtorno também pode ser tratado com inibidores de recaptação de serotonina, em geral em doses elevadas. Para casos graves, especialistas recomendam a combinação de medicação e terapia.
Rosenberg afirma que, para ela, a terapia cognitivo-comportamental se mostrou eficaz. Como parte do tratamento, ela criou um diagrama com tudo que compõe sua identidade: filha, cristã, amante de animais, professora, pessoa cuidadosa. Muito mais do que sua aparência. “Meu corpo não pode determinar como vou viver o meu dia.”
Autor: Folha








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