
“Se eu consegui fazer o Trump rir, posso conseguir qualquer coisa.” A afirmação do presidente Lula, feita em entrevista publicada pelo jornal The Washington Post no domingo, tornou-se a mais nova muleta para sustentar seu discurso eleitoral e reforçar seu suposto papel de estadista pragmático, disposto a falar sobre qualquer assunto com qualquer um.
Já ensaiada na coletiva realizada logo após seu encontro com o presidente americano na Casa Branca, a frase de Lula diz muito sobre a visão messiânica que ele tem de si mesmo, forjada ao longo de sua trajetória política, e principalmente sobre sua engenhosidade para produzir narrativas que, muitas vezes, têm pouco ou nada a ver com a realidade.
Na entrevista ao Post, Lula afirma que, ao entrar na Casa Branca, Donald Trump o conduziu pela galeria de retratos presidenciais e, diante de suas fotos com expressão sisuda, ele teria lhe perguntado se não sabia sorrir e afirmado: “Agora que você está governando, pode sorrir um pouco. A vida fica mais leve quando a gente sorri”.
Só que, embora Trump esteja com cara de mau nas fotos em preto e branco de seus dois mandatos expostas na galeria, provavelmente para fortalecer sua imagem de líder implacável, ele não é conhecido por estar sempre de cara fechada. Apesar da seriedade com que trata dos assuntos do governo americano, suas tiradas bem-humoradas estão presentes em comentários públicos, postagens nas redes sociais e até em encontros com outros líderes políticos.
Com frequência, Trump é visto às gargalhadas nas situações mais inusitadas. Se alguém tem alguma dúvida sobre isso, basta dar uma busca rápida na área de imagens do Google para ver a profusão de fotografias de Trump descontraído, com um sorriso largo no rosto. Na própria foto feita em Washington pela entourage de Lula – que foi celebrada como um troféu – o presidente americano está sorrindo ao seu lado. No retrato oficial colorido de seu primeiro mandato, idem.
“Relação pessoal”
Na entrevista, Lula também procurou capitalizar politicamente o encontro, valorizando a suposta “relação pessoal” que teria estabelecido com Trump e o efeito positivo que isso pode ter na revisão do tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil. Como se falasse em nome de Trump, Lula ainda se colocou em posição de vantagem em relação ao ex-presidente Jair Bolsonaro. “Eu não preciso fazer nenhum esforço para que ele veja que eu sou melhor que Bolsonaro. Ele já sabe disso”, afirmou, sem constrangimento.
Independentemente dos elogios feitos a Lula por Trump, que o chamou de “um bom homem” e “um cara inteligente”, ele foi frio ao cumprimentá-lo em sua chegada à Casa Branca, na visão de alguns analistas. Deu também um passo atrás, conforme esse pessoal, para evitar o abraço ensaiado por Lula, que buscava mostrar uma empatia que se chocava com as críticas que tem feito ao presidente americano, mesmo depois do encontro realizado em território neutro, na Malásia, em outubro.
Embora tenha passado três horas com Trump, incluindo o almoço, Lula saiu da Casa Branca como entrou: pela porta dos fundos e de mãos vazias. Fora a promessa de agendamento de novas reuniões entre representantes dos dois países para tratar de temas setoriais, conseguiu apenas um prazo de 30 dias para buscar uma “solução” para o que restou do “tarifaço” anunciado no ano passado. Ainda assim, de acordo com a CNN Brasil, o governo Trump não descarta a adoção de novas tarifas para o país já a partir de julho, quando termina o prazo de validade das atuais.
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Bomba atômica
O presidente americano também deve ter dado gargalhadas silenciosas diante da ambição do Brasil de intermediar um possível acordo de paz entre os EUA e o regime tirânico dos aiatolás do Irã, que Lula garante não querer produzir a bomba atômica. O mesmo deve ter acontecido diante do pedido de Lula para ele revogar o cancelamento dos vistos de autoridades brasileiras que promovem a censura e perseguem adversários políticos, como o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal).
Com receio de ser ridicularizado pelo “amigo” Trump, como ocorreu com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, foi Lula quem pediu, segundo a Fox News, para a reunião ser feita a portas fechadas, sem a presença da imprensa. Para manter o controle da narrativa, dando só a sua versão do encontro, ele também evitou a tradicional coletiva no Salão Oval junto com o presidente americano e falou apenas com jornalistas brasileiros, na embaixada do Brasil, quando lançou a narrativa de que fez sorrir o Trump malvadão.
Lula e seus aliados podem até usar o sorriso de Trump como um “troféu” para alavancar sua campanha, mesmo depois de desferir ataques em série contra ele. Mas parece improvável no momento que isso seja um sinal de que Trump vá mudar sua postura em relação ao Brasil, tanto no aspecto comercial quanto no político, como sugere Lula.
Autor: Gazeta do Povo








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