A dieta GAPS, um protocolo alimentar que restringe grãos, laticínios, açúcares e amidos, tem ganhado adeptos no Brasil e no mundo, inclusive entre pais de bebês em fase de introdução alimentar.
Embora prometa melhorar a saúde ao evitar “toxinas”, não há evidências científicas robustas que sustentem seus benefícios e especialistas alertam para riscos importantes, especialmente na infância.
Nas redes sociais e em fóruns online, pais vêm compartilhando experiências com a chamada “baby GAPS”, uma adaptação do método para bebês, adotada por alguns já a partir dos 4 meses de idade. O protocolo, desenvolvido em 2004 pela médica e nutricionista britânica Natasha Campbell-McBride, foi originalmente pensado para adultos e tem como base um alto consumo de proteína animal.
A versão voltada à primeira infância foi descrita no livro “GAPS Baby, Building Baby’s Biome”, escrito por Natasha e Becky Plotner. Publicada em 2023, a obra orienta priorizar alimentos pastosos —com forte presença de caldos e sopas à base de ossos e carnes—, além de recomendar o uso frequente de probióticos e a introdução lenta de sólidos.
Mas, em vez de melhorar a imunidade e o desenvolvimento neurológico dos bebês, esse modelo pode causar problemas.
“Não existem ensaios clínicos robustos que validem a dieta GAPS, e as sociedades Europeia e Norte-Americana de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica não recomendam seu uso. Pelo contrário, destacam que dietas altamente restritivas, sem indicação médica formal, podem acarretar riscos nutricionais significativos, como deficiências de micronutrientes e restrição calórica”, diz a gastropediatra Camila Torga de Lima e Silva, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia.
A popularização da “baby GAPS” também é impulsionada por desinformação. Em alguns conteúdos, a dieta é associada à melhora da imunidade de bebês prematuros ou com sensibilidade alimentar. Também é indicada com base em alegações como a relação entre vacinação, “toxinas” e desenvolvimento de autismo, hipóteses já refutadas pela ciência.
“Não há evidência robusta de que o intestino permeável seja causa primária de doenças neurológicas ou psiquiátricas, nem de que sua modulação por dietas específicas resulte em melhora clínica dessas condições”, afirma Silva.
Além disso, a manutenção prolongada de alimentos excessivamente pastosos ao longo do primeiro ano de vida pode prejudicar o desenvolvimento motor oral da criança.
Os riscos de uma dieta restritiva
Leguminosas como o feijão e alimentos com glúten, como o pão, estão entre os alvos proibidos pelo protocolo GAPS. No entanto, as diretrizes pediátricas atuais fazem recomendação oposta.
“O feijão pode ser introduzido a partir dos 6 meses, concomitantemente ao início da alimentação complementar. Não há indicação de restrição em crianças saudáveis”, afirma a gastropediatra.
Da mesma forma, alimentos com glúten devem ser introduzidos entre 6 e 12 meses, dentro da chamada janela imunológica. “Evidências atuais demonstram que não há benefício em postergar sua introdução, não havendo impacto na prevenção de intolerâncias. A exclusão do glúten é indicada apenas nos casos de doença celíaca confirmada”, ressalta.
O único item restringido na “baby GAPS” e que tem respaldo científico é o açúcar. As principais organizações médicas recomendam evitar a substância durante os primeiros dois anos de vida. A exposição precoce condiciona o paladar e aumenta o risco de obesidade infantil, síndrome metabólica e doença cardiovascular na infância.
Isso não significa, entretanto, que os carboidratos devem ser cortados totalmente, como teoriza a “dieta carnívora”, em grande parte apoiada nos fóruns sobre GAPS.
“Os carboidratos constituem a principal fonte de energia na infância. Dietas restritivas estão associadas a déficit calórico e podem resultar em falha de crescimento, perda ponderal e prejuízo do desenvolvimento neurocognitivo. Isso se deve, em parte, ao fato de o cérebro infantil apresentar elevada demanda por glicose”, afirma a médica do Einstein. “A restrição pode comprometer atenção, aprendizado e desempenho cognitivo.”
Como fazer uma boa introdução alimentar?
Diretrizes pediátricas nacionais e internacionais orientam iniciar a alimentação complementar à amamentação aos 6 meses de idade. Entre os sinais de prontidão estão o controle da cabeça e do tronco e o interesse do bebê pelos alimentos.
A recomendação é introduzir alimentos de forma gradual e variada, com a mais ampla diversidade alimentar natural possível para a formação saudável do paladar e a prevenção de alergias.
“Orienta-se a introdução de um alimento novo por vez, sem necessidade de ordem rígida, com especial atenção à introdução precoce de alimentos potencialmente alergênicos, como ovo, amendoim, peixe e trigo. Evidências atuais demonstram que a introdução desses alimentos dentro da chamada janela imunológica está associada a uma maior tolerância oral e redução do risco de alergias alimentares”, orienta a especialista.
A alimentação deve incluir vegetais, frutas, cereais, leguminosas e fontes de proteína. A consistência dos alimentos deve evoluir progressivamente, acompanhando o desenvolvimento motor da criança.
“A partir dos 10 a 12 meses, a criança pode evoluir para a alimentação da família, atentando-se para a adição de sal, recomendada apenas após 1 ano de idade, conforme a Sociedade Brasileira de Pediatria”, conclui a gastropediatra.
Autor: Folha








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