A química Tatiana Nogueira Dias da Silva havia acabado de se mudar para a capital paulista quando criou a comunidade Fun Friends na plataforma Meetup, espaço virtual para divulgação de eventos sociais e culturais. “Fiz o grupo porque sou do Rio de Janeiro e não tinha amigos em São Paulo”, conta a carioca, que tinha 43 anos à época.
Hoje, com 52 anos e 507 membros ativos no Fun Friends, ela diz que foi muito válido, pois fez “vários amigos pra vida.” A exemplo de Silva, pessoas adultas estão buscando nas plataformas de encontros sociais e em hobbies presenciais como sapateado novas formas de conexão e amizade.
A amizade na fase adulta contribui para a saúde mental, emocional e até física, afirma o pesquisador alemão Ronald Fischer, doutor em psicologia social. Integrante da equipe do Instituto D’Or de pesquisa e ensino, ele investiga os impactos da solidão. “O ser humano é uma espécie hipersocial, ter conexões com outras pessoas é fundamental para o nosso bem-estar e funcionamento”, destaca.
É, no entanto, mais difícil estabelecer novas relações a partir de certa idade. A neurologista pós-graduada em psiquiatria Roussiane Gaioso, membro da Academia Brasileira de Neurologia, diz que isso ocorre porque “ao longo do crescimento, mudam tanto a dinâmica social quanto as prioridades emocionais e práticas da vida.”
“Na infância e adolescência, estamos inseridos em ambientes de convivência contínua —escola, faculdade, atividades coletivas—, que favorecem encontros espontâneos e repetidos, fundamentais para a criação de vínculos”, afirma Gaioso. Após os 30, quando esses ciclos se encerram, porém, a rotina passa a ser mais marcada por responsabilidades profissionais, familiares e pela limitação de tempo, bem como por experiências anteriores.
“Existe um aumento natural da seletividade emocional: as pessoas tendem a investir energia em relações já consolidadas, tornando mais difícil abrir espaço para novas conexões”, diz a médica.
Voltada para pessoas acima de 40 anos, a Fun Friends se diz uma nova fronteira para “maturidade ativa” que convida os integrantes a redefinirem seus círculos pessoais na fase adulta. A ideia é promover “laços sociais de alto impacto” e combater o isolamento social com networking afetivo.
É uma estratégia que, do ponto de vista científico, pode ser eficaz para quem quer manter o cérebro ativo. “Rir, brincar e interagir com outras pessoas protege contra depressão, ansiedade e demência”, diz Fischer.
A solidão pode afetar pessoas de qualquer idade e causar sentimentos de desconexão social, que tem implicações profundas. “Essa percepção ativa o eixo HPA (hipotálamo-pituitária-adrenal), elevando os níveis de cortisol, que é um marcador de estresse, o que pode causar inflamação crônica e reduzir a imunidade”, diz Fischer.
Solidão crônica também gera um estado de hipervigilância, no qual o indivíduo pode passar a “perceber o ambiente social como inerentemente ameaçador”, o que dificulta conhecer pessoas. Sem mudança dessa percepção subjetiva, podem-se agravar ainda quadros de depressão ou ansiedade.
Segundo relatório da OMS (Organização Mundial de Saúde), a solidão e o isolamento estão associados a cerca de 100 mortes por hora no planeta, com alerta de alto risco para os idosos devido a fatores como luto, aposentadoria, limitações físicas e o fato de viverem sozinhos.
Jovens adultos também estão vulneráveis, avalia Fischer. “Pessoas nessa idade, frequentemente, saem da casa dos pais e terminam a escola, interrompendo muitos laços importantes.”
Em artigos publicados, Fischer e equipe demonstram que a identificação de valores compartilhados é essencial nessa idade para criar amizades. Foi o caso da advogada Marina Tognato, 36, que retomou ano passado o sapateado iniciado na infância e acabou encontrando oportunidade de conexão.
“São pessoas que têm as mesmas afinidades, mesma faixa etária. Muito fácil iniciar novas amizades, porque é uma sala pequena. É diferente de andar de bicicleta ou correr no parque no meio de tanta gente, onde dificilmente você vai abordar alguém para conversar”, avalia Tognato.
Para a economista Fernanda Fonseca, 36, o sapateado era um desejo de infância. Ela encontrou na turma uma rede de apoio, uma vez que vive longe da família. “A aula de dança acaba sendo um ambiente muito propício, porque você já parte de um interesse em comum, aproxima naturalmente as pessoas”, afirma.
O professor de sapateado Lucas Pedroso, 30, diz que as classes de alunos adultos costumam se diferenciar em afinidade das demais. “Nas turmas de adolescente ou crianças, eles conversam porque estão vendo a mesma coisa na escola ou estudam juntos. O adulto não, eles têm em comum os objetivos de aprender e refinar o sapateado e isso cria laços mais fortes”, diz Pedroso.
Na faixa entre 40 e 60 anos, o maior fator de risco é a sobrecarga de trabalho, que se soma ao cuidado simultâneo de filhos e pais idosos ou ao chamado “ninho vazio”, quando as crianças crescem.
“Muitas pessoas nesta faixa etária também sofrem com divórcio, separação ou isolamento emocional mesmo dentro de relações estáveis, muitas vezes vinculado com mudanças pessoais dos interesses, dos valores pessoais ou no trabalho”, afirma Fischer.
O ‘pique’ para sair também muda, podendo levar à redução de amizades. Outros grupos de risco são mães com crianças pequenas, pessoas que vivem sozinhas ou em situação precária, e imigrantes.
A editora de textos Amanda Lenharo di Santis, 40, aderiu aos grupos do MeetUp em meados de 2011 com foco na prática de línguas estrangeiras, mas sem criar nenhum grande vínculo. Entre 2018 e 2022, porém, ela passou por uma série de perdas no círculo de convívio, como demissão, entrada no ramo de trabalho não presencial, separação, crescimento da filha e luto pela mãe.
“Foi uma época tensa, com mudanças na minha rotina e me senti muito sozinha. Percebi que o pacote maternidade e casamento tinha me afastado de muitos amigos, porque, na juventude, eu era a pessoa que marcava tudo e fazia festas”, afirma di Santis.
Sem frequentar aulas e empresa ou ter a presença constante da família, ela encontrou o grupo “Socializando SP” e, desde então, já participou de shows de rock, aulas de salsa, trilhas, foi à peças de teatro, cafés e até encontro de patinação.
“Achei uma nova alegria. A maioria é muito receptiva e isso faz a gente se sentir menos solitário numa metrópole como São Paulo. Ainda mais em uma época em que o online está tomando tanto espaço e as relações ficaram muito menos reais. Ter um olho no olho, um abraço, segurar na mão é incrível”, diz.
Autor: Folha








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