Vade retro, Dark Horse, chegou a vez da Jurema. A jurema-preta, a Jurema Sagrada, a Cabocla Jurema, o vinho da jurema –um segredo luminoso do sertão nordestino que reúne a partir de sábado (23) o que o país tem de melhor no 2º Seminário de Medicinas Ancestrais: Jurema, em território Truká no município de Orocó (PE).
Só mesmo no Brasil uma planta cheia de espinhos, a jurema-preta, poderia trazer à mesma mesa povos que por séculos viveram às turras: indígenas e negros, de um lado, e pesquisadores, de outro. Os primeiros aprenderam e ensinaram aos outros o poder da Mimosa tenuiflora, árvore da caatinga cuja raiz contém a substância psicodélica N,N-dimetiltriptamina (DMT), uma promessa de cura que só em período recente a ciência acadêmica descobriu, ou pensa ter descoberto.
Do encontro em torno dessa árvore nasceu o Catimbó, religiosidade do pobre nordestino que mesclou raízes ameríndias com rituais de matriz africana nas fugas e revoltas de escravizados. Ela sobreviveu em aldeias indígenas e em terreiros urbanos à perseguição pela Igreja e pelo Estado. Agora, quando é mais conhecida como Jurema Sagrada, seus herdeiros buscam forjar alianças com pesquisadores da academia para ver respeitados seus direitos e seu sacramento.
Não tem sido um diálogo fácil, como seria de esperar após cinco séculos de violência e silenciamento. O primeiro seminário da Jurema, realizado também no território Tapera (a 7 km de Orocó), teve debates acalorados, centrados em acusações de apropriação cultural do saber associado à planta e seus rituais. Mas não acalorado a ponto de carbonizar a chance de prosseguir com a conversa.
Os anfitriões são mais uma vez o cacique Yssô Truká e Edna Bezerra Pajeu, ou Edna Truká, lideranças do povo de Tapera. Além de vários representantes Truká, estarão presentes outros povos juremeiros do Nordeste, como Atikum, Fulni-ô, Pankará, Pankararé, Pankararu, Tremembé e Xucuru.
Um sintoma de que o calor do primeiro seminário deixou apenas queimaduras leves, que estão cicatrizando, é o retorno ao evento de pesquisadores do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (ICe-UFRN), como Dráulio de Araújo e Fernanda Palhano. No ICe realizou-se a partir de 2022 o Projeto Dunas, centrado em testes clínicos da DMT aspirada para tratar depressão.
A pesquisa foi apresentada numa série de reportagens desta Folha, “A ressurreição da Jurema”, e no livro “A Ciência Encantada de Jurema” (Fósforo, 2025). Inicialmente extraída da raiz de Mimosa tenuiflora, a DMT passou a integrar o protocolo de pesquisa em forma sintética pelo grupo da UFRN, que no presente aguarda conclusão de trâmites burocráticos para concluir importação do composto.
Participam do seminário outros pesquisadores, como os antropólogos Rodrigo Grünewald, da Universidade Federal de Campina Grande, e Estêvão Palitot, da Universidade Federal da Paraíba, ambos estudiosos do Catimbó/Jurema. De povos de terreiro estarão presentes, entre outros, Pai Alex Gomes, da Casa de Jurema Mestre Zé da Pinga (Arapiraca, AL) e Pai João Bosco, do Terreiro Aldeia Pena Branca (Petrolina, PE).
Durante o evento será lançado o livro “Jurema: Ciências, Cuidados e Proteção”, organizado por Alexandre Franca Barreto, Edna Truká, Edivânia Granja e Yssô Truká. Em 282 páginas, o volume reúne os debates ocorridos há cerca de um ano no primeiro seminário.
Neste ano, o 2º Seminário de Medicinas Ancestrais: Jurema ainda está aceitando inscrições, que devem se encerrar nesta quinta-feira (21), por R$ 250.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Autor: Folha




















