Crítica | SP
Terraço Notiê
Três estrelas (Bom)
R. Formosa, 157, República, região central. @terraconotie
A ideia de provar a comida de um chef renomado num terraço com vista pro centro de São Paulo parecia promissora. Naquela noite de sábado, fui animada ao Terraço Notiê by Priceless, mesmo um tanto confusa quanto ao que esperar de um lugar cujo nome faz referência a uma bandeira de cartão de crédito.
Após as 21h, a recomendação é entrar pelo subsolo do shopping Light. Em meio à estética cinza típica de estacionamentos, surge um portal iluminado, com tubos cor de laranja muito finos e compridos pendendo do teto.
Você passa no meio dessa estranha instalação e dá num elevador de 1929 que conserva o charme da porta pantográfica (aquela que se dobra como uma sanfona ao fechar). Uma ascensorista te leva ao último andar.
Já na recepção, fomos informados que é possível jantar em qualquer um dos três espaços: no bar, no terraço ou no restaurante. Como os dois últimos estavam cheios, fomos encaminhados ao bar, que tem aquelas mesas com sofazinhos de um lado e cadeiras de outro. Ao nosso lado, uma cliente aproveitava o cenário para fazer selfies. Sentamos um tanto constrangidos, torcendo para que a sessão de caras, bocas e beicinhos acabasse logo.
Começamos com os croquetes de costela (R$ 52). Sequinhos por fora e macios por dentro, estavam saborosos. O pastel de queijos brasileiros (R$ 46) também, embora uma das quatro unidades estivesse com o queijo todo para fora, como se a massa tivesse estourado durante a fritura.
O próximo pedido seria o mini-hambúrguer de porco (R$ 52). Mas não foi. Ao perguntar quantas unidades vinham, o garçom respondeu: “Uma”. Olhei a descrição no cardápio e nada justificava um mini-hambúrguer pelo preço de um hambúrguer de tamanho normal.
Pulei para o tartare de cordeiro (R$ 79) com gema curada. Misturar tudo e provar com o delicioso waffle de polvilho foi a melhor pedida da noite. Entrada fresca, diferente e cheia de umami.
Seguimos para a tortilla de mandioca com tempurá de bochecha de peixe (R$ 38). Uma pena ter chegado fria à mesa, sem a crocância esperada. Prejudicou o ótimo conjunto, que contava com creme de avocado, cebola roxa e pimentas brasileiras.
Na mesa ao lado, as fotos continuavam. Mas com outras pessoas. De casais a uma excursão de turistas americanos, os clientes chegavam, pediam um drinque ou prato para fazer uma selfie, comiam desinteressados e iam embora.
Na sala ao lado, onde fica o DJ, quase ninguém dançava ou conversava. Já o sofá estava sempre lotado de gente à procura da melhor pose. Parecia um pacto coletivo, em que todos topam passar vergonha no mundo real para performar no mundo virtual.
Voltei na semana seguinte para provar os pratos principais. O nhoque de vatapá (R$ 132) veio com camarões grelhados firmes e graúdos. Mas, com um amargor indesejado e zero acidez, o molho de moqueca que vem junto deixou a desejar. Em quase nada lembrava a cozinha vibrante do chef Onildo Rocha.

Arroz de caju do chef Onildo Rocha, no restaurante Terraço Notiê
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Priscila Pastre/Folhapress
O arroz de caju (R$ 68) estava melhor, com um intrigante glacê da fruta com tucupi. Já o caju assado, que nas fotos do Instagram da casa aparece em pedaços carnudos e brilhantes, estava chocho e também com um amargor indesejado.
Dessa vez comi no terraço. Ali, as selfies são estimuladas por neons que formam expressões como fruto proibido ou só nos resta viver. Não basta a beleza do Theatro Municipal ao fundo. É preciso posar ao lado de uma frase cafona ou do símbolo do cartão de crédito que patrocina o espaço.
Uma sacada eficiente para a marca, que consegue propaganda grátis a cada foto. Uma tristeza estética para o centro, que ganha ares de sala VIP de aeroporto. E para os pratos servidos ali, que, cheios de potencial, acomodam-se nessa homogeneização.
Autor: Folha









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