Quando entrar em campo contra a Bósnia-Herzegovina nesta sexta-feira (12), às 16h, pelo Grupo B, diante de até 40 mil torcedores no BMO Field, em Toronto, o Canadá tentará conquistar uma marca inédita: sua primeira vitória em um jogo na Copa do Mundo.
A seleção participa de seu terceiro Mundial —depois de 1986 e 2022— e chega ao torneio embalada em uma boa fase de sua história recente. Mas, fora dos estádios, o entusiasmo pelo evento está longe de ser unanimidade.
Os canadenses chegam ao torneio como anfitriões e tentam apagar um retrospecto incômodo: em seis partidas disputadas em Copas na história, perderam todas.
A última derrota veio em 2022, no Qatar, quando o time caiu ainda na fase de grupos. Agora, junto dos Estados Unidos e México, são anfitriões e vão sediar 13 jogos: seis em Toronto e sete em Vancouver.
O cenário agora parece diferente. Desde a chegada do técnico Jesse Marsch, em maio de 2024, a seleção ganhou competitividade e alcançou o quarto lugar na Copa América no mesmo ano —o Brasil chegou em sexto lugar no torneio.
A campanha elevou o otimismo em torno de uma geração liderada por Alphonso Davies e Jonathan David, embora Davies esteja fora da estreia por lesão.
Do outro lado estará uma das surpresas das eliminatórias europeias. A Bósnia-Herzegovina garantiu vaga ao derrotar a Itália no playoff, vencendo por 4 a 1 nos pênaltis após empate por 1 a 1.
O resultado impediu os italianos de disputarem a Copa do Mundo pela terceira vez consecutiva e levou os bósnios de volta ao Mundial pela primeira vez desde 2014.
A classificação transformou uma seleção pouco cotada em uma incógnita perigosa para os anfitriões.
O veterano atacante Edin Džeko, aos 40 anos, segue como principal referência da equipe, que aposta na experiência de remanescentes da campanha de 2014 para surpreender novamente.
Apesar da importância histórica da partida, o clima nas ruas de Toronto é diferente daquele observado em países tradicionalmente apaixonados pelo futebol.
“Eu provavelmente vou evitar ir ao centro da cidade nos dias de jogo”, disse Joyce Tong, 23, moradora de Mississauga, cidade vizinha a Toronto. Ela afirma não acompanhar futebol regularmente e acredita que o principal impacto da Copa será o aumento do movimento nos transportes públicos.
“Quando já há um jogo de hóquei ou beisebol, os trens ficam lotados. Então imagino como será com a Copa do Mundo.”
A percepção aparece também em pesquisas. Levantamento do Instituto Angus Reid divulgado nesta semana mostra que a maioria dos moradores da região de Toronto afirma não ter interesse em assistir às partidas da Copa, enquanto sete em cada dez consideram que os gastos públicos, que segundo o instituto gira em torno de estimados R$ 3,6 bilhões pelo instituto, com o torneio não compensam os benefícios econômicos esperados.
Mesmo entre os que demonstram curiosidade, o futebol continua atrás de esportes mais tradicionais no país.
“O Canadá é conhecido pelo hóquei. Muita gente acompanha hóquei, beisebol ou basquete”, disse Harshil Vaidya, 30, especialista em marketing que mora no centro de Toronto, ao lado da área do Fan Fest. “Mas, como somos um dos países-sede e temos muitos imigrantes, dá para ver pessoas usando camisas de várias seleções e acompanhando a Copa.”
Vaidya diz que a cidade já vive o torneio. Ensaios para a cerimônia de abertura, ruas bloqueadas e áreas reservadas para eventos tomaram conta do centro nas últimas semanas. “É um pouco inconveniente para quem mora aqui, mas também é legal viver numa cidade-sede e sentir essa energia.”
O contraste ajuda a explicar um fenômeno curioso. Enquanto o Canadá tenta consolidar sua seleção entre as forças emergentes do futebol mundial, boa parte da população parece enxergar a Copa mais como um grande evento urbano do que como uma paixão nacional.
A estreia contra a Bósnia pode ser uma oportunidade para mudar essa percepção. Afinal, uma vitória colocaria fim a um jejum histórico de 40 anos e daria ao país sua primeira celebração em uma Copa do Mundo justamente diante de sua torcida.
Autor: Folha








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