Segundo maior produtor de café do mundo, atrás apenas do Brasil, o Vietnã desmatou 207 mil hectares de floresta entre 1990 e 2022 para expandir sua cafeicultura. A área –equivalente ao território de Luxemburgo– corresponde a 30% dos cerca de 700 mil hectares de plantações de café que o país tem hoje.
A cafeicultura no Vietnã cresceu significativamente nos últimos 40 anos. Nos anos 1980, a área de cultivo era de apenas 50 mil hectares. Hoje, o país é o responsável por cerca de 1 em cada 5 xícaras consumidas globalmente.
Os dados são de um relatório da Coffee Watch obtido com exclusividade no Brasil pela Folha. Com base em imagens de satélite, o estudo concluiu que tamanha expansão do cultivo causou o desmatamento de pelo menos um terço das florestas das Terras Altas Centrais, região onde cresce 93% do café vietnamita.
A maioria dessa destruição ocorreu entre meados dos anos 1990 e 2010, quando a taxa anual de desmatamento dentro das áreas hoje ocupadas por café chegava a 15 mil a 20 mil hectares por ano. A cobertura florestal regional caiu de 43% em 1990 para 19% em 2020.
O relatório aponta ainda que o desmatamento ruiu os sistemas ecológicos que regulavam a água na região. Entre 57% e 95% da água de irrigação utilizada nas lavouras de café vietnamitas vem de aquíferos subterrâneos. Poços que antes tinham 10 a 15 metros de profundidade agora precisam atingir até 45 metros.
A situação fica mais preocupante diante da iminência de um El Niño histórico. Na última quinta (11), a NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA) confirmou o início do El Niño e disse que há 63% de chance de o fenômeno alcançar intensidade muito forte entre novembro e janeiro. Ainda segundo a organização, há uma possibilidade de este El Niño figurar entre os recordes do fenômeno desde o início dos registros, em 1950.
Durante o El Niño de 2015–2016, os reservatórios nas Terras Altas vietnamitas caíram significativamente, e a vazão dos rios diminuiu até 90%. Aproximadamente 150 mil hectares de terra agrícola foram afetados, e a produção de café caiu até 25% nas áreas mais atingidas, segundo a Coffee Watch.
“Acredito que o café vietnamita esteja ainda mais em perigo hoje do que estava em 2015. Afinal, entre aquela época e hoje, vimos principalmente danos contínuos: mais desmatamento, mais agrotóxicos, mais monocultura e mais uso irresponsável da água. Parece-me que tudo isso só vai aprofundar a vulnerabilidade do Vietnã ao próximo El Niño, que já está sobre nós”, diz à Folha Etelle Higonnet, fundadora e diretora da Coffee Watch.
O Vietnã produz majoritariamente café da espécie canéfora. No Brasil, predomina o cultivo do arábica, mas o canéfora –conilon e robusta– tem crescido rapidamente nos últimos anos.
O relatório da Coffee Watch –organização de monitoramento da indústria global de café– combina mapeamento de satélite com registros governamentais. Para estimar o desmatamento atribuível ao café, o estudo cruzou o banco de dados de Floresta Tropical Úmida da Comissão Europeia com o mapa de de cultivo de café do Alliance of Biodiversity International e do CIAT (Centro Internacional de Agricultura Tropical).
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Autor: Folha




















