No século 19, Jean-Baptiste Lamarck postulou que características adaptativas adquiridas pelos organismos ao longo da vida poderiam ser transmitidas aos seus descendentes. O exemplo mais célebre associado à sua teoria é o das girafas: o uso repetido do pescoço para alcançar folhas mais altas teria provocado seu alongamento, característica que seria então herdada pelos filhotes.
Essa noção perdeu força com a paulatina consolidação da teoria da seleção natural de Darwin, segundo a qual as populações apresentam variações hereditárias e os indivíduos mais adaptados ao ambiente têm maior probabilidade de sobreviver, reproduzir-se e transmitir seus traços às gerações seguintes.
Nos últimos anos, porém, algumas descobertas têm reabilitado, em parte, certas intuições lamarckianas por meio da epigenética –área que investiga modificações químicas capazes de regular a atividade dos genes sem alterar a sequência do DNA. Fatores ambientais como alimentação, estresse, toxinas e exercício físico podem induzir essas alterações. O aspecto mais intrigante é que algumas delas parecem, em determinadas circunstâncias, ser transmitidas às gerações seguintes, influenciando o metabolismo, o comportamento e a predisposição a doenças.
Um estudo recente com roedores investigou se o exercício físico realizado pelo pai antes da concepção poderia beneficiar a saúde dos filhos por mecanismos independentes de alterações na sequência do DNA, envolvendo os chamados microRNAs —pequenas moléculas de RNA que regulam a expressão de genes e proteínas. A hipótese era de que modificações nessas moléculas induzidas pelo exercício poderiam influenciar as etapas iniciais do desenvolvimento do embrião e, assim, contribuir para moldar características biológicas dos descendentes, como a aptidão física e o metabolismo.
Para testar essa ideia, camundongos machos foram submetidos a oito semanas de treinamento em esteira e, em seguida, acasalados com fêmeas sedentárias. Os pesquisadores avaliaram a capacidade física e o metabolismo dos filhotes e investigaram os possíveis mecanismos envolvidos. Além disso, isolaram microRNAs do esperma de camundongos treinados e os injetaram em zigotos recém-formados, a fim de verificar se essas moléculas, por si só, seriam capazes de reproduzir os efeitos observados na prole.
Os filhos machos de pais treinados apresentaram melhor aptidão física e um perfil metabólico mais favorável, com maior controle da glicemia e maior sensibilidade à insulina. O exercício também modulou o perfil de microRNAs nos espermatozoides, em especial a expressão da molécula miR-148. O achado mais notável foi que a transferência desses microRNAs para zigotos reproduziu parte dos benefícios observados na prole, sugerindo que essas pequenas moléculas podem atuar como mensageiras biológicas capazes de transmitir, entre gerações, certos efeitos do exercício, sem alterar a sequência do DNA.
O estudo reforça a noção de que hábitos paternos anteriores à concepção podem influenciar a saúde dos descendentes por mecanismos epigenéticos. Os pesquisadores, contudo, ressaltam que diversas questões permanecem em aberto: por que os efeitos parecem ser menos pronunciados em descendentes fêmeas, por que a transmissão se limita à primeira geração e, a derradeira, se os achados se estendem aos humanos.
Se confirmados, mecanismos dessa natureza poderiam representar uma forma rápida e transitória de ajuste a condições ambientais e hábitos de vida, complementando –sem substituir– o lento processo de adaptação promovido pela seleção natural.
Mas ressalvo que seria um equívoco interpretar qualquer possível herança epigenética de modo determinista. Ela constitui apenas um entre vários condicionantes e não é uma sentença biológica. Como todo patrimônio herdado, pode florescer ou definhar nas escolhas do herdeiro.
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Autor: Folha




















