
A chegada de Spider-Noir ao catálogo do Prime Video trouxe aos espectadores uma proposta distinta dentro do saturado universo das adaptações de super-heróis. Situada na Nova York dos anos 1930, a série acompanha Ben Reilly, um detetive particular amargurado, falido e cético, que precisa confrontar uma conspiração criminosa e indivíduos com habilidades extraordinárias. Se por um lado a produção é celebrada por sua ousadia estética e pela entrega de seu protagonista, por outro, a trajetória narrativa do personagem desperta debates intensos sobre a manutenção de sua identidade artística ao longo dos episódios.
O ponto de maior consenso entre os analistas reside na qualidade técnica e no desempenho central de Nicolas Cage. Para a crítica Isabela Boscov, a série funciona como o veículo perfeito para o talento de Cage, que ela define não apenas como um ator dramático, mas como um artista performático. Boscov ressalta o trabalho corporal peculiar do ator e o uso deliberado de um sotaque Mid-Atlantic, que serve como uma homenagem a ícones do cinema noir, como Humphrey Bogart e Edward G. Robinson. Essa visão é compartilhada pelo crítico Peter Jordan, que elogia a entrega física de Cage ao transparecer a estranheza de um ser que atua como uma “aranha fingindo ser humana”. Já o crítico Jurandir Gouveia, embora pondere sobre falhas estruturais, também reconhece a performance de Cage como um dos pilares da produção, destacando sua capacidade de transmitir o ceticismo e a carga emocional exigidos pelo gênero.
A construção visual também recebe amplo destaque. Isabela Boscov exalta a fotografia, recomendando enfaticamente o consumo da obra na versão em preto e branco para melhor apreciar o contraste de luz e sombra. A estética é classificada por ela como uma graphic novel em movimento, complementada por uma trilha sonora que mescla jazz e composições originais. No mesmo sentido, Jurandir Gouveia aponta a estética como um dos grandes êxitos da série, elogiando a fidelidade à atmosfera da década de 30. O rigor técnico também é louvado por Peter Jordan, que descreve as cenas de ação como muito bem executadas e os elementos de ambientação como dignos de uma produção cinematográfica.
Contudo, é na estrutura narrativa que as percepções se distanciam. Peter Jordan classifica a série como “redondinha”, elogiando o ritmo constante e a ausência de “encheção de linguiça”, além de valorizar a originalidade em relação às HQs — citando como acerto o tratamento dos poderes como uma “doença”. Isabela Boscov corrobora a qualidade do roteiro, apreciando como a série utiliza o gênero noir para oferecer diálogos com um peso incomum na televisão contemporânea.
Em contrapartida, Jurandir Gouveia traça uma análise mais crítica após o quinto episódio. O crítico argumenta que a série, ao abandonar o tom investigativo clássico que a norteava inicialmente, sucumbe a clichês comuns de histórias de super-heróis. Gouveia aponta inconsistências no desenvolvimento de personagens como o vilão Cabelo de Prata e o personagem Dirk, este último descrito pelo crítico como “insuportável”. A principal reserva de Gouveia recai sobre o arco de transformação de Ben Reilly: ele considera o “discurso motivacional” que impulsiona o protagonista ao final da temporada uma solução pobre e pouco convincente, em detrimento de um foco maior na profundidade psicológica.
Apesar das divergências sobre a execução final, o panorama crítico converge para uma percepção de Spider-Noir como um produto superior a outras investidas da Sony no gênero. Enquanto Jordan recomenda a maratona e anseia por uma renovação, e Boscov define a série simplesmente como “boa porque é boa”, Gouveia encerra sua avaliação com um sentimento de “potencial desperdiçado”. Para o crítico, a série entrega um entretenimento sólido, mas que poderia ter alcançado patamares mais elevados caso tivesse resistido à tentação de trocar a complexidade do gênero noir por fórmulas mais convencionais.
Autor: Gazeta do Povo








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