quinta-feira, junho 25, 2026
3.6 C
Pinhais

Como “Obsessão” e “Backrooms” revitalizam as bilheterias

Durante muito tempo o chamado filme B, popularizado por produtores como Roger Corman a partir dos anos 1950 e 1960, parecia estar destinado a ser simplesmente uma produção de baixo orçamento. Um de seus últimos projetos, Sharktopus Contra Whalewolf (2015), um telefilme para o Sci-Fi Channel americano, custou por volta de US$ 6 milhões. Em uma entrevista concedida ao jornalista brasileiro Paulo de Goes para o Jornal do Vídeo, em 1993, Corman ficou surpreso ao saber que o jovem diretor Robert Rodriguez tinha feito El Mariachi (1992) com apenas US$ 7 mil.

El Mariachi ganhou vários prêmios internacionais e colocou a carreira do jovem Rodriguez num outro patamar, que o levou a fazer o cultuado Um Drinque no Inferno (1996) e se tornar parceiro de Quentin Tarantino. Guardadas as devidas proporções, dois filmes de baixo orçamento, de criadores de YouTube desconhecidos, estão ajudando a atrair novamente o público para as salas de cinema, sem grandes orçamentos de divulgação, apenas com o tradicional boca-a-boca: Obsessão (2025) e Backrooms – Um Não-Lugar (2026).

Os dois filmes foram produzidos muito abaixo do custo de qualquer filme padrão feito em Hollywood. A produção não tem efeitos visuais feitos por mais de 600 pessoas como os de super-heróis, por exemplo. A discussão sobre custo versus criatividade vem sendo abordada por muitos especialistas da área há algum tempo. O recente artigo publicado no The New York Times pelos jornalistas Kyle Buchanan e Natalie Kitroeff, aponta que Obsessão e Backrooms: Um Não-Lugar são exemplos de uma possível mudança no mercado cinematográfico ao atrair em massa espectadores da Geração Z para as salas de cinema.

Segundo a análise de Kyle e Natalie, o motivo do sucesso dessas produções está diretamente ligado à origem de seus realizadores, Kane Parsons e Curry Barker, que têm 21 e 27 anos de idade, respectivamente, e por isso fizeram essas duas produções entendendo as experiências e inquietações de seu público-alvo: o jovem americano da Geração Z. Na realidade, segundo a análise do jornal, essa dupla está redefinindo o suspense e o terror, gêneros que, no passado, eram típicos da juventude que frequentava os drive-ins na década de 50.

O que tem chamado a atenção da indústria do entretenimento para Obsessão e Backrooms: Um Não-Lugar é que a criatividade está acima de qualquer ousadia monetária. Diferentemente das grandes produções de estúdio, que frequentemente apostam em franquias consolidadas e orçamentos milionários, esses dois filmes investem em histórias mais próximas das experiências e inquietações de seu público-alvo. Insegurança, paranoia digital, isolamento e a sensação de viver em ambientes cada vez mais impessoais reverberam no público jovem, que acaba se identificando com as histórias criadas.

É claro que o papel das redes sociais, algo inimaginável para Corman e outros produtores de cinema, tem sido uma ferramenta fundamental para propagar esses conteúdos que agradam a Geração Z, essa geração que usa direto plataformas como TikTok, YouTube e Instagram. Guardadas as devidas proporções, seria como analisar uma telenovela pela audiência de seus capítulos e assim, mudar a história conforme a reação do público. Algo que Ray Bradbury esboçou no clássico Fahrenheit 451, mostrando uma sociedade que aboliu os livros para criar uma interatividade forçada pela integração da TV na casa da população.

Não pense, contudo, que toda essa criatividade nasceu por causa das redes sociais. Um dos fatores que ajudaram a formar esses novos cineastas é a facilidade da tecnologia criada pelos smartphones. Hoje, é possível fazer um filme de alta qualidade técnica de som e de imagem, com um dispositivo que também faz ligações telefônicas. Tudo começa com um simples vídeo postado em um canal do YouTube. Sua repercussão, positiva ou não, incentiva o criador a aperfeiçoar seu trabalho a cada nova produção.

O que está assustando o sistema de produção convencional, leia-se Hollywood, é que esses novos criadores digitais estão se tornando concorrentes cada vez mais relevantes, capazes até de mudar os rumos de estratégias tanto na produção como na distribuição de novos filmes e séries. Não por causa do baixo custo de suas produções, mas pela criatividade de suas histórias.

Kane Parsons, conhecido no YouTube pelo codinome Kane Pixels, é o responsável pelo curta The Backrooms (Found Footage), que ele fez em 2022 e teve mais de 190 milhões de visualizações, ao explorar uma atmosfera de horror psicológico e estética analógica. O sucesso do projeto levou Parsons a dirigir seu primeiro longa-metragem, Backrooms: Um Não-Lugar (2026), produzido pela A24 e estrelado por Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve.

Já Curry Barker abandonou a escola de cinema para tentar a sorte como ator, como roteirista e diretor. Acabou fazendo as três atividades numa competitiva indústria em Los Angeles, junto com o colega Cooper Tomlinson, com quem criou o canal de esquetes That’s a Bad Idea. Barker dirigiu curtas premiados e alcançou destaque com Milk & Serial (2024), filme de terror produzido por apenas US$ 800 e que se tornou um fenômeno online. Inspirado num episódio de Os Simpsons, ele desenvolveu a história de Obsessão, que produziu com menos de US$ 1 milhão. Exibido no Toronto International Film Festival, o filme gerou uma disputa entre estúdios de Hollywood, resultando em um acordo milionário.

Mais do que sucessos isolados, Obsessão e Backrooms: Um Não-Lugar demonstram como o terror continua sendo um dos gêneros mais eficazes para revelar tendências de comportamento e consumo entre os jovens, consolidando-se como uma porta de entrada para uma nova geração de cineastas e espectadores.

No passado, nomes como Steven Spielberg, George Lucas, John Carpenter e James Cameron construíram suas carreiras a partir de produções modestas antes de alcançar Hollywood. Hoje, vemos criadores que fazem um percurso semelhante, mas utilizando a internet como principal plataforma de desenvolvimento. Hoje, vemos jovens mentes criativas, que entendem o que estão fazendo e mais, entendem exatamente para quem produzem conteúdo no ambiente digital.

Na realidade, a análise dos dois jornalistas no The New York Times mostra que, no fim, não é o dinheiro que conta, não são os efeitos especiais ou nomes famosos no elenco. O que continua atraindo o público, seja de qualquer geração ou formato, é uma boa história.

Autor: Gazeta do Povo

Destaques da Semana

Polícia Civil do RJ apura reativação clandestina de banco extinto há mais de 60 anos

A Delegacia de Defraudações (DDEF) da Polícia Civil do...

Maduro pede união na Venezuela após terremotos

O ex-ditador venezuelano Nicolás Maduro, que está preso nos...

Como a crítica avalia Toy Story 5, novo filme da Pixar

Toy Story 5 marca o retorno da icônica turma...

Vereadora de Londrina é denunciada por desvio de R$ 1,6 milhão

O Ministério Público do Paraná denunciou a vereadora Anne...

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas