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Pesquisadores criticam demolição do Instituto Adolfo Lutz – 26/06/2026 – Equilíbrio e Saúde

O Instituto Adolfo Lutz (IAL), que tem 134 anos e é um dos principais centros públicos de análise de biossegurança e vigilância epidemiológica do país, corre o risco de desaparecer, segundo a Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC) e a Associação de Docentes da Universidade de São Paulo (Adusp).

Os pesquisadores afirmam que o terreno dos quatro prédios tombados do instituto é considerado pela gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) para a construção do Instituto Tecnológico de Emergência (ITE) do Hospital das Clínicas da USP, chamado também de Hospital Inteligente.

Direção e funcionários do instituto souberam da possibilidade de demolição das instalações por meio de um post no Instagram da médica Ludhmila Abrahão Hajjar, que é coordenadora e idealizadora do novo hospital junto ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

Ligado à Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, o Instituto Adolfo Lutz está localizado no bairro de Cerqueira César, em um quarteirão junto à própria secretaria, com entrada pela avenida Doutor Arnaldo. Uma projeção dos 150 mil m² do Hospital Inteligente na área hoje ocupada pelo instituto e pelo órgão estadual foi compartilhada por Hajjar no Instagram no dia 18 de março.

O instituto ocupa três edifícios construídos em 1937 pelo escritório Ramos de Azevedo, também responsável pelo prédio histórico da Faculdade de Medicina da USP, na mesma região. A planta do instituto e da secretaria são tombadas desde 1990 pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo).

A reportagem apurou que a secretaria já começou a buscar espaços na região central de São Paulo para a transferência da pasta. Apurou, ainda, que há terrenos próximos à FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) que comportariam a construção do novo hospital, mas há preferência pelo terreno do Adolfo Lutz, que fica ao lado do Hospital das Clínicas.

Além disso, embora no cronograma do Ministério da Saúde as atividades do ITE estejam previstas para começar em 2029, “demolições” podem ocorrer já a partir da semana que vem, no mês de julho.

Procurado, o Ministério da Saúde afirmou que a “definição do local e a cessão do terreno para a construção do ITE cabem ao Governo do Estado de São Paulo” e que o projeto apresentado pela pasta federal “não prevê a derrubada de prédios históricos”.

A Secretaria de Saúde da gestão Tarcísio, por sua vez, disse que ainda “não definiu o local de implantação da unidade” e que o projeto está em fase de detalhamento técnico. Segundo a pasta, as alternativas estão “em análise pelas áreas responsáveis e pelas instituições envolvidas, considerando viabilidade operacional, estrutural, assistencial e orçamentária”.

Em relação ao Instituto Adolfo Lutz, a secretaria ressaltou que “qualquer decisão será precedida de planejamento técnico, com preservação das atividades laboratoriais, de vigilância, pesquisa e referência” e que vai conduzir o processo com “diálogo com as instituições envolvidas” e “respeito ao patrimônio público e à continuidade dos serviços essenciais”.

A reportagem procurou Hajjar para falar sobre o possível endereço do Hospital Inteligente, mas não obteve retorno até a publicação deste texto. Em maio, a médica falou ao site Metrópoles que a equipe do Adolfo Lutz iria para um lugar “muito melhor”. E acrescentou: “Nós só vamos derrubar com tudo organizado. Isso é ponto pacífico. Sou cientista, jamais deixaria isso acontecer”.

O projeto do Hospital Inteligente conta com aporte chinês de R$ 1,7 bilhão por meio do Novo Banco de Desenvolvimento dos Brics, R$ 110 milhões da União e R$ 55 milhões do estado de São Paulo. Também cabe ao governo paulista fornecer o terreno.

Reconhecido internacionalmente, o Instituto Adolfo Lutz é referência nacional no diagnóstico de meningites bacterianas, coqueluche, botulismo, hantavírus, influenza, dengue e zika, entre outros.

Nota pública divulgada pela APqC destaca que “não há projeto executivo, orçamento garantido ou plano de transição” para os laboratórios do instituto.

“O IAL é o coração da vigilância epidemiológica do estado. Realizamos mais de 600 tipos de exames essenciais para o monitoramento e combate a doenças como dengue, Covid-19 e febre amarela. Destruir nossa infraestrutura atual sob a promessa vazia de um ‘prédio futuro’ paralisará nossa capacidade de resposta a epidemias e colocará a vida de milhões de paulistas em risco”, dizem os pesquisadores.

Em reforço à APqC, a Adusp critica a falta de transparência do processo e afirma que as duas audiências públicas realizadas sobre o tema, em 6 de maio e em 11 de junho, foram convocadas na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) por parlamentares da oposição.

As entidades afirmam ainda que o processo de desmonte não começou agora. De acordo com a APqC, o decreto estadual 70.410, de 27 de fevereiro de 2026, extinguiu 79% dos cargos do Instituto Adolfo Lutz, que passaram de 2.348 para 497.

Autor: Folha

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