Durante boa parte da infância, Diney Borges viveu em Tarrafal, cidade do norte da ilha de Santiago que tem pouco mais de 6 mil habitantes. Saiu cedo de Cabo Verde para perseguir o sonho de ser jogador em Portugal. Agora, o zagueiro se vê no centro da maior campanha da história do futebol de seu país nesta Copa do Mundo.
Após empatar com a Espanha e arrancar um 2 a 2 diante do Uruguai, Cabo Verde chega à última rodada da fase de grupos da Copa do Mundo com chances reais de classificação para o mata-mata em sua primeira participação no torneio. Para quem acompanha de fora, a trajetória tem sido tratada como uma das grandes histórias da competição. Dentro do elenco, porém, a surpresa é menor.
“Para o grupo, nada disso é uma surpresa. Sempre tivemos bem a noção do nosso real valor. Viemos sabendo que não estávamos no Mundial para passear. É a oportunidade de uma vida e não podemos fazer menos do que dar a vida”, afirmou à Folha.
Com pouco mais de meio milhão de habitantes, o arquipélago africano garantiu vaga pela primeira vez após terminar à frente de Camarões nas Eliminatórias Africanas.
Diney vê as atuações nesta Copa como consequência de uma identidade construída ao longo dos últimos anos.
“Fomos coesos para defender, mas nunca nos escondemos, e fomos ousados para atacar uma das melhores seleções do mundo. Nunca demonstramos medo e fomos fiéis, mais uma vez, a nós mesmos e à nossa filosofia de jogo”, disse.
A próxima partida será contra a Arábia Saudita. Uma vitória pode colocar a seleção africana na fase eliminatória —há chances mesmo com o empate. Apesar do cenário favorável, o discurso permanece cauteloso.
“Não muda nada. A preparação para a partida é a mesma. Sabemos que a responsabilidade é maior, as pessoas esperam grandes coisas de nós, os torcedores já nos acompanham e têm alguma expectativa, mas nós estamos blindados ao ruído externo.”
“Temos um sonho muito grande de nos classificarmos. Sabemos que isso depende de nós, mas não vamos entrar em campo sozinhos”, afirmou.
A campanha também aproximou ainda mais Cabo Verde do público brasileiro. Além da língua portuguesa, os dois países compartilham referências culturais que aparecem no cotidiano do arquipélago. Diney cita Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo entre os jogadores que admira.
“Há uma predominância da cultura brasileira e portuguesa na cabo-verdiana. Pelas músicas, pelas novelas, por algumas expressões, por algumas tendências. Somos povos-irmãos.”
Após o empate contra a Espanha, o goleiro Vozinha se tornou a grande história da Copa, ganhou as redes sociais e hoje já passa dos 15 milhões de seguidores.
“É bom sentir que as nossas partidas estão sendo apreciadas pelos torcedores por todo o mundo. O Vozinha é um grande goleiro, um grande líder e, acima de tudo, uma pessoa que merece tudo o que está acontecendo. Estamos mais focados na nossa seleção do que nas carreiras a nível individual”, pontuou.
Segundo ele, o apoio vindo do Brasil tem sido perceptível ao longo da competição.
“Há uma grande proximidade com o povo brasileiro e temos sentido muito apoio, inclusive de torcedores brasileiros ao longo da competição.”
O zagueiro conta que frequentemente recebe mensagens de brasileiros nas redes sociais.
“Acho muito engraçado porque, às vezes, recebo mensagens privadas e comentários de torcedores dizendo: ‘Vem para o meu clube’. É um orgulho enorme ter esse carinho. Gostaria, um dia, de jogar no futebol brasileiro. Aprecio o campeonato.”
Hoje no Al Bataeh, dos Emirados Árabes Unidos, Diney construiu a maior parte da carreira longe de casa, de onde saiu no início da adolescência. Passou por Portugal e Marrocos antes de chegar ao Oriente Médio. Diz ter aprendido a resiliência nos anos de formação no futebol português, mas guarda um carinho especial pelo período marroquino.
“Em Marrocos foi onde fui mais feliz. Ser campeão, da maneira que fui, é algo inesquecível. Não há palavras para descrever tudo o que vivi.”
Ainda assim, o momento atual parece ocupar um lugar próprio em sua trajetória. Aos 31 anos, ele evita estabelecer limites para o que Cabo Verde pode alcançar.
“Mantenho a mesma postura. Temos de pensar jogo a jogo. Agora temos uma final pela frente diante da Arábia Saudita e é somente nisso que estamos focados”, afirmou. “Mas, de jogo para jogo, temos visto aumentar a responsabilidade. As pessoas estão nos acompanhando, as pessoas querem ver o que vamos fazer a seguir.”
Autor: Folha








.gif)












