Duas pesquisas conduzidas no Instituto Weizmann, em Israel, publicadas na Nature Communications e na Science Advances em 2025, buscaram entender melhor como as diferenças sexuais afetam a reação cerebral a estímulos de dor e estresse. A conclusão é de que a resposta pode estar na maneira como se estabelecem as conexões entre os neurônios.
As análises foram feitas inicialmente no Caenorhabditis elegans, um verme muito usado em pesquisas, e posteriormente em ratos.
Com poucas centenas de neurônios, o Caenorhabditis elegan permitiu avaliar células individuais e identificar como cada uma se comporta em organismos XX (fêmeas) ou XY (machos).
Sabe-se que 80% dos genes humanos são equivalentes aos desses pequenos organismos.
Os achados podem ajudar a entender, por exemplo, como as diferenças sexuais no aspecto hormonal e genético afetam a nossa composição neural.
“Durante décadas, as mulheres foram ignoradas na pesquisa clínica e não entendemos essa variável completamente. Ela não é a única, mas deve ser considerada para corrigir esse viés histórico”, defende a pesquisadora Meital Oren-Suissa, do departamento de Ciências Cerebrais e Neurociência Molecular da instituição, em entrevista exclusiva à Agência Einstein.
O viés científico em prol do sexo masculino é conhecido historicamente.
“As novas pesquisas nos mostram os impactos negativos de ignorar esses dados. Devemos levar mais em consideração a diferença de sexo na questão terapêutica, não para reforçar o estereótipo de ‘masculino é assim e feminino é assado’, mas justamente para melhorar nossa capacidade de atendimento, entendendo as diferenças entre as pessoas de forma mais precisa”, analisa o psiquiatra Saulo Vito Ciasca, do Einstein Hospital Israelita.
Os estudos de Oren-Suissa apontam que essas divergências existem. “Diante das respostas dolorosas, as fêmeas recuam, mas o mesmo estímulo não afetou os machos“, relata.
A hipótese é de que a evolução preservou esse padrão para os machos serem menos sensíveis a certos estímulos e poderem se arriscar mais em busca de parceiras sexuais, enquanto as fêmeas se tornaram cautelosas para proteger os gametas.
“A evolução otimiza características ou para reprodução ou para a sobrevivência, o que pode ter moldado circuitos neurais ao longo de milhões de anos”, afirma a autora. A natureza biológica do comportamento foi observada em conexões artificiais com proteínas ausentes nos machos, tornando-os responsivos a estímulos de dor que antes ignoravam.
Impacto em humanos
As diferenças entre sexos no sistema nervoso não podem ser ignoradas, já que esse fator tem consequências clínicas conhecidas. Sabe-se que, no sexo feminino, há maior probabilidade de desenvolver depressão, ansiedade e transtornos alimentares.
Já no masculino, são mais frequentes autismo, TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade) e esquizofrenia. Contudo, não se deve sobrevalorizar seu papel.
“Não estamos falando de homens e mulheres, mas de uma diversidade de indivíduos atravessada por vários fatores, incluindo o sexo biológico, que está distante de ser binário”, observa Ciasca.
O conceito de mosaico cerebral pode descrever melhor a realidade clínica do que a divisão binária entre cérebro masculino e feminino — que serve para análises populacionais em grande escala, mas não para quadros individuais.
“Não estamos tratando do gênero de indivíduos, mas de órgãos humanos e como eles são afetados por um fator específico. Cada cérebro é diferente e possui uma plasticidade que o permite ser muito adaptável, mas ele é influenciado por diversos fatores, como idade, saúde cardiovascular, nível educacional e histórico de estresse. O sexo biológico é um deles”, analisa Meital Oren-Suissa.
A pesquisadora israelense reforça a importância de não simplificar o debate.
“Falamos sobre diferenças biológicas; o mundo não é binário. Estamos pensando em uma escala genética, não no gênero como construímos”, frisa.
Os próprios vermes avaliados provam isso. “Entre os machos, por exemplo, 90% ignoram a dor, mas os demais respondem a ela. Então temos uma questão relevante de individualidade aqui em campo”, conclui.
Autor: Folha








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