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IA não pensa como cérebro humano, diz especialista – 07/07/2026 – Equilíbrio

Segundo os “padrinhos” da inteligência artificial (IA), a tecnologia já supera os humanos em muitas tarefas. Seria pensar uma delas?

Para o neurofisiologista alemão Wolf Singer, diretor emérito do Instituto Max Planck, cérebro e IA não funcionam segundo a mesma lógica. Enquanto os computadores processam informações em etapas sequenciais, com a memória separada do processador, o cérebro funciona de forma oposta: os neurônios se comunicam entre si em uma dinâmica contínua e em oscilações.

“A IA simula certas funções presentes nos sistemas naturais e contorna a falta da dimensão tempo por meio de algoritmos. Mas nos cérebros isso não é simulado, eles naturalmente vivem no tempo, naturalmente têm dinâmica”, afirma.

Por esse motivo, ele qualifica como um problema o uso desses modelos para tomadas de decisões complexas. Em fevereiro, o jornal americano Wall Street Journal noticiou que o Pentágono –sede oficial do departamento de defesa dos Estados Unidos– teria utilizado a ferramenta da Anthropic, Claude, na captura de Nicolás Maduro na Venezuela.

Ele diz que “quando você começa a fazer perguntas mais sofisticadas, que dizem respeito a valores, fica problemático”, e que é preciso ter conhecimento especializado para usá-los de forma responsável.

No entanto, ele diz que já existem pessoas trabalhando para que modelos de linguagem artificiais se aproximem do funcionamento cerebral humano.

Em maio deste ano, Singer veio ao Brasil para uma agenda de cooperação científica com instituições brasileiras, em uma visita que incluiu passagens por laboratórios e projetos do IDOR Ciência Pioneira.

A interlocução com pesquisadores brasileiros faz parte de um esforço para ampliar estudos sobre o cérebro em condições naturais e translacionais. É um campo no qual ele vê espaço tanto para a neurociência básica quanto para aplicações futuras.

Estamos vivendo um boom da IA, uma pandemia de ansiedade e um envelhecimento rápido da população. Por décadas você argumentou que o cérebro não é um computador de bytes, mas uma rede de ondas. O que estamos entendendo errado sobre o cérebro neste momento da história?

Como neurobiólogo, só posso enfatizar a diferença entre os sistemas de IA atuais e o cérebro natural. O consumo de energia do nosso cérebro é o equivalente a uma lâmpada fraca, enquanto esses supercomputadores consomem quantidades horrendas de eletricidade. Isso já aponta para uma diferença importante.

E há outra diferença mais essencial, que é a arquitetura. Os computadores processam informação em etapas sequenciais, incapazes de usar o tempo como forma de registrar informação. As tentativas de corrigir isso, como os modelos transformer, são formas de contrabandear o tempo para dentro de sistemas que, por natureza, carecem dele.

O cérebro funciona de forma oposta: os neurônios se comunicam de volta entre si, em camadas, produzindo uma dinâmica contínua e oscilações. É sabido há muito tempo, desde que as pessoas começaram a registrar EEG [eletroencefalograma], que o cérebro oscila. E a questão de longa data permanece: essas oscilações têm função computacional real, ou são apenas um subproduto das interações num sistema tão complexo?

Então, esse discurso que as empresas vêm fazendo de que a IA já consegue pensar e funcionar como um cérebro, o senhor não concorda com isso?

Não concordo de forma alguma. A IA simula certas funções presentes nos sistemas naturais e contorna a falta da dimensão tempo por meio de algoritmos. Mas nos cérebros isso não é simulado, eles naturalmente vivem no tempo, naturalmente têm dinâmica. E uma vez que você dota os nós de uma rede com a capacidade de oscilar, você obtém uma dinâmica completamente nova, extremamente poderosa.

A IA pode algum dia chegar perto de como o cérebro humano funciona?

Bem, existe um movimento nessa direção. Ainda é minoritário, mas acho que vai dominar em breve.

Pense num lago no qual você joga pedras em diferentes lugares, em diferentes momentos, de diferentes tamanhos. Cada impacto gera uma oscilação local que se espalha como uma onda. Depois de um tempo, todas essas ondas começam a interferir umas com as outras e o resultado desse padrão de interferência é que você consegue reconstruir, um por um, a sequência de eventos, mantendo a ordem em que aconteceram. O que descrevi até aqui é computação analógica, diferente da digital.

Nos cérebros, esse processo é genuinamente analógico, não há separação entre memória e substrato de computação, e as conexões dessa rede são adaptativas, mudam com a experiência. Existe uma regra simples que governa isso: neurônios que disparam juntos, se conectam juntos. Se dois neurônios foram ativados em sincronia repetidas vezes no passado, eles fortalecem a conexão entre si. É assim que a rede aprende, armazenando, na própria estrutura, informação sobre as estatísticas do mundo em que existe.

Então, sim, as pessoas estão começando a ver as vantagens disso. Porque é eficiente em energia, porque a computação ocorre na própria memória, porque você tem dinâmica natural e o tempo disponível como forma de registrar informação. Essas redes gostam de séries temporais, de informação que chega em sequência. Sinto que vai haver uma mudança de paradigma, e ela já está começando.

Temos visto que algumas empresas e até governos estão testando esses algoritmos para apoiar decisões em guerras, no sistema de justiça criminal e até em análise de crédito. Quais são os principais riscos de delegar esse tipo de julgamento a sistemas que não têm a mesma dinâmica do cérebro humano?

Todos esses modelos de linguagem de grande escala dizem, quando você pergunta algo, que podem cometer erros, e não conseguem te dar uma quantificação da confiabilidade do que dizem. E isso é, claro, um grande problema. Os cérebros têm sistemas embutidos que dizem a eles: agora você chegou ao resultado. Este é o momento “eureka”. Ainda pode estar errado, mas eles têm pelo menos uma forma de avaliar e validar as soluções às quais chegam. Esse é um problema com esses sistemas artificiais.

Nas mãos de especialistas são muito úteis porque apresentam sugestões, hipóteses que você talvez não tenha considerado. Eles têm um acesso enorme a dados que você não consegue manter no seu próprio cérebro. Mas quando você começa a fazer perguntas mais sofisticadas, perguntas que são discutidas por filósofos, perguntas que dizem respeito a valores, fica problemático. Você precisa ter conhecimento especializado para usá-los de forma responsável. E se você não sabe como esses sistemas funcionam e quais são as armadilhas, o perigo é que você fique preso em um ciclo de retroalimentação.

Estou entendendo que nosso cérebro está em completa dissonância com a forma como o sistema digital funciona. Essa relação que estamos tendo com o digital pode impactar como nosso cérebro funciona de alguma forma?

Sim, e é óbvio que isso vai mudar nossos sistemas educacionais e também a forma como gerenciamos os recursos limitados do nosso cérebro. Quando você usa o celular para fazer cálculos, não precisa mais calcular de cabeça. Você delega. Economiza tempo, é mais preciso —e por que não? Mas isso reduz o treinamento dessas capacidades no seu próprio cérebro.

Pegue os sistemas de GPS. Como você não precisa mais ler mapas, apenas seguir uma voz que manda virar à direita ou à esquerda, você deixa de treinar a capacidade de construir mapas espaciais para encontrar seu caminho. O mesmo vai acontecer com outras tarefas que você delega a essas máquinas. Você não precisa mais armazenar detalhes de conhecimento histórico porque leva um segundo para encontrá-los. Esperançosamente corretos, mas é preciso ter cuidado.

RAIO X | WOLF SINGER, 83

Neurofisiologista alemão, Wolf Singer é diretor emérito do Instituto Max Planck para Pesquisa do Cérebro e diretor fundador do Instituto de Estudos Avançados de Frankfurt e do Instituto Ernst Strüngmann (ESI) para Neurociência. Seus estudos buscam decifrar como o cérebro coordena subprocessos distribuídos para gerar percepção e ação coerentes, além de entender os processos neuronais que fundamentam as funções cognitivas superiores e como eles se deterioram em doenças. Recebeu prêmios de prestígio internacional, como o Ernst Jung de Ciência e Pesquisa, o Körber para Ciências Europeias, o Max Planck de Ciência Pública e a Medalha da Cidade de Paris.

Autor: Folha

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