No extremo sul do Rio Grande do Sul, bastam alguns passos para sair do Brasil e entrar no Uruguai. Chuí e a irmã uruguaia Chuy dividem a mesma avenida, sem muro, cancela ou posto de imigração. A fronteira viva serve como ponto de encontro.
Por cortesia mútua, o lado brasileiro batizou a via de Avenida Uruguai, e o uruguaio, de Avenida Brasil. No comércio local, clientes alternam entre português, espanhol, árabe e portunhol, e pagam em reais, pesos ou dólares — rotina que movimenta free shops, supermercados e a economia da região.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a linha entre Brasil e Uruguai se estende por 1.069 quilômetros, do extremo oeste gaúcho até a foz do Arroio Chuí, no Oceano Atlântico. O trecho urbano do Chuí representa o único pedaço sem ponte, rio ou guarita para separar os dois lados.
A peculiaridade rende uma das fotos mais procuradas por turistas, segundo a prefeitura de Chuí. O visitante posa com um pé em cada território, para registrar a travessia livre entre as duas nações e experiência de estar no Brasil e no Uruguai ao mesmo tempo.
Essa especificidade urbana e cultural é vista pela administração municipal como o maior símbolo de união na fronteira. “Essa inversão nos nomes das avenidas reflete a alma da nossa gente: a hospitalidade”, afirma o secretário de Indústria e Comércio de Chuí, Frank Assis Silveira Sena.
Em tempos de Copa do Mundo, os vizinhos alternam as torcidas e se juntam para os jogos. “Quando Uruguai joga, torcemos com os uruguaios. Quando Brasil joga, eles torcem com os brasileiros. Mas quando os dois países se enfrentam, nos reunimos e torcemos todos juntos”, diz o secretário.
VEJA TAMBÉM:
-

A fazenda brasileira que produz o azeite mais premiado do mundo
Quatro idiomas e três moedas movimentam a fronteira
O cotidiano da fronteira exibe uma mistura sonora. Português e espanhol convivem nas ruas. Entre ambos surge naturalmente o portunhol, língua híbrida do contato diário entre os dois povos.
Um quarto idioma tem origem mais distante. Desde meados do século XX, uma comunidade de descendentes de palestinos habita a faixa de fronteira gaúcha e introduz o árabe nas mesmas esquinas.
O dinheiro circula em três versões. As lojas aceitam real, peso uruguaio e dólar. A economia da cidade gira justamente em torno dessa dinâmica fronteiriça.
Para Mohamed Kassem Jomaa, comerciante local, a realidade da fronteira não é apenas uma curiosidade turística, é rotina do seu negócio. “Aqui na avenida, a gente não precisa de passaporte, precisa é de uma calculadora rápida. No balcão, o cliente fala espanhol, português, árabe e portunhol. Ele paga em reais, em pesos, em dólar”.
Jomaa chegou no Chuí com oito anos, em 1968. A família de comerciantes árabe vinha de São Paulo. Hoje cada um dos familiares trabalha em um ramo de comércio, de farmácia a restaurante.
“O churrasco aqui é famoso. Uma mistura das técnicas gaúchas, dos uruguaios e dos temperos árabes”, explica.
O comerciante explica que os free shops ocupam o lado uruguaio, na Avenida Brasil. “É em um corredor que atravessa o centro de Chuy”, aponta. Os estabelecimentos vendem perfumes, bebidas, eletrônicos e importados.
Brasileiros possuem cota de compras de US$ 500 a cada 30 dias, conforme determinação da Receita Federal. Do outro lado, o movimento se inverte. Uruguaios cruzam a avenida e buscam alimentos e roupas mais baratas nos supermercados brasileiros.
VEJA TAMBÉM:
-

Casas de praia de luxo em Balneário Camboriú consolidam status de Hamptons brasileiro
Paisagens do extremo Sul oferecem turismo além da linha de fronteira
A cerca de 520 quilômetros de Porto Alegre, o município de Chuí abriga aproximadamente 6,3 mil, de acordo com o IBGE. Além do marco entre as nações, a região oferece outros atrativos para turismo. De acordo com a prefeitura de Chuí, as paisagens do extremo sul reúnem dunas, faróis e natureza preservada a poucos minutos do centro.
- Barra do Chuí: balneário de dunas e mar aberto, perto da foz do Arroio Chuí, o ponto mais ao sul do país.
- Farol da Barra do Chuí: construção histórica do início do século XX, com vista para o Atlântico.
- Parque Nacional da Lagoa do Peixe: santuário ecológico na região, famoso pela observação de aves migratórias que cruzam o continente.
Autor: Gazeta do Povo








.gif)












