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A censura nas redes está transformando a guerra cultural

A guerra cultural brasileira, que nos acostumamos a assistir (e viver) como um embate ruidoso e quase espontâneo de narrativas morais e estéticas nas praças públicas digitais, vem mudando de patamar e de natureza.

Quem está acompanhando o desfecho do julgamento do Marco Civil da Internet no Supremo Tribunal Federal, em simbiose com a nada sutil ofensiva regulatória do Poder Executivo, percebe que estamos indo muito além de um rearranjo jurídico.

Está se lavrando a certidão de óbito de uma era.

Um breve histórico

Para entender o presente e tentar vislumbrar o futuro, é preciso antes conhecer melhor o passado.

O conceito de Kulturkampf — a luta cultural — ganhou corpo no século XIX com a tentativa de Bismarck, o famoso “chanceler de ferro” alemão, de submeter a Igreja Católica ao controle do Estado prussiano, uma investida que usava a burocracia para asfixiar a dissidência espiritual.

Quase um século depois, nos anos 1990, o sociólogo americano James Davison Hunter resgatou e americanizou o termo para descrever as fraturas morais que dividiam o seu país em temas como aborto e educação.

Com a internet e, mais especificamente, com as redes sociais no século XXI, uma mudança crucial ocorreu. Pela primeira vez, a velha mídia e o establishment intelectual perderam o monopólio da narrativa. A princípio, houve um entusiasmo ingênuo de quem enxergava nisso a democratização real do debate público, ainda que ao custo de a guerra cultural contaminar tudo e a todos.

Mas o sonho de verão libertário, uma aparente quebra de hegemonia que parecia descentralizar o poder cultural de forma irreversível, não durou muito. O momento em que o topo político e burocrático percebeu que havia perdido o controle do fluxo de informações foi também o instante em que a contraofensiva começou a ser desenhada.

Sob o pretexto virtuoso de combater a desinformação e proteger as instituições dos excessos desse novo mundo, iniciou-se um movimento de reação que gerou verdadeiros fiscais de alfândega do pensamento. O debate tosco foi substituído pelo policiamento moral feito por algoritmos e “idiotas denunciantes úteis”.

O que antes funcionava, por ser livre, como uma arena caótica de persuasão, degenerou em um tribunal permanente de denuncismo. Não se busca mais convencer ninguém, mas carimbar no adversário o rótulo que o tornará um pária digital.

Criou-se uma engrenagem na qual o cidadão comum, apavorado pela possibilidade de ver sua reputação ou sustento triturados por um deslize interpretativo, prefere o recolhimento. É o triunfo da espiral do silêncio com roupagem tecnológica.

O presente é dark social

Neste cenário, a quantas anda a guerra cultural?

Se o diagnóstico depender das aparências oficiais, parece caminhar para uma calmaria burocrática, domesticada pela engenharia estatal que se iniciou no continente europeu por meio de legislações como a NetzDG alemã e o Digital Services Act da União Europeia, precursores universais da terceirização do arbítrio que o STF implantará no Brasil, obrigando as plataformas a censurarem antes e perguntar depois.

Ou seja, a guerra cultural vem sendo estatizada e convertida em ferramenta de gestão política. Mas esse policiamento institucionalizado produziu uma ilusão de ótica. Ao olharem para as grandes plataformas e enxergarem um ambiente potencialmente pacificado pela censura, higienizado pelos filtros de moderação e pelo medo generalizado do cancelamento, os burocratas enxergam a vitória da suposta civilidade sobre o caos.

Entretanto, por trás da fachada de um debate público artificialmente higienizado e vigiado, o que vai se cultivando é um estado crônico de exaustão democrática e indiferença cínica. Sentindo-se vigiado, o “internauta” vem intensificando uma verdadeira diáspora digital. O êxodo em massa das redes abertas para ecossistemas fechados de canais de transmissão e grupos restritos é um fenômeno demonstrável e não é marginal.

O Telegram, por exemplo, mais do que duplicou seu número de usuários entre 2020 e atualmente, passando de 200 milhões para 1 bilhão. O WhatsApp, por sua vez, é hoje habitado por mais de 3,3 bilhões de pessoas, sendo 148 milhões no Brasil. Ambos se tornaram centrais de distribuição política invisível, onde, só no WhatsApp, mais de 1,5 bilhão de usuários utilizam diariamente grupos e abas privadas de canais para se informar.

Em outras palavras: longe dos olhos dos algoritmos censores e dos denunciantes de plantão, o usuário constrói suas próprias realidades paralelas no que está sendo chamado de dark social.

O resultado prático, portanto, de ações como as tomadas pelo STF no âmbito do chamado inquérito das fake news ou na atual decisão sobre o Marco Civil da Internet, não será a moderação que os engenheiros sociais travestidos de ministros pretendem implantar, mas a fragmentação absoluta da sociedade em bolhas intransponíveis, onde o ódio não se dissipa, apenas se acumula em silêncio ressentido.

Ao transformar a dissidência legítima em ameaça e o debate livre em risco civil, os arquitetos do “novo normal” podem até conseguir silenciar a praça pública digital, mas o preço cobrado pelo monitoramento constante das consciências custará muito mais caro do que a farsa de uma paz social inexistente.

Se a guerra cultural de meados da década passada pecou pelo excesso de ruído e pela ilusão de que as redes salvariam a democracia, o cenário atual prenuncia um futuro sombrio. Como imaginar diferente diante de uma sociedade dividida e descrente (os índices de abstenção eleitoral vêm crescendo eleição a eleição), perigosamente indiferente ao destino da própria liberdade e cultivando ressentimentos?

De volta para o passado

Voltemos ao chanceler de ferro prussiano. Durante anos, padres foram presos, seminários fechados, bispos exilados. A máquina burocrática parecia ter domado a dissidência. Bismarck acreditava ter vencido sua Kulturkampf.

Não tinha. A Igreja resistiu no silêncio das paróquias e nas consciências que nenhum decreto alcança. Em quatro anos, os católicos alemães, longe de se dissolverem, dobraram sua bancada parlamentar, obrigando o chanceler de ferro a recuar humilhado, forçado a buscar aliança com os mesmos que tentara esmagar.

Há algumas lições aí, tanto para os arquitetos do novo normal brasileiro quanto para os que resistem ao arbítrio. Uma delas: censurar o debate público e controlar o que as pessoas pensam são duas coisas inteiramente diferentes. Outra: Bismarck não perdeu o Kulturkampf para quem gritava. Perdeu para quem ficou quieto. E não desistiu. 

Autor: Gazeta do Povo

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