A frase é repetida à exaustão: ninguém é perfeito. Mas isso não nos impede de, no dia a dia, buscar um ideal inalcançável em vários âmbitos da nossa vida.
Querer brilhar e se empenhar para isso não tem nada de errado, claro. Porém, o esforço constante de superação pode trazer frustração e, em casos extremos, surtir o efeito contrário, paralisante. Um exemplo clássico: abandonar um projeto por nunca achar que sua ideia é suficientemente boa.
O novo perfeccionismo
Segundo escreveu o psicanalista e professor da Universidade de Londres Josh Cohen em um artigo publicado na revista britânica The Economist, o perfeccionismo é um elemento persistente e profundamente enraizado da condição humana, aparecendo inclusive em várias religiões. No entanto, nos últimos anos, diversos fatores fizeram com que a busca por um padrão inatingível ocupasse um espaço ainda mais amplo.
Em um estudo publicado pela American Psychological Association, os psicólogos Thomas Curran e Andrew Hill atribuíram o aumento exponencial do perfeccionismo entre a geração mais jovem aos “parâmetros sociais e econômicos cada vez mais exigentes”.
De fato, em um mercado de trabalho saturado como o atual, existe a sensação de que é preciso cada vez mais esforço para se destacar entre os outros concorrentes e, assim, conseguir uma boa carreira profissional, um lugar para viver e outras metas.
No livro “A Tirania do Mérito”, o filósofo Michael J. Sandel argumenta que o capitalismo meritocrático — sociedade na qual se acredita que o critério para a distribuição de recursos é a aptidão individual— criou um estado permanente de competição que corrói a solidariedade e a noção de bem comum. Segundo ele, esse sistema sustenta uma ordem de vencedores e perdedores, gerando arrogância e autocongratulação entre os primeiros e uma autoestima cronicamente baixa entre os demais.
Feed perfeito, vida perfeita
As redes sociais, ambiente em que a maioria das pessoas se sentem pressionadas a construir uma imagem pública perfeita, também são grandes potencializadoras desse perfeccionismo excessivo e sentimento de insatisfação com o que se tem e o que se é. A promoção que aquele amigo da faculdade conseguiu recentemente, o apartamento que o primo comprou, o corpo perfeito daquela influencer.
Acompanhamos de “perto” essas conquistas que facilmente se tornam parâmetros e, se não são atingidos, trazem sentimentos de inveja, inadequação e vergonha. E tudo fica ainda mais confuso quando a “autenticidade” também aparece como um bem desejado. Décadas atrás, o perfeccionista estava sob pressão para se parecer com todo mundo enquanto, hoje, sente-se na obrigação de se diferenciar para conquistar uma posição segura na economia da atenção.
Existe um perfeccionismo saudável?
Clinicamente, o perfeccionismo é escorregadio. Dependendo da pessoa e de suas vulnerabilidades, o esforço excessivo para atingir a perfeição pode desembocar em vários sintomas: de depressão e ansiedade a transtornos alimentares. Talvez, por isso, nunca tenha sido classificado como um transtorno em si, mas como um traço de personalidade associado a comportamentos compulsivos.
Também existe a discussão sobre se o perfeccionismo pode não ser patológico e, consequentemente, usado de forma positiva. Em 1978, D. E. Hamachek, um psicólogo americano, separou o perfeccionismo entre “normal” e neurótico. Para ele, o primeiro poderia estabelecer altos padrões a si sem cair na autocrítica punitiva. No entanto, a maioria dos pesquisadores questiona a distinção, argumentando que o desejo intenso de ser perfeito nunca pode ser “normal”, já que é impossível de ser atingido.
Talvez o grande desafio seja como tentar ser uma pessoa melhor deixando para trás a ideia de que, um dia, o pedestal mais alto será alcançado. Afinal, como disse a psicoterapeuta Moya Sarner, “se você está sempre tentando fazer da sua vida o que você quer que seja, não está realmente vivendo a vida que tem”. Em vez de ficar aprimorando infinitamente aquele projeto, e se você o colocasse em prática agora, da melhor forma possível?
Autor: Folha








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