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Comércio de animais impulsiona propagação de doenças – 22/04/2026 – Ciência

O comércio global de animais silvestres está impulsionando a disseminação de doenças de animais para pessoas, de acordo com um novo estudo. O trabalho baseia-se na análise de milhares de espécies de mamíferos selvagens e em 40 anos de registros de comércio internacional.

Espécies que foram vendidas no mercado internacional de animais silvestres, que inclui tanto animais vivos quanto produtos de origem animal, tinham 50% mais probabilidade de compartilhar patógenos com humanos do que espécies que não foram comercializadas, segundo os cientistas. E quanto mais tempo uma espécie fazia parte do comércio global de animais silvestres, mais patógenos ela compartilhava.

A disseminação de doenças zoonóticas, ou seja, aquelas que podem passar de animais para humanos, é uma parte inerente do comércio global de animais silvestres, concluíram os pesquisadores. Mas mercados de animais vivos e o comércio ilegal de animais silvestres parecem amplificar esses riscos, de acordo com o estudo, publicado no dia 9 deste mês na revista Science.

“Não existe comércio seguro”, disse o ecologista Jerome Gippet, da Universidade de Fribourg (Suíça), um dos autores do estudo. “Enquanto continuarmos comercializando espécies, estaremos expostos a esse problema.”

O comércio global de animais silvestres é uma indústria gigantesca, que abrange a venda de carne, peles, animais de estimação exóticos e animais de laboratório. Ele também oferece oportunidades para que diversos patógenos animais —entre os quais Ebola, mpox e outros— saltem para humanos, um processo conhecido como “spillover” (transbordamento zoonótico).

Diversos surtos em humanos foram associados ao comércio de animais silvestres, e evidências sugerem que o vírus causador da Covid-19 pode ter saltado pela primeira vez para humanos em um mercado de animais vivos em Wuhan, na China.

“Temos muitos estudos de caso”, afirmou o biólogo Colin Carlson, da Universidade Yale (EUA), coautor do estudo. “Mas temos uma base de evidências muito fraca sobre o que o comércio de animais silvestres está realmente causando.”

No estudo, os pesquisadores consultaram vários grandes bancos de dados globais com registros sobre importações legais de animais e apreensões de animais comercializados ilegalmente para determinar quais espécies de mamíferos selvagens estavam incluídas no comércio global de animais silvestres. Eles identificaram mais de 2.000 espécies, aproximadamente um quarto das espécies de mamíferos do planeta.

Em seguida, os cientistas recorreram a um banco de dados que cataloga patógenos animais e as espécies que os hospedam. Eles descobriram que 41% das espécies de mamíferos envolvidas no comércio de animais silvestres hospedavam pelo menos um patógeno que também era conhecido por infectar humanos. Em contraste, apenas 6% das espécies que não haviam sido comercializadas compartilhavam algum patógeno com humanos.

Após controlar alguns fatores —como a extensão com que diferentes espécies haviam sido estudadas—, os cientistas concluíram que espécies comercializadas tinham uma probabilidade maior de abrigar patógenos zoonóticos do que aquelas que não eram compradas e vendidas.

Para um subconjunto de espécies, eles também contaram o número total de anos, de 1980 a 2019, em que o comércio havia sido registrado. Para cada dez anos que uma espécie passou sendo comercializada, ela compartilhou um patógeno adicional com os humanos.

Em alguns casos, as pessoas podem estar transmitindo seus patógenos para animais selvagens. Os humanos transmitiram repetidamente a Covid-19 para cervos selvagens, por exemplo.

Porém, considerando quantas espécies são comercializadas e quantos patógenos elas carregam, os cientistas suspeitam que as doenças estão se espalhando principalmente de animais para humanos. Em muitos casos, esses animais podem ter carregado patógenos que já eram capazes de infectar pessoas; o comércio global de animais silvestres apenas lhes deu a oportunidade de fazer isso.

“Quanto mais espécies são comercializadas, mais oportunidades elas terão de transmitir patógenos aos humanos”, disse Gippet.

Em outros casos, patógenos animais podem evoluir para ameaças à saúde humana apenas por causa do comércio de animais silvestres, segundo Carlson. Em mercados de animais vivos, por exemplo, patógenos podem saltar entre espécies animais, adaptando-se de maneiras que os ajudam a infectar novos hospedeiros.

“O que você tem são trampolins, onde os vírus estão evoluindo nesses mercados”, afirmou Carlson. “Talvez eles estejam conseguindo se adaptar aos humanos pela primeira vez.”

Os pesquisadores também descobriram que espécies comercializadas em mercados de animais vivos compartilhavam mais patógenos com humanos do que aquelas que não eram. Algumas evidências sugeriam que o mesmo era verdade para espécies comercializadas por canais ilegais, onde os animais podem viver em condições mais insalubres e nunca receber inspeções veterinárias.

“Os autores do estudo demonstram por meio de dados o que há muito suspeitávamos ser verdade: o uso e a exploração de animais silvestres pelos humanos aumentam os riscos de transbordamento”, disse Ann Linder, diretora-associada do programa de direito e política animal da Faculdade de Direito de Harvard, que não participou da nova pesquisa. “Animais silvestres, deixados em paz em ecossistemas intactos, representam muito pouco risco de transmitir doenças zoonóticas para as pessoas.”

Ainda assim, Linder afirmou ser surpreendente que os pesquisadores tenham conseguido documentar uma ligação tão forte com o comércio de animais silvestres, dado que os dados sobre a venda de animais selvagens têm sido notoriamente escassos e incompletos.

“Realmente não conseguimos falar com certeza sobre o tamanho e a escala do comércio em si”, disse ela. “Precisamos de mais estudos como esse, mas, talvez de forma mais fundamental, precisamos de mais e melhores dados para ao menos começar a entender nosso próprio risco.”

Autor: Folha

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