Como fazer países que se odeiam, ou que estão em guerra aberta, jogarem futebol? Essa pergunta foi lançada à Fifa (Federação Internacional de Futebol), a entidade que governa o esporte, quando os Estados Unidos e Israel iniciaram uma guerra contra o Irã.
Por semanas, parecia improvável que a seleção iraniana viajaria aos Estados Unidos. O presidente Donald Trump disse em março que, embora os jogadores iranianos fossem bem-vindos para competir, ele não achava que deveriam “pela própria vida e segurança deles”.
Após meses de incerteza que incluíram atrasos de visto e a mudança de sua base do Arizona para Tijuana, no México, o Irã finalmente começou sua campanha na Copa do Mundo no torneio na segunda-feira (15) — apenas um dia depois de Trump anunciar um acordo preliminar para encerrar a guerra.
Esta está longe de ser a primeira Copa do Mundo a lidar com as consequências de guerras. Os torneios de 1942 e 1946 sequer foram realizados por causa da Segunda Guerra Mundial. Veja algumas das outras edições que foram assombradas por conflitos:
A ‘GUERRA DO FUTEBOL’ (1969)
A relação entre Honduras e El Salvador vinha se deteriorando há muito tempo por uma série de razões, incluindo disputas de fronteira. Então, em 1969, os vizinhos americanos se viram frente a frente nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1970.
Honduras venceu o primeiro jogo, em casa, e El Salvador o segundo. Houve tumultos após ambas as partidas. Na esperança de evitar mais agitação, os organizadores transferiram a decisiva terceira partida para o México, um local neutro.
No dia dessa partida, El Salvador rompeu relações diplomáticas com Honduras, que fez o mesmo no dia seguinte. El Salvador venceu por 3 a 2 e acabou chegando à Copa do Mundo.
Em poucas semanas, os dois países estavam em guerra. Os combates duraram pouco mais de quatro dias, e mais de mil pessoas, a maioria civis, foram mortas. Embora o esporte tivesse pouco a ver com o conflito, a agitação em torno das eliminatórias da Copa do Mundo levou muitos a chamá-lo de Guerra do Futebol.
Mauricio “Pipo” Rodríguez, que marcou o gol da vitória de El Salvador na terceira partida das eliminatórias, disse em uma entrevista à BBC em 2019 que o futebol não foi o gatilho. “A guerra teria acontecido com ou sem aquele gol”, afirmou.
A GUERRA DAS MALVINAS (1982)
A Copa do Mundo de 1982 contou com três nações do Reino Unido —Inglaterra, Escócia e Irlanda do Norte — além da Argentina. Pouco mais de dois meses antes do início previsto do torneio, uma disputa de longa data sobre as Ilhas Malvinas no Atlântico Sul explodiu em uma guerra mortal entre a Grã-Bretanha e a Argentina.
Tamanha era a raiva contra a Argentina que o ministro dos Esportes britânico, Neil Macfarlane, pediu o cancelamento de todos os contatos esportivos com o país. Ainda havia a possibilidade de equipes do Reino Unido enfrentarem a Argentina na Copa do Mundo, e um comitê do governo britânico considerou se deveria se retirar do torneio.
Macfarlane disse à primeira-ministra Margaret Thatcher que alguns jogadores sentiam “repulsa” com a ideia de jogar no mesmo torneio que a Argentina, de acordo com documentos do governo divulgados décadas depois e reportados pela BBC.
A Copa do Mundo começou sem que nenhuma seleção se retirasse. Na abertura, os torcedores argentinos jogaram milhares de pedaços de papel no estádio dizendo que as Malvinas pertenciam à Argentina. Mas, assim como as tensões antes da Copa do Mundo de 2026, houve um avanço justamente quando o torneio começou: a Grã-Bretanha anunciou a rendição das forças argentinas nas Malvinas em 14 de junho.
A hostilidade voltou a borbulhar quatro anos depois, na Copa do Mundo de 1986, que a Argentina venceu —liderada pelo astro Diego Maradona. No caminho até o título, a Argentina derrotou a Inglaterra nas quartas de final.
“Claro, antes da partida, dizíamos que o futebol não tinha nada a ver com a Guerra das Malvinas, mas sabíamos que muitos garotos argentinos tinham morrido lá, abatidos como passarinhos”, escreveu Maradona em sua autobiografia. “Isso foi uma vingança.”
CONFRONTO EUA-IRÃ (1998)
As tensões políticas em torno do Irã neste ano têm ecos da Copa do Mundo de 1998, onde o país competiu no mesmo grupo que os Estados Unidos.
Os países romperam relações diplomáticas após a Revolução Islâmica do Irã em 1979. E nos anos 1990, o sentimento antiamericano havia crescido no Irã depois que o governo dos EUA impôs sanções, acusando-o de patrocinar grupos terroristas e buscar armas nucleares.
Na partida entre EUA e Irã em Lyon, na França, ativistas contrários ao governo iraniano organizaram um protesto com faixas e camisetas de um grupo de oposição —exatamente como os organizadores do torneio temiam que fizessem.
Mas a partida em si foi disputada em clima amistoso. Os jogadores americanos e iranianos apertaram as mãos antes do jogo e posaram juntos para fotos. A seleção iraniana também entregou aos americanos flores brancas, símbolos de paz.
O Irã venceu por 2 a 1 naquele dia, provocando celebrações alegres em seu país. Milhares foram às ruas em Teerã, e o governo enquadrou a vitória como um triunfo sobre um dos maiores inimigos do Irã.
“Esta noite, mais uma vez, o oponente forte e arrogante sentiu o gosto amargo da derrota em suas mãos”, disse o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, em um comunicado na televisão estatal. Khamenei foi morto em 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra entre EUA e Israel.
Autor: Folha








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