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A ignorância das grandes incertezas da vida – 11/06/2026 – Suzana Herculano-Houzel

A eletricidade acabou aos 33 minutos depois do meio-dia. Devido a uma sequência de acontecimentos improváveis que causaram o colapso da rede elétrica, Portugal e Espanha passaram cinco horas completamente no escuro no dia 28 de abril de 2025, e quase 24 horas até retornar à normalidade. Geradores entraram em ação pelos dois países, mas, quando precisaram de mais combustível, não havia como fazê-lo chegar porque encher caminhões-tanque requer… eletricidade. Portugal e Espanha, como praticamente todo o resto do mundo, não estavam preparados para a eventualidade.

Nossa própria pequena grande incerteza aconteceu esta semana. Estamos em Praia, Cabo Verde, um colega português e eu, mais meu fiel escudeiro-marido, para um curso de nivelamento para a pós-graduação que o Instituto Gulbenkian organizou para jovens de países de língua portuguesa. Nossos aposentos são em um pequeno edifício de dez suítes dentro da Embaixada de Portugal, muito mais simples do que minha imaginação supôs ao saber onde ficaríamos hospedados, mas corretos.

Até que, já na terça-feira, a água do nosso edifício acabou. Teria sido fácil nos prepararmos para a eventualidade com galões e baldes, mas chegamos aqui trazendo nossas certezas europeias e estadunidenses que incorporam o fluxo de água nos canos e torneiras como um fato garantido da vida, quando a realidade da ilha, na costa oeste do Senegal, é seca.

Gostamos das pequenas incertezas, como disse aqui semana passada, mas as grandes incertezas da vida –a possibilidade do fim da eletricidade e da água, a incerteza da data do fim da nossa vida– são tão angustiantes que o cérebro as ignora. De certa forma, que bom. Quantos de nós sequer tentaríamos sair para enfrentar o dia se todo mundo se lembrasse o tempo todo de que vai morrer mais cedo ou mais tarde, ou que água, comida e eletricidade na verdade não são garantidas?

O cérebro humano, com o maior número de neurônios pré-frontais dentre os animais, tem perfeita capacidade de pensar no futuro e agir de acordo, mas vivemos quase todos, quase sempre, na alegria da ignorância. Frente às grandes incertezas, o cérebro fica em tal estado de tensão e paralisia que logo sacudimos a cabeça, chacoalhamos os pensamentos sombrios para longe e voltamos para as pequenas incertezas do presente, que nos mantêm operantes.

Operantes, mas burros –ao menos pela minha definição de inteligência, que é flexibilidade. A perda de luz ou água ou vida dos outros deveria ser oportunidade para nos darmos conta da necessidade de sempre ter contingências preparadas para as incertezas de grandes consequências. Mas, com a evidência de que sobrevivemos (desta vez), logo esquecemos e voltamos à alegria da ignorância.

Donde a necessidade de haver pessoas nos governos cuja função é se preocupar e não nos permitir jogar roleta russa com consequências catastróficas, como usinas nucleares. Que, aliás, também se desligaram no fatídico dia 28 de abril, pois, ironia das ironias, faz parte do seu protocolo de segurança não operar sem energia externa.

Quando a chance de dar errado é pequena, o cérebro se concentra nos ganhos imediatos e acha que quaisquer problemas serão dos outros. Mas é nossa escolha se lembrar do que, quando der errado, dará MUITO errado de uma vez só.


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Autor: Folha

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