Uma das primeiras figuras femininas a ganhar projeção dentro do universo ainda majoritariamente masculino do futebol brasileiro, a ex-assistente de arbitragem Ana Paula Oliveira avalia que o preconceito contra o trabalho das mulheres no meio esportivo diminuiu.
Aposentada precocemente dos gramados em 2008, aos 30 anos, ela continuou atuante no futebol fora de campo, no comando da comissão de arbitragem da FPF (Federação Paulista de Futebol) e na formação de novos árbitros na CBF (Confederação Brasileira de Futebol).
Embora reconheça que ainda seja relativamente comum a ocorrência de manifestações de natureza misógina e machista dentro de campo, Ana Paula disse que, diferentemente de sua época, hoje elas geralmente são seguidas de duras críticas e coibidas pela maior parte da opinião pública.
Ela se lembrou de polêmica na qual acabou envolvida em 2007, após ter anulado dois gols do Botafogo em duelo com o Figueirense pelas semifinais da Copa do Brasil. O alvinegro venceu por 3 a 1, mas foi eliminado por ter perdido o primeiro jogo por 2 a 0 —ainda havia a vantagem ao time que marcasse mais na casa do adversário.
Na ocasião, o vice-presidente do Botafogo, Carlos Augusto Montenegro, fez duras críticas —de caráter sexista— ao trabalho da bandeirinha.
“Ela é totalmente despreparada. Errou dois lances seguidos. Não vejo mulher em Copa do Mundo, na final da Liga dos Campeões, nem nas decisões mais importantes do mundo, mas colocaram uma mulher hoje, justo contra o Botafogo”, afirmou na ocasião.
Ana Paula dissse ter sentido o baque pela série de reações negativas que se seguiu às falas do dirigente.
“Na época, fui afastada do jogo seguinte para o qual estava escalada, pelo Campeonato Brasileiro. Fiquei afastada por um período, perdi o escudo da Fifa [Federação Internacional de Futebol]. E não houve nota de repúdio de nenhum órgão, nem do clube ou das instituições às quais eu pertencia”, afirmou à Folha.
“Tem momentos na vida que a gente nem gosta de lembrar. Esse é um deles. Tinha saído do jogo entendendo que tinha feito uma boa atuação, com um lance milimétrico em que hoje, com o VAR, eu teria sido salva”, acrescentou Ana Paula.
“Foi uma situação que mexeu muito comigo, não só pelo afastamento mas principalmente pela falta de apoio”, disse.
Pouco após a polêmica com o Botafogo, Ana Paula passou a ser escalada para atuar em jogos da quarta divisão estadual. Foi quando cedeu às inúmeras investidas da Playboy e aceitou posar nua para um ensaio fotográfico da revista,
Ela deixou logo em seguida a carreira como auxiliar para apostar no entretenimento —foi uma das participantes do reality show A Fazenda, em 2009— e no jornalismo esportivo.
Em 2014, ingressou no departamento de arbitragem da CBF, atuando na coordenadoria feminina e na formação de novos árbitros. Cinco anos depois, assumiu o comando da comissão de arbitragem da FPF, onde permaneceu até 2023.
Ana Paula disse que, também no trabalho como gestora, foi obrigada a conviver com comentários desrespeitosos, principalmente relacionados ao ensaio fotográfico.
“Por ter feito um nu artístico, parece que isso desqualifica, parece que você não vai para a universidade, não faz pós-graduação, não estuda, não tem capacidade cognitiva ou conhecimento técnico”, afirmou.
Ela disse que acompanha com orgulho a nova geração de árbitras brasileiras.
“Ainda há preconceito? Ainda há. Mas o nível de respeitabilidade aumentou muito. Não dá para discutir hoje a qualidade técnica de uma Neuza Back. O homem que fala que ela não é uma assistente competente está deixando claro que tem uma questão de gênero”, disse a ex-bandeirinha.
“Acho que, para chegar a esse ponto a que chegamos hoje, alguém precisou ser sacrificado. E fui eu, lá atrás”, acrescentou.
Tendo atuado nos principais clássicos do Brasil e em finais como as do Campeonato Paulista (2003) e da Copa do Brasil (2006), além dos Jogos Olímpicos de 2004, Ana Paula afirmou que, se a tecnologia do VAR já existisse em sua época, teria alcançado ainda mais sucesso na carreira, possivelmente chegando até a Copa do Mundo no Brasil, em 2014.
“Deus não dá asa para cobra. Se o VAR tivesse chegado na minha época, estaria no campo até hoje e nadando de braçada.”
Autor: Folha








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