Andres Rodriguez deu match com Ellen Froliklong na véspera de Natal do ano passado. Ele usa cadeira de rodas por causa de uma doença que provoca perda muscular, e ela está em tratamento depois de uma crise de saúde mental que, desde então, se estabilizou.
Os dois acabaram conversando até as 4h da manhã.
“Ele disse que estava procurando algo de verdade e que era um livro aberto”, contou Froliklong, 33. “Ele perguntou sobre meu histórico de saúde mental e fui honesta, embora achasse que isso poderia fazê-lo perder o interesse.”
Mas, segundo ela, ele aceitou a situação imediatamente. Ela fez uma pausa e acrescentou: “Também achei ele bonito”.
Os dois se conheceram pelo Dateability, um aplicativo de relacionamento voltado a pessoas com deficiências e condições crônicas de saúde. Embora o alcance do aplicativo seja modesto em comparação com o de muitas plataformas convencionais de relacionamento, sua base de usuários quase dobrou desde 2025 e chegou a 65 mil usuários neste mês, segundo a empresa. Outros aplicativos, como SpecialBridge e Dating4Disabled, também são voltados a pessoas com deficiência.
Froliklong havia evitado os aplicativos convencionais de relacionamento depois que sua doença surgiu. Ela recebe benefício por incapacidade e disse que se sentia desconfortável com a forte ênfase dada às carreiras. Também temia ser vista como “danificada demais”. Rodriguez, que mora com os pais, disse que nunca teve um relacionamento sério.
“O atrativo do Dateability era saber, antes mesmo de começar, que todo mundo ali tem alguma deficiência. Eles não vão julgar você”, disse Froliklong, que agora viaja de sua casa em Cleveland a Chicago duas vezes por mês para ver Rodriguez.
Muitos usuários disseram que foram atraídos pelo Dateability depois de experiências desconfortáveis em encontros com pessoas sem deficiência que conheceram em outros aplicativos, ou depois de terem o coração partido por parceiros que demonstraram pouca paciência com seus problemas de saúde ou os decepcionaram durante crises médicas.
“Eu conversava com pessoas em outros aplicativos e, no momento em que mencionava qualquer problema de saúde, elas simplesmente desapareciam”, disse Jessica Stewart, 29, de Harrison, em Nova Jersey, que conheceu seu parceiro pelo Dateability.
Stewart tem uma condição congênita rara que afeta os sistemas digestivo e reprodutivo. Ela disse que nunca soube qual era o momento certo para contar às pessoas alguns dos aspectos mais complicados —e íntimos, até dolorosos— de seu diagnóstico. Entre eles está o fato de não poder ter filhos, embora queira ser mãe, e de depender de uma bolsa de colostomia presa ao abdome para coletar seus dejetos.
“Se eu estivesse beijando alguém e ele começasse a levantar minha camisa, eu teria de parar e dizer: ‘Preciso dar uma aula de anatomia’”, afirmou. “Era exaustivo.”
Collin LaFon, 28, disse que, em outros aplicativos, sentia que precisava competir com outros homens e que estava em desvantagem.
“Tenho a sensação de que, quando as mulheres veem alguém com problemas de saúde em um aplicativo de relacionamento, é mais ou menos como: ‘Ih, sinal de alerta, fique longe’”, disse LaFon, que tem paralisia cerebral e usa cadeira de rodas. Segundo ele, muitas mulheres procuram um homem “que seja provedor e cuide delas”.
Várias mulheres disseram que homens com quem deram match em outros aplicativos perderam o interesse quando souberam que elas não podiam ter filhos. “Isso é visto quase como uma falha moral”, disse Lori Adams, 31, de Van Buren, no Arkansas.
O estigma existe, mostram pesquisas. Dados indicam que pessoas com deficiência têm menor probabilidade de se casar do que pessoas sem deficiência. E, em pesquisas, jovens adultos afirmaram não estar dispostos a se relacionar com pessoas com deficiência, especialmente aquelas com deficiências intelectuais e do desenvolvimento.
Quando uma pessoa saudável e sem deficiência se casa com alguém com deficiência, ela muitas vezes é tratada como cuidadora e ouve: “Ah, você é uma santa”, disse Rhoda Olkin, psicóloga e autora que teve poliomielite e usa cadeira de rodas para se locomover.
“Não há reconhecimento do valor que a pessoa com deficiência traz para o relacionamento”, disse Robyn M. Powell, professora-assistente de direito na Stetson University, em Gulfport, na Flórida. Ela escreveu sobre as barreiras ao casamento enfrentadas por pessoas com deficiência e também tem deficiência.
Cerca de 8 milhões de americanos com deficiência correm o risco de perder a elegibilidade para programas federais de benefícios em dinheiro ou de sofrer reduções significativas nos benefícios caso se casem ou mesmo passem a morar com um parceiro, segundo Ayesha Elaine Lewis, advogada sênior da organização sem fins lucrativos Disability Rights Education & Defense Fund. O casamento também pode colocar em risco o acesso de pessoas com deficiência ao seguro de saúde pública, que oferece serviços essenciais de atendimento em casa.
“Todos esses programas são estruturados com base na suposição de que pessoas com deficiência não teriam relacionamentos nem formariam famílias”, disse Powell. “No fim das contas, é: ‘Você quer amor ou quer sair da cama?'”
O Dateability foi idealizado por Jacqueline Child, 32, que disse ter lúpus, artrite reumatoide e várias outras condições crônicas incapacitantes, e por sua irmã, Alexa Child.
As duas tiveram a ideia durante a pandemia de Covid, depois de Jacqueline passar por algumas experiências desagradáveis em aplicativos convencionais de relacionamento. Ela contou que um homem com quem saiu disse que seria egoísmo da parte dela ter filhos devido às suas condições de saúde, enquanto outro afirmou que sua mãe lhe dissera que sua vida “seria miserável” se ele continuasse com ela. Alexa contou que foi ignorada por um homem após insistir em um restaurante ao ar livre, uma medida que tomou para proteger pessoas imunocomprometidas, como sua irmã.
Elas lançaram o Dateability em 2022, com aplicativos para celular e uma versão para navegador que agora é acessível a pessoas com deficiência visual ou destreza manual limitada. Os usuários podem optar por identificar seus problemas de saúde nos perfis, selecionando uma lista de deficiências e doenças crônicas ou digitando as informações.
“A deficiência é muito mais comum do que as pessoas imaginam e varia muito”, disse Jacqueline Child. “Alguém com depressão pode se identificar como pessoa com deficiência ou doença crônica, ou alguém que tem diabetes —há realmente muitos de nós por aí.”
Poder se conectar com pessoas que estão em uma situação semelhante “dá às pessoas uma sensação de normalidade”, disse Jacqueline Child.
O aplicativo não tem como objetivo marginalizar pessoas com deficiência nem sugerir que elas devam se relacionar apenas com outras pessoas com deficiência; adultos saudáveis e sem deficiência também podem participar, disse Alexa Child.
Até agora, o aplicativo levou a pelo menos um casamento —o de LaFon e sua mulher, Kaci LaFon, que tem uma doença hereditária do tecido conjuntivo. Eles deram match em maio de 2024 e ficaram noivos em novembro daquele ano. O casamento, realizado em setembro passado, foi destaque na revista People.
Atualmente, o casal mora em um apartamento no porão da casa da mãe de LaFon, perto de Birmingham, no Alabama. Mas eles sonham com uma casa própria em Atlanta. Querem viajar —França e Irlanda estão no topo da lista— e dizem que gostariam de ter filhos, embora precisassem recorrer a uma barriga de aluguel.
“Talvez isso não aconteça da maneira que as pessoas consideram normal, nem no prazo que elas consideram normal, mas podemos encontrar uma maneira de contornar qualquer coisa”, disse LaFon.
Autor: Folha








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