
Uma recente descoberta transformou uma escola de ensino médio de Roma em um novo ponto de interesse para pesquisadores da história do Império Romano. Debaixo do ginásio do colégio Liceo Scientifico Cavour, na região central da capital italiana, arqueólogos encontraram uma residência de luxo construída há cerca de 1.800 anos, com afrescos, mosaicos e ornamentações preservados.
A escavação foi iniciada em janeiro de 2026, depois que relatos feitos por estudantes sobre a existência de ambientes subterrâneos chegaram à Superintendência Especial de Roma por intermédio da professora de História e Latim Claudia Marino.
Os arqueólogos confirmaram que os espaços pertenciam a uma antiga domus, como eram conhecidas as casas das famílias mais ricas da Roma Antiga.
O curioso é que, durante anos, os alunos dessa escola contavam histórias sobre a existência de salas escondidas debaixo do ginásio onde praticavam esportes. Mas a lenda era real.
O imóvel preserva murais coloridos, mosaicos, relevos de estuque e outros elementos que ajudam arqueólogos a compreender como vivia parte da elite da Roma Antiga.
Como e onde a descoberta da casa luxuosa de 1.800 anos aconteceu?
Os primeiros indícios surgiram muito antes das escavações. Segundo a revista Live Science, diversos alunos exploraram, por conta própria, túneis subterrâneos existentes sob o prédio da escola e encontraram corredores e salas antigas.
A situação mudou quando Claudia Marino foi informada sobre as explorações clandestinas. Ela comunicou sobre o local ao órgão responsável pelo patrimônio arqueológico da cidade. A descoberta, porém, só foi divulgada em maio deste ano, pelo professor Filippo Coarelli, arqueólogo da Universidade de Perugia, na Itália.
O Liceo Scientifico Cavour fica situado em uma das áreas mais históricas de Roma, próxima ao Coliseu e ao Fórum Romano. Antes de funcionar como escola, o edifício abrigava uma congregação missionária católica.
Quando essa construção foi erguida, no fim do século XIX, arqueólogos já haviam encontrado parte de uma antiga domus. Mesmo assim, boa parte da construção permaneceu soterrada por mais de um século.
A região possui enorme importância histórica. Os historiadores acreditam que políticos famosos da Roma Antiga mantiveram residências neste bairro durante o período do Império Romano.
Os arqueólogos concluíram que a casa foi construída em meados do século II d.C. Até o momento, apenas uma parte da residência foi escavada, já que a estrutura continua abaixo do prédio da escola e provavelmente se estende por áreas ainda não exploradas. Por enquanto, o sítio arqueológico recebeu o nome de Domus Liceo Cavour.
Como é a residência encontrada embaixo do ginásio da escola romana?
Embaixo do piso do ginásio estavam preservados diversos cômodos da antiga residência. Os arqueólogos encontraram paredes praticamente intactas, corredores estreitos e salas decoradas, protegidas durante séculos por camadas de terra e entulho.
Segundo Coarelli, um dos responsáveis pelas escavações, o trabalho foi particularmente complexo devido aos espaços reduzidos, sem iluminação natural e com pouca circulação de ar. Antes da retirada dos sedimentos, foi necessário reforçar parte da estrutura para evitar riscos de desabamento.
A residência preserva diversos elementos típicos das mansões da elite romana do século II. Entre os principais achados estão:
- murais com figuras humanas e motivos florais;
- decorações em estuque nos tetos em forma de abóbada;
- frisos ornamentais e desenhos geométricos;
- um mosaico preto composto por grandes pedras irregulares, estilo considerado sofisticado para a época;
- fragmentos de cerâmica, como ânforas e recipientes utilizados no cotidiano.
Os pesquisadores também identificaram grafites muito mais recentes, feitos entre as décadas de 1920 e 1950 por estudantes, visitantes e outras pessoas que tiveram acesso aos ambientes subterrâneos antes deles serem novamente esquecidos.
Quem eram, de fato, os moradores da residência?
Os pesquisadores ainda não chegaram a uma conclusão sobre quem morou na residência. Segundo a Live Science, uma inscrição encontrada durante escavações realizadas no século XIX sugere que a residência pode ter pertencido a um integrante da família Umbrius, grupo sobre o qual existem poucas informações históricas.
Porém, os arqueólogos acreditam que eles são originários do centro-sul da Itália, próximo à Pompeia, e mudaram para a região.
Já o portal Wanted in Rome relata que análises estratigráficas identificaram antigos proprietários. O primeiro deles seria L. Fabius Gallus, um senador romano do século II d.C. Ele serviu como cônsul sufecto (equivalente a um vice-presidente) no ano de 131 e é conhecido principalmente por ser citado em objetos arqueológicos, como selos em canos de chumbo, já que ele teria sido o proprietário de um sistema de abastecimento de água privado em Roma.
As análises também identificaram, posteriormente, uma mulher chamada Umbria Albina como proprietária do imóvel. Ela teria sido uma aristocrata romana. O nome de Umbria também foi encontrado em canos de água. Os arqueólogos ainda estudam os vestígios para determinar com maior precisão quem ocupou a residência ao longo dos séculos.
Seja de Umbria ou de Gallus, a casa encontrada era considerada nobre para a época. Isso acontece porque, na Roma Antiga, a decoração era um dos principais indicadores de riqueza. Os afrescos preservados, os detalhes em estuque e o mosaico encontrado mostram que os proprietários investiram em acabamentos sofisticados, típicos das residências das famílias mais ricas do Império Romano.
O chamado “vermelho pompeiano”, uma tonalidade muito utilizada na pintura mural romana, ainda aparece vivo em parte das paredes, mesmo após quase dois mil anos. Para os arqueólogos, a preservação dos ambientes oferece uma rara oportunidade de observar técnicas construtivas, padrões decorativos e aspectos do cotidiano da elite romana.
Roma ainda esconde construções antigas sob a cidade moderna
Roma é considerada uma das cidades arqueologicamente mais complexas do mundo. Ao longo de mais de dois mil anos de ocupação contínua, novas construções foram erguidas sobre edifícios antigos, criando sucessivas camadas históricas embaixo de ruas, praças e imóveis modernos.
Por isso, escavações para obras de infraestrutura frequentemente revelam templos, casas, estradas, aquedutos e outros vestígios do passado romano.
No caso do Liceo Cavour, o local também vai ser fruto de estudos, mas as escavações ainda não foram concluídas. Os pesquisadores acreditam que a residência continua sob outras áreas da escola e poderá ser investigada futuramente.
A direção do colégio e a Superintendência Especial de Roma estudam abrir o sítio arqueológico para visitação pública. Entre as possibilidades discutidas está a participação dos próprios estudantes como guias, apresentando aos visitantes a história da residência descoberta debaixo do ginásio onde estudam.
Autor: Gazeta do Povo








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