Quase metade da renda dos brasileiros está comprometida em dívidas com instituições financeiras, segundo o Banco Central (BC). Há seis anos, em janeiro de 2019 – antes da legalização das apostas online (bets) –, esse percentual era de 39%.
Um estudo divulgado em março pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) e pela FIA Business School mostra que as apostas já aparecem como principal fator associado ao endividamento familiar no Brasil. Esse impacto é quase duas vezes maior do que o dos juros, que estão em um dos maiores níveis da história, e do crédito.
O estudo aponta que para cada aumento de 1% em apostas, o endividamento cresce 0,23%. Para especialistas ouvidos pela reportagem, o número revela um novo risco de crédito que supera os fatores tradicionais de mercado.
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Perfil e comportamento dos apostadores brasileiros
O mercado das bets no Brasil cresceu fortemente desde a legalização, em 2019. Em 2025, as apostas online se consolidaram como fenômeno econômico de escala massiva: 26,4 bilhões de acessos aos sites de apostas e faturamento de R$ 50,9 bilhões, segundo dados da plataforma Aposta Legal, que monitora o segmento.
Essa escala posiciona o mercado de bets como o segundo destino mais visitado da internet brasileira, atrás apenas do Google. “Não é um fenômeno de nicho; tornou-se cultura de massa, com crescimento de interesse superior a dez vezes em quatro anos”, afirma Claudio Felisoni de Angelo, presidente do Ibevar e professor da FIA.
Um estudo especial realizado pelo Banco Central a pedido do Senado, publicado em agosto de 2024, traçou um perfil dos apostadores brasileiros. Entre eles, a maior concentração ocorre na faixa dos 20 aos 30 anos.
O gasto médio desses jovens é de aproximadamente R$ 100 mensais. Já entre os usuários com mais de 60 anos, o gasto médio ultrapassa os R$ 3 mil por mês, com potencial de comprometer a segurança financeira na aposentadoria.
O estudo norte-americano aponta que a persistência nas apostas leva à alavancagem financeira. Uma vez que o indivíduo realiza a primeira aposta, a probabilidade de continuar permanece elevada, entre 50% e 60%.
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Padrão americano de consumo de bets já se replica no Brasil
A experiência norte-americana serve como alerta. Em 2018, a Suprema Corte dos EUA derrubou a proibição de apostas esportivas. O volume apostado saltou de US$ 1,1 bilhão por mês, em 2019, para US$ 13,8 bilhões em 2025 – crescimento de 1.154%, destaca um estudo publicado por pesquisadores da Universidade de Wisconsin, da Universidade do Kansas e da Brigham Young University.
O Brasil está replicando esse padrão em tempo real, com a mesma velocidade observada nos EUA, constatam o Ibevar e a FIA Business School. Com base no estudo americano, o relatório técnico das duas instituições aponta que a legalização das apostas reduziu os depósitos em corretoras americanas em cerca de 14%.
“Esse desvio é permanente, não temporário. É uma mudança no comportamento financeiro das famílias”, destaca Felisoni.
Nos EUA, para cada dólar depositado em aplicativos de apostas, reduzem-se os depósitos em contas de corretoras em cerca de 20 centavos, sugerindo substituição de investimentos por apostas.
Bets afetam orçamento mensal, investimentos e crédito
Para o presidente do Ibevar, as apostas online não apenas disputam espaço no orçamento das famílias, mas também reduzem sistematicamente os depósitos em investimentos e aumentam a dependência de crédito para despesas correntes. “Elas resultam em um escoamento sistemático que obriga o uso de crédito para despesas correntes”, afirma Felisoni.
“A conclusão do estudo é clara: o crescimento acelerado do mercado de bets não é só uma questão regulatória ou tributária. Trata-se de um fator macroeconômico com potencial de ampliar a vulnerabilidade financeira e pressionar o endividamento doméstico no médio e longo prazo”, prossegue.
O cenário mais crítico envolve beneficiários do Bolsa Família. Segundo o estudo do Banco Central de agosto de 2024, 5 milhões de beneficiários apostaram, enviando R$ 2 bilhões para plataformas naquele mês — equivalente a 1% do orçamento anual do programa (R$ 245 bilhões).
Arrecadação de impostos com bets pode ser ilusão fiscal
Apesar dessa drenagem, o governo arrecadou R$ 8,82 bilhões com jogos de azar e casas de apostas no acumulado de janeiro a novembro de 2025, segundo a Receita Federal. Contudo, essa receita tributária pode ser uma ilusão fiscal.
De acordo com pesquisadores americanos, os ganhos imediatos do estado tendem a ser parcialmente anulados pela redução de impostos sobre ganhos de investimento, já que a migração do capital de contas de investimento para apostas reduz os depósitos em corretoras, significando menos Imposto de Renda.
Em paralelo, há tendência de aumento de custos públicos, com o estresse financeiro das famílias – saúde mental, programas de insolvência, assistência social – tendendo a crescer, anulando assim os ganhos tributários.
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Autor: Gazeta do Povo








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