A primeira fábrica do Brasil de curativos à base de pele de tilápia será instalada em Jaguaribara, no interior do Ceará. O empreendimento terá investimento inicial superior a R$ 52 milhões e pretende transformar um subproduto da piscicultura em biomaterial de uso médico.
Do total previsto, o governo do Ceará aprovou até R$ 28 milhões para a construção da parte física. A estrutura terá ambientes controlados, sistemas de filtragem e controle do ar, pisos sanitários e instalações compatíveis com boas práticas de fabricação.
A iniciativa privada ficará responsável por equipamentos, tecnologia, licenciamento, validação e operação. O Grupo Biotec faz parte do consórcio responsável pelo projeto industrial em conjunto com a Inova Medical.
Segundo Bruno Braga, diretor de negócios do Grupo Biotec, a construção da fábrica deve começar entre outubro e novembro deste ano, com previsão de conclusão em até 12 meses.
Em paralelo, a empresa já iniciou os procedimentos junto à Anvisa para o registro do produto. Depois de concluída a estrutura, serão realizados os primeiros lotes em boas práticas de fabricação (BPF). Esses lotes também serão utilizados no processo de registro.
Estado quer atrair nova economia com a inovação
O secretário de Desenvolvimento Econômico do Ceará, Fábio Feijó, afirma que o projeto representa uma mudança na política de atração industrial do estado.
“Historicamente, o estado construiu galpões industriais que foram fundamentais para levar fábricas, empregos e renda a diferentes municípios. Em Jaguaribara, estamos ampliando esse modelo para atender às exigências das indústrias da nova economia”, explica.
Segundo Feijó, a estrutura construída com recursos públicos permanecerá como patrimônio estadual e será cedida à empresa.
Como funciona o curativo à base de pele de tilápia?
A tecnologia foi desenvolvida a partir de pesquisas da Universidade Federal do Ceará (UFC), no Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos, e passou por diferentes etapas de testes antes de chegar à perspectiva de produção industrial.
Segundo o professor Carlos Roberto Koscky, um dos inventores do curativo, foram realizados inicialmente testes in vitro para verificar se o material era tóxico para as células. Depois, vieram os testes em animais e, posteriormente, os ensaios clínicos em seres humanos.
Nos estudos com pacientes que sofreram queimaduras de segundo grau, o curativo apresentou resultados superiores ao tratamento tradicional com pomada antibiótica em aspectos como dor e necessidade de trocas. “Foi melhor porque reduziu muito a dor dos pacientes; esse foi o principal resultado. E acelerou um pouquinho, mas acelerou, o tempo de tratamento”, disse.
A redução das trocas é um dos diferenciais do material. Enquanto o tratamento convencional exige substituição frequente do curativo, a pele de tilápia liofilizada adere ao leito da ferida e permanece ali durante o processo de regeneração. Em casos de queimaduras de segundo grau de pequena a média extensão, o professor afirma que, em tratamentos de até 20 dias, foram observadas no máximo três trocas.
A explicação para o desempenho está, em parte, na composição da pele. Ela apresenta mais de 90% do peso em colágeno do tipo 1, proteína também encontrada na pele humana. Além da quantidade elevada, os pesquisadores identificaram uma organização das fibras de colágeno que apresenta maior semelhança com a pele humana do que a observada na pele de porco, utilizada como biomaterial em alguns países.
“Não apenas o colágeno da tilápia é semelhante ao colágeno humano, como também a organização das suas fibras é semelhante também, o que também sugere uma boa compatibilidade”, afirma Carlos.
O professor ressalta, porém, que essas características não são exclusivas da tilápia. O que tornou o peixe especialmente interessante para a pesquisa foi a disponibilidade da matéria-prima. “Nós agregamos valor a um subproduto de descarte da indústria de alimentos. Nós transformamos o lixo em uma solução biomédica”, resume.
A tecnologia utiliza a pele limpa e tratada do peixe e pode ser preparada de duas formas. Uma delas utiliza glicerol e exige refrigeração. A outra é a versão liofilizada, que está no centro do projeto industrial e pode ser armazenada em temperatura ambiente.
A liofilização retira a água da pele por sublimação, fazendo com que o gelo passe diretamente para o estado gasoso. Com menos umidade, os microrganismos não conseguem se multiplicar com facilidade. Como o processo ocorre com a pele congelada, sem uso de calor, a estrutura do tecido é preservada. Depois da limpeza e descontaminação, o material também passa por radiação gama, uma etapa adicional de segurança para eliminar possíveis bactérias e vírus remanescentes.
Fábrica deve ampliar produção e atender SUS
Atualmente, a produção da tecnologia ocorre em escala limitada nos laboratórios da universidade UFC. A nova unidade deverá levar o processo para o ambiente industrial, mas isso exigirá adaptações.
Carlos explica que o método desenvolvido pela universidade foi concebido em escala laboratorial, enquanto a empresa responsável pelo licenciamento terá de desenvolver os processos necessários à produção em larga escala.
Entre os desafios estão a definição de parâmetros para a liofilização em grandes volumes, o controle da umidade residual da pele, a padronização da quantidade de matéria-prima e insumos e o tratamento dos resíduos gerados pela produção.
De acordo com Bruno Braga, a capacidade inicial estimada é de cerca de 4 mil peles processadas por dia, com possibilidade de chegar a 12 mil. Segundo o diretor, a empresa pretende inicialmente priorizar o mercado brasileiro, especialmente o Sistema Único de Saúde (SUS), sem deixar de atender à demanda internacional.
“Logo a gente já deve iniciar uma expansão para atender principalmente o mercado exterior”, afirma.
A escolha de Jaguaribara está ligada à produção de tilápia no Vale do Jaguaribe. Próximo ao Açude Castanhão, o município é o maior produtor da espécie no Ceará, segundo Feijó. A estratégia é fazer com que mais valor da piscicultura permaneça na região.
“Para aproveitar a pele como matéria-prima será necessário fortalecer o beneficiamento local, especialmente a filetagem. Isso abre espaço para novas unidades de processamento, fornecedores, cadeia de frio, transporte, embalagem, controle sanitário, rastreabilidade e logística”, afirma o secretário.
A expectativa é gerar receita adicional e maior aproveitamento econômico de cada peixe. O empreendimento deverá criar empregos operacionais e especializados, além de vagas para farmacêuticos, biólogos, químicos e engenheiros.
De acordo com Feijó, a empresa pretende desenvolver programas de capacitação em parceria com a UFC e instituições como o Senai Ceará.
Para Braga, porém, um dos principais potenciais do produto está no impacto que ele poderá produzir no tratamento de queimaduras. Segundo ele, a tecnologia pode reduzir os custos desse tipo de tratamento para o SUS. “Esse produto pode reduzir em 50% os custos para queimados para o SUS, porque ele reduz a hotelaria, reduz a necessidade de equipe médica e de trocas de curativos. Para o SUS é um ganho gigantesco”, afirma.
Anvisa ainda precisa aprovar produto e fábrica
Apesar dos resultados obtidos nas pesquisas, o curativo ainda não está pronto para comercialização em larga escala. Antes disso, será necessário cumprir novas etapas regulatórias.
Segundo Carlos, o material já passou pelas fases clínicas 1 e 2, mas ainda falta realizar a fase 3. Além disso, a empresa terá de avaliar com a Anvisa se os estudos anteriores atendem integralmente às exigências para o registro do produto.
A Anvisa também deverá fiscalizar a fábrica. “Não basta o produto ser intrinsecamente seguro, ele tem que ser produzido com segurança também, para que não cause nenhum dano ao consumidor final”, explica o professor. Entre as preocupações estão a presença de microrganismos e possíveis resíduos químicos decorrentes do processo industrial.
Outro ponto de controle será a própria origem da matéria-prima. A empresa precisará estabelecer critérios para os fornecedores de pele, incluindo qualidade da água dos tanques, condições sanitárias, alimentação e manejo dos peixes. Após a retirada da pele, ela deverá ser imediatamente limpa e mantida sob refrigeração até chegar à unidade de processamento.
O projeto também mira o mercado internacional. Segundo Bruno Braga, já existem negociações avançadas com México, Portugal e Turquia, mas a prioridade inicial é atender o SUS.
Autor: Gazeta do Povo








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