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Citrato em excesso em alimentos pode causar pré-diabetes – 23/05/2026 – Equilíbrio

Frutas cítricas como limão, lima, laranja e tangerina, entre várias outras, são ricas em um sal chamado citrato. Derivado do ácido cítrico, esse sal é uma molécula central para o funcionamento do organismo: participa do metabolismo celular, transforma nutrientes em energia, ajuda no equilíbrio químico do sangue e da urina e tem papel importante na saúde óssea e renal.

Por ser um componente natural de diversos alimentos, o citrato é considerado seguro do ponto de vista toxicológico e nutricional. Por isso, não há limite estabelecido por qualquer agência reguladora no mundo para sua utilização.

Embora seja um componente natural de quase todos os alimentos, em especial das frutas cítricas, os efeitos do consumo excessivo são pouco conhecidos. A quantidade de citrato adicionada a alimentos processados e ultraprocessados não tem qualquer controle.

Para ter uma ideia, a quantidade de citrato em 200 ml de suco de laranja industrializado é mais de dez vezes superior à sua quantidade em um suco de laranja fresco.

Nosso grupo de pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro resolveu então estudar os efeitos dos citratos que são utilizados como aditivo alimentar e que estão presentes na grande maioria dos alimentos com algum grau de processamento.

Além das frutas cítricas, citratos estão em leite de caixinha, achocolatados, refrigerantes, bebidas energéticas, chás prontos, sucos de caixinha, requeijão, queijos processados e uma infinidade de outros produtos. Estudamos os citratos de sódio, de potássio, de ferro e do ácido cítrico. Esses aditivos são utilizados como reguladores de acidez, estabilizantes, emulsificantes e conservantes.

Mesmo que não seja possível saber qual o consumo médio de citrato, estimamos que a ingestão mais do que triplicou com a transição alimentar, processo de mudança nos hábitos humanos que ocorre em todo o mundo.

De uma forma geral e numa visão drástica, deixamos de comer alimentos in natura e passamos a consumir, cada vez mais, alimentos com algum grau de processamento. Isso ocorre em função de vários fatores, incluindo o crescimento da população e a necessidade de maior produção de alimentos e de sua conservação por mais tempo.

De uma forma geral, a grande preocupação com relação à qualidade dos alimentos está atrelada ao seu valor nutricional, e a demonização dos alimentos ultraprocessados tem tido seu foco no que chamam de calorias vazias.

Essas calorias vazias são associadas ao excesso de açúcares, principalmente o açúcar refinado e as gorduras. Também o álcool de bebidas alcoólicas.

É fato que o consumo de calorias vazias está associado a diversos problemas de saúde, em especial o ganho de peso excessivo, levando ao sobrepeso e à obesidade. O consumo excessivo de calorias, em especial as calorias vazias, tem sido associado à pandemia de sobrepeso mundial, que não discerne gênero, classe social ou idade.

Uma questão importante que nós identificamos em um trabalho recente é que o consumo de calorias vazias em excesso, mesmo que de forma esporádica —uma vez por semana, por exemplo—, traz consequências negativas para a saúde.

Excesso de citratos

Já é consolidado pela ciência que o destino do citrato consumido aponta para sua utilização nas mitocôndrias, onde é oxidado para produzir energia, por meio do ciclo de Krebs. Entretanto, dentro das células, o citrato é utilizado para a produção de gorduras e colesterol e para promover a acetilação e modificação de proteínas e ácidos nucléicos. O citrato tem papel central na regulação metabólica e nos efeitos epigenéticos.

Então, passamos a estudar os efeitos do consumo aumentado de citrato sobre o metabolismo e a fisiologia de camundongos. Nossa hipótese inicial era que o citrato “extra”, ou seja, aquele adicionado aos alimentos e consumido pelos camundongos, atuaria na síntese hepática de ácidos graxos e colesterol. Além disso, teria uma correlação com o aumento do sobrepeso.

Nossos primeiros resultados mostraram que o aumento do consumo de citrato leva a um processo inflamatório sistêmico de baixo grau nos camundongos.

Inicialmente, identificamos os tecidos adiposos brancos como os principais responsáveis por esse processo inflamatório. Posteriormente, vimos que outros tecidos e órgãos, como o fígado, os músculos esqueléticos e o tecido adiposo marrom também estavam comprometidos.

Como consequência desse processo, os camundongos desenvolveram resistência sistêmica à insulina, ou seja, o processo inicial que leva ao quadro de diabetes tipo 2. Tudo isso acontece sem ganho de peso nem mesmo aumento da massa adiposa dos camundongos.

Além disso, no fígado dos animais, houve aumento do depósito de gordura, um processo inicial da esteatose hepática. Por outro lado, um dado curioso é que quando os camundongos consomem uma dieta obesogênica (que leva à obesidade), enriquecida com citrato, eles não desenvolvem obesidade.

Mostramos em um outro estudo que, mesmo mantendo o peso igual ao do grupo controle (que se alimentou de dieta padrão balanceada), esses camundongos desenvolvem resistência à insulina (pré-diabetes) e esteatose hepática, além de outros sintomas compatíveis com a doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica.

Ainda não compreendemos todo o fenômeno. Precisamos entender como o citrato previne o ganho de peso dos camundongos. Estudos em andamento mostram que esse consumo aumentado de citrato também leva à perda de peso em camundongos obesos, porém, sem reverter os problemas de saúde associados à obesidade.

Aparentemente, os efeitos do citrato envolvem a fisiologia do intestino e a modulação da microbiota intestinal.

Em outro trabalho, identificamos que o aumento do consumo de citrato leva a um quadro parecido com a colite, com aumento da permeabilidade intestinal e alteração severa na composição da microbiota.

Os estudos estão em andamento, e ainda temos dúvidas sobre os efeitos do citrato consumido a mais com os alimentos processados e ultraprocessados na saúde. Entretanto, temos certeza de que ele não é inerte. Nossos trabalhos e de outros no mundo mostram que os aditivos alimentares afetam nossa saúde e podem ter um papel relevante no aumento da incidência de várias doenças.

Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original.

Autor: Folha

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