Por trás da cena monumental de Pedro Américo, havia um país rural, escravista, pouco povoado e marcado por conflitos; professor do Departamento de História da UFPR apresenta esse cenário
Com 4,15 metros de altura por 7,6 de largura, Independência ou Morte (1888), de Pedro Américo, é uma das telas mais emblemáticas da história nacional. Difundida aos montes durante o século 20, transformou a Independência brasileira em uma cena monumental, com D. Pedro I no centro, cercado por soldados, cavalos empinados e espadas erguidas. Mas será que a história foi assim? E como era o Brasil que acabava de nascer como país independente? A Ciência UFPR foi investigar.
“E agora, padre Belchior?”
Em 7 de setembro de 1822, o Brasil já não era uma colônia, e integrava o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, criado em 1815, após a transferência da Coroa portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808. Príncipe regente (autoridade que governa em nome do monarca), D. Pedro I voltava de Santos para São Paulo quando recebeu um maço de cartas.
Algumas traziam ordens das Cortes portuguesas que exigiam seu retorno a Portugal e o fim da autonomia brasileira. Outras, como as de sua esposa, Maria Leopoldina, e a do ministro José Bonifácio, o aconselhavam a romper de vez com o país de origem.
O relato mais antigo dessa cena é atribuído a seu conselheiro, padre Belchior Pinheiro de Oliveira, que acompanhava a comitiva. Segundo o vigário, o príncipe teria perguntado o que fazer diante do impasse.
“E eu respondi prontamente: ‘Se V. Alteza não se faz rei do Brasil, será prisioneiro das Cortes e, talvez, deserdado por elas. Não há outro caminho senão a independência e a separação’”, escreveu.
E foi em meio a essas tensões políticas, que se estendiam há meses, que D. Pedro escolheu romper com Portugal ali mesmo. A decisão entrou para a história como o nascimento de uma nação às margens do rio Ipiranga. A proclamação oficial da Independência aconteceria no dia seguinte, com um discurso destinado aos paulistanos, mas, em algumas províncias, a separação só seria consolidada mediante longos conflitos armados. Na Bahia, por exemplo, a expulsão definitiva das tropas de Lisboa só ocorreu em 2 de julho de 1823; no Maranhão, a adesão ao Império do Brasil veio no dia 28.
A frase “Independência ou Morte”, registrada depois no depoimento de Manuel Marcondes de Oliveira e Mello, futuro barão de Pindamonhangaba, que também presenciou a decisão de Dom Pedro, foi incorporada à narrativa do 7 de setembro, e ganhou uma imagem definitiva na tela de Pedro Américo, posteriormente difundida em livros didáticos, jornais e cartões-postais.
Mas como era o Brasil daquela época? Em primeiro lugar, subpovoado, diz o professor Carlos Alberto Medeiros Lima, do Departamento de História da UFPR (Universidade Federal do Paraná). Éramos 4 milhões de pessoas e o atual Paraná, então parte de São Paulo, tinha menos que “meio habitante” por quilômetro quadrado. A título de comparação, em 2022, a densidade era 57,4 hab/km2, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
A maioria da população era livre e pobre, com muitos escravizados. “Para se ter uma idéia, Salvador tinha em torno de 30 mil, e o Rio de Janeiro já era o maior porto importador de escravizados da história da humanidade: eram quase 60 mil em 1821”, diz Lima.
A diferenciação entre cidade e campo não era muito demarcada e, mesmo cidades maiores, como Rio de Janeiro e Salvador, tinham amplos territórios rurais e as áreas então chamadas de subúrbios, zonas de transição entre o rural e o urbano com a presença de chácaras.
Um dos fatores que contribuíram para o preenchimento desses vazios foi a circulação de rebanhos. “Muitos dos animais consumidos no atual Sudeste eram criados no Sul, em fazendas agro pastoris, que tiveram seu auge na época da Independência. Mulas e novilhos caminhavam essa distância toda e eram alimentados no caminho, para não chegarem magros ao destino”, diz o professor.
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Autor: Agencia Paraná








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