Era uma manhã de quarta-feira em abril e Annie Judis havia transformado a cozinha de sua mansão em Beverly Hills em um set de filmagem. Com o iPhone equilibrado em um suporte, a mulher de 82 anos ajustou a iluminação e arrumou seu figurino: um conjunto de ginástica azul-turquesa que mostrava um leve decote, uma faixa combinando na cabeça e óculos com lentes coloridas.
Quando chegou a hora do show, sua empregada deu play em sua música-tema adotada, o animado hino “Good Morning”, de Max Frost. Sorrindo de orelha a orelha, Judis começou a pular corda e não parou por um minuto inteiro.
“Vamos lá, pessoal, vamos nos mexer, vamos nessa!”, diz ela para a câmera. Ela faz essa rotina quase todas as manhãs, cumprimentando seus 187 mil seguidores no Instagram. “Vocês vão precisar dessa energia para os netos.”
Judis atualmente detém o recorde mundial do Guinness de saltadora de corda competitiva mais velha. Ela também adora ter uma plateia: se não compartilha um treino, diz, é como se nunca tivesse acontecido.
Após as filmagens terminarem, sentei-me com Judis à mesa de sua cozinha, com vista para um quintal exuberante e uma piscina de azulejos azuis. Sua poodle miniatura, Carmen, corria entre nossas pernas.
Judis sempre amou as câmeras. No início de sua vida, isso a impulsionou a se tornar uma pioneira em Hollywood como modelo e atriz negra. Ela começou como rainha de concursos de beleza e, em 1969, tornou-se uma das primeiras mulheres negras a aparecer como centerfold (páginas centrais) na revista Playboy, sob o nome artístico Jean Bell.
Mais recentemente, Judis tem se deleitado não apenas em ser a estrela, mas também a diretora, editora e distribuidora de seus vídeos. Parte showwoman, parte palestrante motivacional, ela agora considera como propósito de sua vida desafiar as expectativas das pessoas sobre o que seus corpos podem fazer —e como podem parecer— aos 80 anos e além.
Ela frequentemente carrega uma corda consigo e não hesita em oferecê-la a qualquer um que queira ouvir. “As pessoas dizem: ‘eu não consigo, não consigo pular corda’. Eu digo: ‘apenas tente. Então elas percebem que conseguem pular, e você vê um grande sorriso no rosto delas, como quando eram crianças pequenas”, diz.
‘EU TENHO QUE CONTINUAR’
Crescendo em Houston nos anos 1940 e 1950, Judis gostava de pular corda com as amigas. Mas quase 60 anos se passaram antes de ela adotar isso como uma vocação.
Depois de se sentir entediada com aulas de ginástica convencionais e aparelhos de academia, ela comprou uma corda e disse que ficou “chocada” ao descobrir que só conseguia pular por cerca de 30 segundos antes de ficar ofegante.
Demetri Theodore, seu personal trainer há cerca de 15 anos, ficou cético no início. “Eu disse: você está louca? Você tem 74 anos. Vai machucar suas costas, seus joelhos, seu sei lá o quê, seus ombros, tudo”, disse ele. Ela rapidamente provou que ele estava errado.
Ela se desafiou a pular por um minuto inteiro. “Uma vez que começo algo, tenho que continuar”, diz ela. “Está no meu sangue.” Quanto mais praticava, mais forte e energizada se sentia.
Judis diz que a ideia de tentar um recorde mundial do Guinness veio a ela em um sonho, vários meses depois de começar a pular. Ela pesquisou quando acordou e logo descobriu que o critério para conquistar o recorde era pular por pelo menos um minuto em uma competição oficial. Ela se inscreveu em um evento em San Diego.
Três meses depois, ela chegou à academia onde o evento foi realizado. Aos 75 anos, era a saltadora mais velha por décadas; a maioria estava na adolescência. Ela estava nervosa, mas pulou com confiança pelos 60 segundos exigidos e garantiu o título.
Ao defender seu recorde ao longo dos anos, ela adicionou mais teatralidade às suas apresentações. Em uma performance memorável, ela entrou no palco curvada e vestida como uma caricatura de uma senhora idosa, bengala na mão. Então largou o disfarce, a música “Sexy and I Know It” começou a tocar nos alto-falantes e ela sacou sua corda de pular, sob gritos e aplausos da plateia. “Me diverti muito fazendo isso. Foi a melhor.”
Judis se tornou uma rara embaixadora na comunidade de pular corda, diz Roger Palmenberg, 22, que treina uma equipe juvenil competitiva em Tucson. Quando ela comparece a eventos locais, faz questão de torcer e encorajar os saltadores mais jovens, diz ele. Em 2024, ela até escreveu um livro infantil, “Beverly Hills Jump Rope Queen”.
“Pular corda não tem tanto alcance quanto outros esportes. Ela leva isso a tantas pessoas”, diz Palmenberg.
‘AQUELA CORDA SALVOU MINHA VIDA’
Embora Judis adore ter uma plateia, sua corda de pular também lhe trouxe consolo privado.
Alguns anos antes de redescobrir a corda, seu marido de quatro décadas, Gary, foi diagnosticado com demência. À medida que a saúde dele piorava, pular ajudava a administrar o estresse de ser sua cuidadora, diz ela.
“Ele ficava dormindo, e eu descia, e simplesmente pulava, pulava, pulava”, diz ela. “Sem começar meu dia assim de manhã, eu simplesmente não conseguiria.”
Ela até levava sua corda para o hospital e pulava ao lado da cama dele, diz ela. Quando ele morreu em 2022, ela pulou durante seu luto. “Aquela corda salvou minha vida”, diz ela.
À medida que envelheceu, Judis melhorou na corda de pular, diz Theodore, ganhando velocidade e aprendendo novos truques.
No dia em que a visitei em Beverly Hills, depois que Judis cumprimentou seus seguidores online, ela passou as duas horas seguintes em sua academia doméstica. Ela treinou para o próximo evento com diferentes estilos de cordas de pular. Também fez um dead hang, um farmer’s carry segurando 36 quilos e uma prancha de um minuto. Theodore a acompanhou em cada exercício.
Além de se preparar para competições, Judis diz que agora pula principalmente para aproveitar sua vida. E para ficar bonita. Ela ocasionalmente posta vídeos de si mesma pulando corda de biquíni. “É para fazer as pessoas olharem e verem o que podem fazer na minha idade”, diz ela.
Após seu treino matinal, Judis nos levou para almoçar em seu Escalade vermelho-cereja, que ela decorou —por dentro e por fora— com strass.
Em um clube exclusivo para membros a um quarteirão da Rodeo Drive, ela pediu um hambúrguer com bacon e batatas fritas de acompanhamento. “Tenho um bloqueio psicológico com vegetais”, diz ela, observando que os evita. Ela não bebe nem fuma, diz, com exceção de uma tragada ocasional de maconha, que ela cultiva em seu quintal.
Quando não está pulando, ela gosta de almoços longos com seu namorado (que é mais novo que ela, embora ela não tenha revelado a idade dele) e relaxar em casa em um cobertor aquecido fofinho. “É o meu momento”, diz ela sobre esta fase de sua vida. “Vou aproveitar o máximo que puder.”
De volta à sua casa, ela me disse: “provavelmente vou acabar morrendo enquanto estiver pulando corda”.
Perguntei se era assim que ela gostaria de partir. “É uma boa maneira”, diz ela, pensando por um instante. “Ou fazendo amor.”
Autor: Folha








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