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Copa: Como Cristiano Ronaldo se tornou bilionário – 17/06/2026 – Esporte

Quando Cristiano Ronaldo entrar em campo nesta quarta-feira (17), na estreia de Portugal, contra a República Democrática do Congo, na Copa do Mundo 2026, ele alcançará mais um marco em uma carreira repleta de recordes.

Vestindo a camisa da seleção portuguesa, ele disputará seu sexto Mundial e passará a dividir com o argentino Lionel Messi e o mexicano Guillermo Ochoa o posto de jogador com mais participações em Copas do Mundo.

Mas esse não é o único feito recente do português. No ano passado, Cristiano Ronaldo também atingiu uma marca inédita para um jogador de futebol: tornou-se bilionário. Segundo estimativas do índice Bloomberg, seu patrimônio estimado é de US$ 1,4 bilhão.

Aos 41 anos, Ronaldo continua ativo no futebol profissional e segue sendo uma das figuras mais influentes do esporte no mundo. Sua trajetória financeira atingiu o auge após sua transferência para o Al-Nassr, da Arábia Saudita, em 2023, contrato que teria ultrapassado os 200 milhões de dólares anuais.

Mas, para entender como um garoto da Ilha da Madeira, em Portugal, chegou a esse patamar, é preciso voltar ao início: a uma infância marcada por dificuldades e a uma carreira construída com disciplina extrema e ambição incomum.

Infância sem presentes no Natal

Nascido em 1985 na Ilha da Madeira, território português no Oceano Atlântico, Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro é o caçula de quatro irmãos.

Sua mãe, Dolores Aveiro, trabalhava como cozinheira e faxineira, enquanto o pai, Dinis Aveiro, era jardineiro municipal. Durante boa parte da vida, Dinis lutou contra a depressão e o alcoolismo.

Ronaldo cresceu em uma casa pequena, dividindo o quarto com os irmãos e vivendo uma infância marcada pela escassez. Em diferentes entrevistas, contou que ele e os irmãos chegavam a esperar do lado de fora de um McDonald’s da cidade na esperança de receber hambúrgueres que sobravam ao fim do expediente.

Anos depois, sua mãe revelaria que chegou a cogitar interromper a gravidez de Cristiano Ronaldo por acreditar que não teria condições financeiras de criar mais um filho.

O contato com o futebol veio cedo. Seu pai trabalhava meio período como roupeiro do Andorinha, um clube local onde Ronaldo começou a jogar aos sete anos. Seu talento logo chamou a atenção.

Em menos de um ano, conquistou seu primeiro prêmio individual em um campeonato infantil ao ser eleito o melhor jogador. Apesar da habilidade, ele tinha dificuldades para lidar com as emoções dentro de campo.

De acordo com sua mãe, Dolores, Ronaldo se irritava e chorava facilmente quando os colegas não lhe passavam a bola ou não jogavam do jeito que ele queria –o que fez com que ele ganhasse o apelido de “Chorão”.

Aos nove anos, o português deixou as competições infantis da ilha e foi transferido para o maior clube da Madeira, o Nacional. A transferência foi paga com 20 bolas e equipamentos para o time infantil.

Aos 12 anos, ele deu o passo que mudaria sua trajetória. Após ser aprovado em testes no Sporting, de Lisboa, mudou-se sozinho para a capital portuguesa. A distância da família e as provocações de colegas por causa do sotaque madeirense transformaram esse período em “um dos mais difíceis de sua juventude”, segundo o jogador.

Dois anos depois, Ronaldo foi expulso da escola após jogar uma cadeira em um professor. De acordo com seu relato, o docente havia feito um comentário sobre a pobreza de sua família. O episódio marcou o fim de sua vida escolar. Com o apoio da mãe, decidiu abandonar os estudos e se dedicar integralmente ao futebol.

Um ano depois, Ronaldo seria diagnosticado com um problema cardíaco que quase o tirou dos campos: seu coração batia de forma irregular e, mesmo em repouso, acelerava. Para salvar sua carreira, ele passou por uma cirurgia. Dias após o procedimento, já estava de volta aos treinos.

O episódio reforçou uma característica que marcaria toda a sua carreira: a disciplina quase obsessiva em relação ao futebol.

Obsessão e ascensão no futebol

Em 2002, aos 17 anos, Cristiano Ronaldo foi promovido das categorias de base para o time principal do Sporting. Seu talento rapidamente chamou atenção de clubes ingleses. O Liverpool e Arsenal tinham olheiros em Portugal assistindo aos jogos de Ronaldo toda semana.

Arsène Wenger, na época técnico do Arsenal, chegou a levar o jogador e a mãe dele para Londres, na tentativa de convencê-lo a acertar com o time da capital inglesa.

Mas não deu certo. Em agosto de 2003, o português assinou com o Manchester United com uma taxa de transferência de £12 milhões (o equivalente, na época, a cerca de R$ 56 milhões), o que o tornou o adolescente mais caro da história do futebol inglês.

A contratação veio uma semana após um amistoso entre Sporting e Manchester United, em que Ronaldo teve uma atuação tão impressionante que jogadores do United pediram a Alex Ferguson para contratá-lo.

O português fechou um contrato de cinco anos com o Manchester United, e um salário superior a £1,5 milhão (R$ 7 milhões no câmbio da época) por ano. Ali começava a transformação de Cristiano Ronaldo de uma promessa para estrela global.

Quando chegou ao Manchester United, Cristiano Ronaldo ainda estava longe da imagem física que o tornaria um dos atletas mais reconhecidos do planeta. Tinha acne, usava aparelho nos dentes e era visto como um jovem talentoso, mas ainda em formação.

Foi nesse período que começou a desenvolver a rotina de treinamento quase obsessiva que marcaria toda a sua carreira. Ele passou a treinar com o preparador físico do clube, que disse que nas primeiras semanas Ronaldo afirmou que queria se tornar “o melhor jogador do mundo”.

Seus colegas de time lembram que Ronaldo era o primeiro a chegar ao treino e o último a sair. Ele também nunca faltava aos treinos, mesmo quando surgia um imprevisto.

Em 2009, Ronaldo bateu uma Ferrari que dirigia para ir para o treino. O carro, que tinha apenas dois dias de uso, ficou completamente destruído, mas o jogador saiu ileso.

De acordo com relatos, ele abandonou a Ferrari no local e pegou uma carona porque precisava estar no treino dentro de uma hora, “não tinha tempo” para esperar.

Além de trabalhar os músculos, Ronaldo passou também a trabalhar a mente, deixando de ser facilmente provocado pelos adversários.

No Manchester, ele rapidamente se tornou o jogador mais dominante da Premier League. Na temporada 2007-2008, ele marcou 42 gols pelo Manchester United, ajudando o time a vencer a Premier League e a Champions League – a chamada “dobradinha europeia”.

Aos 23 anos, ganhou sua primeira Bola de Ouro, prêmio dado ao melhor jogador do mundo. Seu salário começou a refletir seu status: ele passou a ganhar mais de £6 milhões por ano (cerca de R$ 18 milhões), cerca de £120 mil (R$ 360 mil) por semana.

Nem todos ao seu redor, porém, testemunharam essa transformação. Seu pai morreu em 2005, vítima de uma doença hepática associada ao alcoolismo.

Durante esse período, Ronaldo encontrou apoio em Alex Ferguson, técnico do Manchester United, a quem se refere até hoje como um “pai no futebol”.

Em sua autobiografia, Ferguson escreveu que Cristiano Ronaldo foi o jogador mais talentoso que ele já treinou –superando todos os outros grandes atletas do Manchester United.

O auge no Real Madrid

Nesse ponto de sua carreira, o salário já não era a principal fonte de renda de Cristiano Ronaldo. Seus contratos de patrocínio cresciam rapidamente e começavam a rivalizar com os ganhos dentro de campo.

A Nike, por exemplo, passou a patrociná-lo em 2003, logo após sua chegada ao Manchester United. O primeiro acordo rendia algumas centenas de milhares de libras por ano, mas, seis anos depois, esse valor já havia saltado para cerca de £9 milhões anuais (R$ 25,6 milhões).

Ao mesmo tempo, Ronaldo acumulava contratos com marcas como Coca-Cola, Suzuki, os videogames da franquia Fifa, Xerox e uma fabricante de bebidas energéticas da Indonésia.

A valorização de sua imagem acompanhava a evolução dentro das quatro linhas e o atacante português começou a buscar um outro clube em que pudesse se destacar ainda mais.

Em 2009, após seis anos jogando no Manchester United, Cristiano Ronaldo foi vendido por € 93 milhões (R$ 236 milhões na época) ao Real Madrid. Na época, esse foi o valor de uma transferência recorde mundial. E o Real Madrid concordou em pagar a Ronaldo um salário de €11 milhões (R$ 28 milhões na época) por ano, segundo relatos.

Foi em Madri que Ronaldo atingiu o auge esportivo. Conquistou quatro Bolas de Ouro entre 2013 e 2017, tornou-se um dos maiores artilheiros da história do futebol e protagonizou uma das maiores rivalidades do esporte com o argentino Lionel Messi, então jogador do Barcelona.

Em 2016, foi considerado o atleta mais bem pago do mundo, de acordo com a Forbes. Seu contrato com o Real Madrid rendia aproximadamente €15 milhões anuais (R$ 52,6 milhões) entre salários e bônus, enquanto os acordos comerciais já eram estimados em cerca de € 30 milhões (R$ 105 milhões) por ano.

Além da Nike, patrocinadores como TAG Heuer, empresas de suplementos alimentares e plataformas de pôquer associavam suas marcas à imagem do português.

Foi nesse período que Cristiano Ronaldo percebeu que havia construído algo maior do que uma carreira esportiva. Seu nome havia se tornado uma marca global, capaz de gerar receitas muito além dos gramados e de abrir caminho para os negócios que expandiria nos anos seguintes.

CR7: a criação de uma empresa

Em 2013, Cristiano Ronaldo criou a própria marca, a CR7, que representa as iniciais de seu nome a camisa número 7.

O projeto começou de forma modesta, com cuecas masculinas vendidas a cerca de US$ 30 (R$ 70), mas rapidamente se expandiu para calçados, vestuário, perfumes e outros produtos licenciados. No mesmo ano, o português inaugurou um museu na ilha da Madeira dedicado à sua carreira e aos troféus conquistados.

Nos anos seguintes, a marca entrou em novos setores. Ronaldo investiu na hotelaria, em uma rede de academias, quase sempre por meio de parcerias e acordos de licenciamento.

Ao contrário de empresas tradicionais, grande parte do valor da marca CR7 depende diretamente da imagem pública do jogador. Quanto maior sua relevância global, maior também seu potencial de gerar vendas e atrair parceiros comerciais.

Mas foi no final de 2016 que Cristiano Ronaldo conseguiu uma ‘mina de ouro’ definitiva, quando assinou um contrato vitalício com a Nike. Antes dele, apenas Michael Jordan e LeBron James haviam recebido acordos semelhantes da empresa.

Embora os valores nunca tenham sido oficialmente divulgados, especialistas do mercado esportivo estimam que contratos desse tipo podem render mais de US$ 1 bilhão ao longo de uma vida.

A parceria também previa bônus por desempenho. Ronaldo recebeu premiações milionárias após conquistar a Bola de Ouro de 2016 e repetir o feito em 2017. Para a Nike, porém, o investimento fazia sentido: o português estava se transformando em um dos maiores fenômenos das redes sociais.

Em 2018, ele ultrapassou Selena Gomez e se tornou a pessoa mais seguida do planeta no Instagram – atualmente ele conta com 666 milhões de seguidores – ampliando ainda mais seu poder comercial. Ele também foi a primeira pessoa a atingir meio bilhão de seguidores na plataforma.

De volta ao Manchester United

Mas o acordo vitalício de Ronaldo com a Nike era estruturado por meio de um contrato específico de dez anos, que previa, entre outras condições, que o jogador continuasse atuando em um clube de primeira linha.

Em média, jogadores de futebol profissionais se aposentam por volta dos 35 anos. Com esse contrato, ele ainda tinha anos pela frente nos campos. Então, em 2018, aos 33 anos, ele deixou o Real Madrid e foi para a Juventus.

O clube italiano pagou €112 milhões pela negociação (R$ 500 milhões), a maior quantia já desembolsada por um jogador com mais de 30 anos. Seu novo contrato garantia ao português um salário anual em torno de € 30 milhões (R$ 134 milhões em câmbio da época).

O impacto econômico da contratação foi imediato. Em menos de 24 horas após o anúncio, a Juventus ganhou cerca de cinco milhões de novos seguidores nas redes sociais. Na primeira temporada de Ronaldo, a receita do clube aumentou em aproximadamente € 58 milhões (R$ 260 milhões) e as vendas de camisetas praticamente dobraram.

Dentro de campo, porém, a passagem pela Itália não atingiu as expectativas criadas.

Depois de três temporadas, Ronaldo retornou ao Manchester United, em 2021.O clube inglês pagou cerca de € 15 milhões (R$ 91 milhões) pela transferência, um valor muito inferior ao desembolsado pela Juventus três anos antes.

Aos 36 anos, Ronaldo ainda atuava em alto nível, mas já não dominava as partidas com a mesma frequência dos melhores anos de sua carreira. Ao mesmo tempo, os conflitos internos se intensificaram.

No fim de 2022, o português concedeu uma entrevista em que criticou publicamente o técnico Erik ten Hag, antigos companheiros e a direção do clube. Poucos dias depois, o Manchester United anunciou a rescisão de seu contrato, em mútuo acordo.

Em dezembro de 2022, na Copa do Mundo no Catar, Ronaldo já não era mais o jogador estrela. Pesquisas em jornais portugueses chegaram a pedir que o técnico da seleção o deixasse de fora.

Nos dois últimos jogos de Portugal, ele ficou no banco de reservas e saiu chorando do campo quando a seleção portuguesa foi eliminada.

Parecia o fim da carreira de Cristiano Ronaldo, mas a contratação mais lucrativa do jogador ainda estava por vir e o tornaria um bilionário.

O bilionário

Em 2023, aos 37 anos, Cristiano Ronaldo assinou um contrato avaliado em mais de US$ 200 milhões (R$ 991 milhões) por ano com o clube saudita Al Nasser e se mudou com a família para Riad, na Arábia Saudita.

O movimento foi parte de uma estratégia maior do país de atrair grandes nomes do esporte mundial, aumentando a visibilidade de sua liga – algo semelhante ao que os EUA fizeram com Lionel Messi – e ampliando sua influência internacional.

A contração foi criticada, já que a Arábia Saudita é acusada de violar diversos direitos humanos. Mas, isso não parece ter feito diferença para o jogador. Em 2025, ele estendeu esse contrato com o Al Nasser, que, segundo relatos, agora vale US$ 400 milhões (R$ 2,2 bilhões).

Ele também adquiriu uma participação de 15% no clube, o que o tornou o primeiro bilionário do futebol com uma fortuna estimada de US$ 1,4 bilhões, segundo a Bloomberg.

Um pequeno grupo de atletas alcançou esse marca até hoje. Mas Cristiano Ronaldo se diferencia até mesmo dentro dessa elite por um motivo: a maior parte de sua fortuna foi construída com aquilo que ele fez em campo.

A maioria dos atletas bilionários acumulou riqueza principalmente por meio de patrocínios, participações em empresas ou investimentos. Michael Jordan, por exemplo, transformou sua parceria com a Nike no principal motor de sua fortuna.

No caso de Ronaldo, embora seus negócios e contratos publicitários sejam gigantescos, seu salário como jogador continua sendo a base de seu patrimônio.

Isso não significa que ele tenha ignorado o mundo dos negócios. O português recebe cerca de US$ 18 milhões (R$ 101 milhões) por ano da Nike, expandiu a rede de hotéis CR7 e investiu em uma cadeia de clínicas de transplante capilar. É um exemplo de como a fama construída no esporte pode ser convertida em marcas, empresas e novas fontes de renda.

Em algum momento, Ronaldo deixará os gramados. Esta deve, inclusive, ser sua última Copa do Mundo. Mas sua trajetória já oferece uma lição rara: a de um atleta que conseguiu transformar desempenho esportivo em um império financeiro global.

*Esta reportagem foi escrita com base no episódio “Cristiano Ronaldo: o primeiro jogador de futebol bilionário” do podcast Good Bad Billionaire, do Serviço Mundial da BBC.

Autor: Folha

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