A cultura do futebol do Brasil vive na linha tênue entre realismo e fantasia. Assim como nós, brasileiros, vivemos entre a euforia e a depressão, ouvimos antes de enfrentar o Marrocos que o rival seria difícil. Depois do empate por 1 x 1, inconformismo com o desempenho.
Há dois motivos para a atuação ruim: os erros do time de Carlo Ancelotti; os acertos do adversário.
Nem todo mundo se lembra disso o tempo todo, mas cada jogo de futebol tem este fator, quase uma novidade: o adversário!
O Marrocos foi semifinalista da Copa 2022. E o Brasil não se preparou bem nestes quatro anos.
A Espanha, sim. Mas empatou por 0 x 0 com Cabo Verde. Em que pese a atuação do goleiro Vozinha, os espanhóis não imaginavam empatar na estreia.
Nos últimos 24 anos, os espanhóis formataram a nova cultura do jogo e o Brasil saiu do trilho. No entanto, nas cinco Copas depois do penta, a brasileira foi a única seleção presente em todas as quartas de final. A Espanha só chegou uma vez entre as oito melhores, justamente quando foi campeã (2010).
Quartas é muito pouco para nós. E para a Espanha, de um título, três oitavas de final e uma eliminação na fase de grupos?
A renovação das potências acontece em todos os esportes. O vôlei era dominado por asiáticos e pela Europa oriental até o fim da década de 1970. O Brasil não teve nenhuma dificuldade em assimilar quando Polônia, Bulgária e Japão perderam relevância e as gerações de prata e ouro chegaram a três semifinais olímpicas seguidas.
Agora, a França é bicampeã olímpica no masculino. Antes, não tinha nem bronze. O Brasil, potência, ficou em 17º lugar no Mundial de vôlei do ano passado, sua pior campanha em todos os tempos.
Duas semanas depois daquele fiasco, Ancelotti perdeu do Japão —foi a primeira virada de 2 x 0 para 2 x 3 em 111 anos de seleção. Um amigo encostou em mim e disse: “Uma vergonha!”. Respondi que o Japão era adversário forte. Ele ironizou. Perguntei sobre o resultado do vôlei. Nem sabia.
O futebol tem esse poder de fazer todos os olhos se voltarem para ele. No Brasil então…
Assim como no vôlei, a França é o modelo a ser seguido. Não que seja imbatível. Foi eliminada na fase de grupos em 2010 e nas quartas em 2014, mas a capacidade de lapidar jogadores usando o Centro Nacional de Futebol, em Clairefontaine, torna os franceses candidatos ao título pela terceira vez seguida. Pelo presente, não pela história.
O Brasil precisa voltar a ser produtor da cultura do jogo, dos métodos de treinamento, da formação de treinadores, do garimpo de atletas.
Pode ser muito superior ao que é hoje.
Mas nossa incapacidade de analisar também atrapalha. Empatar com Marrocos jogando mal não é positivo nem é o fim dos tempos. Lembre-se da Olimpíada de 2016. Começou com empates contra África do Sul e Iraque, terminou com festa numa vitória sobre a Alemanha, dois anos depois do 7 x 1.
Os alemães, modelo a ser seguido depois de causar o maior vexame brasileiro da história, caíram na fase de grupos nas duas Copas seguintes.
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O Brasil precisa jogar melhor contra Haiti e Escócia, tentar chegar às semifinais e entender que não está tudo bem. Não estará nem se for campeão do mundo.
A seleção continua entre os mais fortes. Mas calma! Sempre tem o adversário.
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Autor: Folha








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