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Copa do Mundo: Messi e o último tango de nossas vidas – 17/06/2026 – Marcelo Bechler

Com os três gols contra a Argélia, Messi igualou Miroslav Klose como maior artilheiro da história da Copa do Mundo. Ele também é o principal assistente, junto a Maradona e Pelé. Os 16 gols e oito passes não dão a dimensão do que Messi é ou do que ele transmitiu aos amantes de futebol na primeira rodada.

Fazer 16 gols colocou Klose como o maior goleador dos Mundiais, mas não o tornou um jogador maior por conta disso — Mbappé, com 14, certamente passará dos 20 gols em Copas. Os números dizem algo, mas maquiam o essencial. Quando vimos Messi marcar uma e outra vez nesta terça-feira, assistimos a um dos últimos capítulos da trajetória do maior jogador que nós presenciamos.

O debate sobre o domínio absoluto do esporte ainda não parece aberto no Brasil, pelo tabu que é colocar Pelé em qualquer discussão. Mas essa pauta existe em todo o mundo, queiramos ou não.

Vamos tirar nosso 10 desta equação e colocar meu pai.

Itamar tem 62 anos, nasceu em 1964, em Ribeirão Preto (SP), e não viu Pelé jogar ao vivo. Para ele, o melhor sempre foi Zico, e agora é Messi. Meu pai representa um universo imenso de pessoas que vai de crianças nunca viram a adultos de aproximadamente 60 anos que só “viram” Pelé pelo rádio. Para essas pessoas, o melhor que eles puderam acompanhar está dançando seu último tango. Não é o melhor da geração, é o melhor que boa parte das pessoas vivas testemunharam.

Se paramos para pensar no impacto desta conclusão, entendemos por que ficamos tão felizes com três gols de um argentino na Copa. Amamos o futebol e Messi nos entregou por 20 anos o que mais gostamos desse esporte: arte, técnica, leveza, gols. Sempre em alto nível, respeitando o esporte e se mantendo competitivo em todas as circunstâncias.

Não sabemos quem será o novo Messi. Pelé apareceu nos anos 50, Messi no início dos 2000. Será que vamos precisar esperar 50 anos para ver o próximo escolhido? Será que o esporte vai evoluir e ele chegará antes? E irá manter 20 anos no topo?

A última dança de Messi é a mais leve de todas. Já com os títulos que queria alcançar, o que vier é lucro. Léo está se divertindo como talvez nunca tenha se permitido fazer em um campo. Vi-o jogar por anos em Barcelona. Fui morar na Espanha porque queria estar perto dele. Passava os jogos no Camp Nou sem olhar para 100 metros de campo. Olhava só para aquela fração onde ele estava. E nunca o vi tão leve e feliz.

Isso pode se transformar em uma vantagem competitiva para a Argentina. Em um torneio tão tenso, em que os jogadores rangem os dentes a cada partida, estar leve é um diferencial. Ele e seus soldados precisam acertar o tom entre ausência de pressão e preparação, concentração e ritmo competitivo. Caso consigam, ficam mais fortes.

O futebol devia uma Copa do Mundo a Messi e ela foi paga. O que vier agora é lucro.


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Autor: Folha

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